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Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial Imprimir E-mail
Por Emerson Elias Merhy   
07 de janeiro de 2004
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Os CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial
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Alegria e Alívio como dispositivos analisadores

Idéias

No seu estudo sobre o trabalho médico no Programa de Saúde da Família, emSão Paulo, Angela Capozzolo[1] teve a interessante imagem do olho do furacão, para representar o que via napromessa deste Programa em ser alternativo e substitutivo ao que chama demodelo médico hegemônico. Considera que este modelo não tem capacidade deoperar a produção da saúde, pois está, antes de tudo, comprometido com osinteresses econômicos e corporativos predominantes na sociedade, e não com omundo das necessidades de saúde dos indivíduos e coletivos.

Sem discordar da visão crítica que, com a sua promessa, nos oferta domodelo médico hegemônico, o que me chamou a atenção, e da qual vou pediralgumas coisas emprestadas para a Angela, é a idéia de que: quem promete seralternativo e substitutivo de um outro modo de produzir ações de saúde, oumesmo, quem do seu lugar faz uma leitura crítica das formas hegemônicas de seconstruir práticas de saúde; só pode estar no olho do furacão.

Não quero com isso copiar os mesmos sentidos desta representação, mas elanos ajuda a olhar o que, hoje, a rede de CAPS promete no discurso do movimentoantimanicomial e no campo das estratégias para a reforma psiquiátrica, noBrasil.

Quem vem propondo, e me parece com muito acerto, que caminhar naconstituição de redes substitutivas ao Manicômio é apostar na construção deCAPS, por semelhança, está em um lugar muito parecido daquele que descreviatrás do estudo da Angela. Pois, entendo que, neste sentido, os CAPS prometemfazer a crítica do mundo manicomial e ser lugar de construção das práticasalternativas e substitutivas.

Reafirmo que as experimentações de construção dos CAPSs têm sido muitoprodutivas, para gerarem processos antimanicomiais; e, mais, têm de fatomelhorado a vida de milhares de usuários destes serviços.

Ousaria dizer que dentre as várias missões que eles comportam, há algumasque têm mostrado a superioridade efetiva destes tipos de equipamentos perante oque a psiquiatria clássica e os manicômios construíram, nestes últimos séculos.

O fato dos CAPS estarem dirigidos, como equipamentos de saúde, para aprodução de intervenções em saúde mental, que se pautam pelo(a):

  • Direito dousuário ir e vir
  • Oferta deacolhimento na crise
  • Atendimentoclínico individual e coletivo dos usuários, nas suas complexas necessidades
  • Construção devínculos e referências, para eles e seus "cuidadores familiares"ouequivalentes
  • Geração dealívios nos demandantes
  • Produção delógicas substitutivas em rede
  • Matriciamentocom outras complexidades do sistema de saúde
  • Geração eoportunização de redes de reabilitação psico-social, inclusivas;

os tornam, em termos de finalidades, ao mesmo tempo, dispositivosefetivos de tensão entre novas práticas e velhos "hábitos", e lugares demelhorias reais na construção de formas sociais de tratar e cuidar da loucura.

Por isso, estarem no "olho do furacão" antimanicomial, tornam-os lugaresde manifestação dos grandes conflitos e desafios, como venho apontando nodecorrer do texto; e ousar dar conta destas missões, gigantescas, é estaraberto a operar no tamanho da sua potência e governabilidade, adotando como um dosprincípios o de ser um dispositivo para isso, o que implica em produzir novoscoletivos para fora de si mesmo.

Nestesentido, estão no olho do furacão e, como tal, os que o estão fabricando deveme podem usufruir das dúvidas e das experimentações, e seria muito interessanteque tornassem isso um elemento positivo, como marcador contra os que possamimaginar que ele já é o lugar das certezas antimanicomiais.

Esta última postura, das certezas, carrega consigo um grande perigo.Estar no olho do furacão é atiçar um inimigo poderoso: o conjunto dos que seconstituíram e constituem o mundo, e um mundo, manicomial. Deste modo, ter umapostura de que na constituição dos CAPS devemos seguir modelos fechados oureceitas, é eliminar a interessante multiplicidade deste, e não aproveitar deum fazer coletivo solidário e experimental. Com isso, abre-se o flanco para queaquele inimigo poderoso seja o referencial crítico, fazendo da crítica um lugarda negação e não um campo instigante de cooperação, reflexão, auto-análise eressignificação das práticas; que, antes de tudo, se propõem produzirem novasvidas desejantes, novos sentidos para a inclusividade social, onde antes só serealizava a exclusão e a interdição dos desejos.

Apostar alto deste jeito, é crer na fabricação de novos coletivos detrabalhadores de saúde, no campo da saúde mental, que consigam com o seus atosvivos, tecnológicos e micropolíticos do trabalho em saúde, produzirem mais vidae interditarem a produção da morte manicomial, em qualquer lugar que elaocorra.

94,95,,


 
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