Desculpe, mas este site não é compatível com a versão do navegador que você está usando.

Por favor, atualize seu navegador.

Logo Firefox
Convite Formatura
Início arrow Comunicação arrow Artigos arrow Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial
Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial Imprimir E-mail
Por Emerson Elias Merhy   
07 de janeiro de 2004
Índice de Artigos
Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial
Página 2
Página 3
Página 4
Página 5

Caminhar nestas linhas tem colocado, sobre o ombro dos trabalhadores,"pesos" importantes para o seu agir, e que facilmente geram fazeres árduos, queos fazem experimentar, o tempo todo, sensações tensas e polares, como as depotência e impotência, construindo no coletivo de trabalhadores situações bemparadoxais, nas quais cobram de si e do conjunto posicionamentos profissionaise estados de ânimos muito difíceis de serem mantidos, durante todo o tempo do trabalho;particularmente, para aqueles que ofertam seu trabalho vivo para vivificar osentido da vida no outro.

Não é por acaso, que muitos trabalhadores, em supervisão, falam, como umlamento, da sua exaustão, da sua tristeza, da sua incapacidade de acolher ooutro, o tempo todo, e do seu pavor diante das crises dos usuários. E, cobram,exatamente de si, o oposto: o de estar sempre em prontidão e apto, o de estarsempre atento e alegre, o de ofertar escuta a todo momento, que se fizernecessário, e o de tomar as crises como eventos positivos e como oportunidades.

Por estas manifestações serem comum, tão sofridas e dúbias, é que devemosnos abrir para escutá-las. E, neste sentido, é disso que quero tratar, agora.Antes de mais nada, gostaria de propor que encararemos estas situações comolugares de polaridades não excludentes, e, ao mesmo tempo, estas polaridadescomo constitutivas do "olho do furacão", no qual os CAPS e seus trabalhadoresse encontram. E, assim, como matérias-primas/oportunidades para se pensar, eproblematizar, sobre o modo cotidiano como se fabrica, ou se pode fabricar,CAPSs anti-manicômios.

Os paradoxos docotidiano e o que aprender com eles para pensar a produção dos anti-manicômios

De novo, restrinjo-me ao âmbito dos CAPS, pois poderia tratar daconstrução de anti-manicômios de uma maneira mais alargada, o que seria bempertinente pelo fato do manicomial não ser um lugar, mas uma prática social,cultural, política e ideológica. Entretanto, para efeito do que vem sendo dito,até agora, situar-se no CAPS, já é muito.

Partindo do princípio de que só produz novos sentidos para o viver quemtem vida para ofertar, vou procurar pensar sobre uma equipe alegre, que nãoexaure, que atua na crise como oportunidade.

Neste momento, um outro empréstimo é útil. Spinoza me ajuda a pensar - deforma bem livre - que a vida em produção, como lugar de expressão do divino queé, se manifesta de várias formas. Que a alegria é uma destas manifestações dasmais interessantes, porque um corpo alegre está em plena produção de vida, estáem expansão. Por isso, tomo este empréstimo, para sugerir que só pode estarimplicada com um agir antimanicomial uma equipe de trabalhadores alegres. Ouseja, só um coletivo que possa estar em plena produção de vida em si e para si,pode ofertar, com o seu fazer, a produção de novos viveres não dados, emoutros. Ou, pelo menos, instigá-los a isso.

Tomando a alegria como indicador da luta contra a tristeza e osofrimento, a que são submetidos todos os coletivos de trabalhadores da saúde,podemos utilizá-lo também como analisadora das suas práticas. Não que, comisso, imagino que o coletivo seria um bando de "penélopes saltitantes", mas quepenso o quanto na dobra tristeza/alegria deste coletivo, no seu fazercotidiano, pode estar algumas chaves auto-analíticas para remetê-lo a umadiscussão de seus processos de trabalho e implicações.

Tenho experimentado, isso, com grupos de trabalhadores e me instigado aidéia de que há que se instituir como parte do cotidiano, além das supervisõesinstitucionais e clínicas, arranjos auto-geridos pelos trabalhadores que lhespermitam re-ordenar suas tristezas e sofrimentos, realizando, inclusive,auto-cuidado de si como cuidadores. Arranjos que desloquem, mas os recoloquem,do fazer cotidiano que lhes consome em vida e em ato, como se um fosse um serantropofágico. Situação não difícil de entender em processos de trabalho que sealimentam do trabalho vivo em ato, como qualquer agir em saúde.

Por isso, agrego, sem fundir, a idéia de exaustão ou, melhor, decombustão do trabalhador e da equipe. Aqui, o empréstimo é das linhas deinvestigação que vêem, no campo da saúde do trabalhador, pensando o seu "burnout" como expressão de processos de trabalho altamente exploradores ealienadores. Isto é, trago como indicador analítico a noção de exaustão dotrabalhador, para se agregar ao de alegria/tristeza, no sentido de que umprodutor de novas possibilidades de vida, que para isso consome a sua própria,se não produzí-la o tempo todo, exaure. Ou seja, provoca combustão total de suaenergia vital.

Poder gerar processos, no cotidiano, que exponham estas questões épermitir que o coletivo pense e fale sobre isso; e, assim, atuar sobre aprodução destas situações e estados. Vejo que os trabalhadores, que procuramcaminhar por aí interrogam de modo bem produtivo o seu próprio fazermanicomial, interrogam o que lhes entristecem e exaurem, e com estasinterrogação abrem oportunidades de se re-situarem em relação a novaspossibilidades antimanicomiais.

Ofertando imagens

Imaginem algum trabalhador relatando em um encontro da equipe o sentidode não-vida que adquire ao final de cada dia de trabalho e a exaustão quesente; que, quando sai do serviço ou das atividades, sente um alívioenorme,adquire mais oxigênio e respira melhor; que não sente vontade de voltar no diaseguinte. Imaginem este trabalhador chegando em um CAPS, encontrando dezenas deusuários que irão participar de várias atividades, algumas das quais ele éresponsável; e, de repente, um dos seus 20 casos-referências entra em uma criseséria, na moradia.

94,95,,


 
Últimas Notícias
Entrar / Sair





Esqueceu sua senha?
Sem conta? Crie uma
Fique ligado!

Assine nossos canais:

Leitores
SGD POWERED