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Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial | Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial |
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| Por Emerson Elias Merhy | |||||||
| 07 de janeiro de 2004 | |||||||
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Este trabalhador, para dar conta destas tarefas, vai ter que se apoiar naequipe, mas vai também ter que atuar, diretamente, no seu caso-referência, vaiter que acolhê-lo na crise. Vai ter que usar de sua clínica, de suasperspicácias, de suas redes de ajuda. Vai ter que gerar intervenções singularese novas redes. Vai ter que, e pode, aproveitar a oportunidade que a crisepermite para ressignificar o Projeto Terapêutico que vem gerindo em relação àqueleusuário. Pode inclusive descobrir novas pistas intersetoriais para criar outrossentidos, para vários de seus casos-referências. Enfim, vai ter que acolher, escutar, ressignificar, expor-se a vínculos ejogos transferenciais, abrir-se em rede, atuar em linhas de fuga. Vai ter queexercer saberes tecnológicos clínicos, construir redes de encontros entrecompetências de intervenção, abrir-se para redes intra-saúde, que possamsuportar e agregar novos agires tecnológicos, inclusive no momento de uma criseque pode se tornar um sério caso de urgência e emergência. Terá que ter rede desuporte. Vejam, alguém exaurido e triste, sem alívio, diante de todas estasdemandas e necessidades, como é que vai gerar vida, além de ter que produzirnovas e inovadoras ações. Este trabalhador, se vier para um grupo que o acolhae se abra para escutá-lo, provavelmente, vai relatar diante disto tudo umagrande sensação de mais exaustão e tristeza. Uma grande sensação de impotência,ou mesmo, vai relatar que só deu conta das tarefas porque não foiantimanicomial, mas sim burocrata do atendimento. Fez o fluxo de atendimentoandar, mas não o domina, nem o compreende. Só tocou o cotidiano. Gerou alíviosnos outros. De fato, muito do que tenho visto, a partir de momentos muito parecidos,são equipes relatando o seu medo com as crises, com as urgências e emergências,e o massacre que tem sido, simplesmente, tocar os fluxos de atendimento. Istotem sido tão significativo, que em uma supervisão concreta alguns trabalhadoreschegaram a montar a seguinte imagem, em uma atividade de supervisão: nósgeramos alívios nos outros, mas não temos nenhum alívio para olhar e repensar onosso trabalho; não sabemos se estamos ou não sendo um coletivo/dispositivoanti-manicômio. E, aí, o desafio que fiz para aequipe - com a qual pude pensar e sistematizar muito do que tem neste texto -,foi o de imaginar as várias possibilidades de produção de uma alegria e umalívio, no cotidiano do trabalhador, implicado com um agir antimanicomial,encarando a produção cotidiana dos seus inversos: a tristeza e a exaustão, parapoder criar uma aposta coletiva de desconstruí-las. Nesta direção, estou sugerindo, além dos eixos alegria e combustão, tomaro foco da produção do alívio produtivo antimanicomial como uma poderosa arma afavor da construção dos CAPS anti-manicômios. O que isso pode significar? Como imaginá-lo? Todo processo de trabalho que captura plenamente o trabalho vivo em atona produção, impede a construção do alívio produtivo pelo trabalhador e a equipe.Dá-lhes grau zero de liberdade para ressignificarem seus atos e inventaremnovas possibilidades e sentidos para os seus fazeres produtivos. OrganizarCAPSs, que aliviam os demandantes, sem se construir mecanismos descapturantesdo trabalho vivo em ato, impede a possibilidade do trabalho em saúde mentaltornar-se um dispostivo de intervenção anti-manicômio. O que coloca, como umagrande tarefa, a construção cotidiana de alívios para o trabalho vivo em atogerar novos caminhos. Como fazer, isso? Sem receitas. Creio que cada coletivo deve problematizar, no seu fazer, aimplicação com o agir antimanicomial e a construção de tempo real de trabalho,no interior da equipe, dirigindo-o, intencionalmente, para fabricar novossentidos para o viver do louco e da loucura na sociedade, abrindo novas pistas,em cada lugar onde os CAPS são construídos. Mas, é possível produzir alívios produtivos no interior da equipe, semnegar que uma das missões seja a de gerar alívios nos demandantes? Será queisso não exige ressignificar o que vimos entendendo como crise/oportunidade econstrução de redes de intervenções na urgência e emergência, em saúde mental?É possível abrir mão de apoio em hospitais gerais? E, onde não existam, os CAPSde "alta complexidade", para acolher e internar nas crises, resolvem? Não conheço uma experiência definitiva que dê conta disso, mas conheçobons exemplos que mostram caminhos diversos. Há aqueles que não abrem mão desuporte especializado em hospitais gerais, para a urgência e emergência, o queme parece uma das boas idéias; há aqueles que criam serviços próprios na redede saúde mental, de uma complexidade distinta para dar conta desta situação; háos que apostam que os CAPS, em si, devem dar conta desta situação; e, assim,por diante. Uma equipe de trabalhadores dos CAPSs que não possa usufruir de alíviosprodutivos e de estados de alegria, de forma implicada, não tem muito a ofertara não ser exaurir para gerar alívios nos outros, como o manicômio já fazia efaz. Há que radicalizar o sentimento deste "bom" medo, em relação às crises, nointerior das equipes, e há que compreendê-las como um "dispositivos emrotação", que ao operarem geram novas formas de cuidado no seu interior, masagitam e mobilizam os outros, que compõem a rede de cuidados, neste mesmosentido. 94,95,,
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