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Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial Imprimir E-mail
Por Emerson Elias Merhy   
07 de janeiro de 2004
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Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial
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Aqui, estou considerando como marcador nobre, um dos eixos nucleares dareflexão, a noção de que o trabalho no campo da saúde mental - que se dirigepara desinterditar a produção do desejo e, ao mesmo tempo, gerar redesinclusivas, na produção de novos sentidos para o viver no âmbito social -, é dealta complexidade, múltiplo, interdisciplinar, intersetorial einterprofissional; que, em última instância, só vinga se estiver colado a uma"revolução cultural" do imaginário social, dos vários sujeitos e atoressociais, ou seja, se constituir-se, também, como gerador de novaspossibilidades anti-hegemônicas de compreender a multiplicidade e o sofrimentohumano, dentro de um campo social de inclusividade e cidadanização.

Reforço que este trabalho humano tem que ser portador de capacidade devivificar modos de existências interditados e anti-produtivos, tem que permitirque vida produza vida, implicação última de qualquer trabalho em saúde,enquanto trabalho que opera na sua dimensão tecnológica, centralmente, modos emato de trabalho vivo, que podem e devem, na minha concepção, adquirir sentidona medida que a sua "alma" seja a produção de um cuidado em saúde dirigido paraganhos de autonomia e de vida dos seus usuários. Para quem a vida, como utilidade,faz muito sentido.

Apostar alto deste jeito é se permitir usufruir de ser lugar do novo e doacontecer em aberto e experimental, é construir um campo de proteção para quemtem que inventar coisas não pensadas e não resolvidas, para quem tem que construirsuas caixas de ferramentas, muitas vezes em ato, para quem, sendo cuidador,deve ser cuidado.

Sempre será uma aposta, em boa medida, experimental, construir novosmodos tecnológicos e sociais que permitam o nascer, em terreno não fértil dasubjetividade aprisionada da loucura excluída e interditada, de novaspossibilidades desejantes, protegidas em redes sociais inclusivas.

Por isso, para todos aqueles que estão implicados com estas apostas,imagino, que mesmo que tenhamos pistas sobre como isso foi feito em algumlugar, como algum coletivo já exercitou e realizou isso, devemos nos protegerde tornar estas experiências em paradigmas e receitas, em guias de nossaspráticas; e, sabiamente, considerá-las como pistas, como momentos e lugarespara mirarmos, como alimentos para digerirmos e ressignificarmos com os nossosfazeres, com os nossos coletivos reais, nos nosso mundos concretos.

Proponho entrar nesta aposta de modo crítico, solidário, experimental,impedindo que os inimigos sejam os que façam o nosso questionamento. Façamo-loentre nós, ampliando, desta forma, nossa capacidade de inventar muitas maneirasde ser antimanicomial. Partamos do princípio de que já sabemos fazer um montede coisas e que, também, não sabemos outras tantas, ou mesmo, fazemos coisasque não dão certo; e, com isso, vamos apostar que é interessante e produtivoconstruir "escutas" do nosso fazer cotidiano para captar estes ruídos, nestelugar onde se aposta no novo, mas se está diante da permanente tensão entre onovo e o velho fazer psiquiátrico e/ou seus equivalentes.

Como regra, ao nos depararmos diante de uma tarefa dessa, voltamos nossoolhar imediatamente para aquele que dá o sentido do trabalho em saúde: ousuário e seu mundo de necessidades e possibilidades; e, com correção, saimos acata de modos de indicar que o nosso agir antimanicomial está produzindodesinterdição de desejos e inclusão. Entretanto, aqui, gostaria de uma outraviagem, pois entendo que um coletivo, que esteja implicado com este tipo deagir, para ter as capacidades que ele exige, necessita estar re-criando em si,de modo constante, mecanismos de re-produção deste coletivo, que lhe garantaenquanto lugar da vida de seus protagonistas.

Proponho, adiante, olhar para a "máquina desejante" coletivo de trabalhadoresde um CAPS, como um lugar que nos estimula a falar do que estou apontando,tanto quanto aquele que analiticamente pergunta o que estamos fazendo com ousuário com o nosso trabalho em saúde.

Refletindo sobre ocotidiano de uma equipe de CAPS. Ofertando idéias

O meu olhar, que oferto nesta reflexão, vem do lugar de quem neste últimoano tem se dedicado a "cuidar" de cuidadores. Termo que peço emprestado paraCinira M. Fortuna[2] ,que ao estudar o modus operandide um coletivo de trabalhadores de saúde, em Ribeirão Preto, tratou destamirada nas suas análises. Pois bem, estou ofertando um olhar deste lugar quevenho ocupando junto a alguns coletivos, que operam na saúde mental, emparticular na rede de Campinas, vinculado às equipes do Serviço de Saúde CândidoFerreira..

Dentre muitas coisas interessantes e acertos que os trabalhadoresrealizam, vi e vejo, também, muitas dificuldades dos trabalhadores paraentenderem e resolverem várias questões que estão envolvidas no seu exigentecotidiano, no qual se cruzam distintas e importantes intencionalidades. Entreelas, destaco: de um lado, a existência de um cotidiano fortemente habitadopor intensas demandas de cuidado, que usuários, muito múltiplos e, facilmente,em estados de crises, têm sobre a equipe; e, do outro, pela presença marcantede um imaginário do trabalhador, de que o seu agir clínico é suficientementeampliado e a sua rede de relações intra e intersetorial, para além da clínica,é suficientemente inclusiva, que com os seus fazeres, o louco não vai ficar nemmais enlouquecido e nem excluído.

94,95,,


 
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