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São atitudes que fazem o amanhã ser melhor do que hoje | São atitudes que fazem o amanhã ser melhor do que hoje |
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| Por Willians Valentini | |
| 15 de março de 2003 | |
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Há alguns meses vimos participando de um processo de organização de um serviço, que é um desafio que nos foi lançado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Campinas. Esse Conselho, implementado no município em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente no início da década de 90 é o órgão responsável por proteger os direitos à vida, à saúde, à integridade, à educação, à convivência familiar e comunitária de TODAS as crianças e adolescentes da cidade. Foi este Conselho que, reconhecendo o projeto do "Cândido" como modelo de respeito humano e promotor de dignidade no campo da Saúde Mental, desafiou o lado "Ferreira" do Serviço para se encarregar de cuidar da saúde mental de VINTE crianças com 7, 8, 9, 10 e mais anos de idade que vivem nas ruas da cidade. Essas crianças, apartadas da convivência responsável com o mundo adulto correm risco de vida. Muitas crianças que enfrentaram as mesmas adversidades que essas vinte já morreram. A fragilidade da vida das crianças em situação de rua aumenta na medida em que diminui a disposição dos adultos de se aproximar e cuidar delas. A necessidade de cuidado e de proteção é inerente à condição humana. A pior atitude a ser desenvolvida em relação à situação de fragilidade e vulnerabilidade que todos nós podemos enfrentar em algum momento de nossas vidas é a que se observa hoje com o "Ah! Isso não é problema meu. Esse é um problema do governo". As crianças que nos dispusemos a cuidar não são crianças infratoras. Se não forem cuidadas poderão escolher o caminho da infração e acabar sendo detidas em alguma FEBEM. Mas a condição delas no momento é de sobreviventes. Sobrevivem cotidianamente a inúmeras adversidades. Enquanto estão vivas, resistem a inúmeros atos de hostilidade dentre os quais o principal é a insensibilidade e o sentimento de medo que passaram a descobrir nos adultos des-sensibilizados pela mega exposição à mídia promotora e divulgadora da violência. As palavras que foram criadas e são utilizadas para se referir a essas crianças e adolescentes frequentemente carregam uma mensagem de desqualificação: menor de rua, trombadinha, bandidinho, etc. O imaginário social encontra-se negativado no que diz respeito à possibilidade de se construir interação com essas crianças e adolescentes. Todas essas crianças e todos esses adolescentes, no entanto, têm nome e sobrenome. Mais de 90% deles têm família moradora em Campinas. Nenhum deles "escolheu" viver dessa maneira. Assim como as famílias de que fazem parte não "escolheram" viver na periferia em condições paupérrimas. A miséria nunca é escolhida por quem é obrigado a enfrentá-la. A miséria é sempre fruto do abuso de poder do forte sobre o fraco. A miséria é a evidência do desequilíbrio na utilização dos recursos. As crianças que cheiram cola na rua - muito frequentemente para afastar a fome - , que fumam crack e assim alucinam sua própria realidade e que não confiam mais na possibilidade de encontrar um caminho de saída são filhos da miséria extrema e da desesperança extrema. Elas estão adoecidas e entorpecidas pela desvalorização total de suas vidas. Chegam a arriscar tudo, a própria vida diante de adultos atônitos que imaginam e muitas vezes preconizam não haver nada a fazer a seu alcance. Mas, felizmente, mesmo com a miséria extrema e com a desesperança extrema, as crianças e os adolescentes não perdem, enquanto estão vivas, suas condições de seres humanos. Nem os adultos atônitos perdem sua condição de humanos diante da coragem dessas crianças e adolescentes de mergulhar no vazio da droga que frequentemente acaba por matá-las. E nessa situação de tudo ou nada em que nós humanos adultos e responsáveis nos descobrimos ao nos aproximar de crianças do povo que somos nós não há escolha: temos que nos dedicar a interromper o ciclo trágico e interromper o curso de morte que boa parte dessas crianças desenvolve compulsivamente. Ou nos lançamos responsavelmente num pacto em favor da vida, do respeito e da construção de dignidade para todos ou teremos que nos conformar em importar areia do Saara para conseguirmos manter enterradas nossas cabeças e nossas mentes, continuando a negar e re-negar a realidade e o contexto Brasil. Somos nós, brasileiros adultos, responsáveis, respeitadores das convenções que nós mesmos criamos - Constituição Federal e Estatuto da Criança e do Adolescente - que podemos nos dedicar a construir um país melhor para todos. Cuidar bem das crianças e dos adolescentes é se comprometer com um futuro melhor para todos os brasileiros. |
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| Última Atualização ( 29 de julho de 2008 ) |
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