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"Dizem que sou louco" Imprimir E-mail
Por Ana Carla Pereira Domitti   
15 de março de 2003
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"Dizem que sou louco"
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CAPÍTULO 5: REFLEXÕES SOBRE AS ENTREVISTAS

Através da leitura e releitura das entrevistas destacamos alguns pontos que julgamos relevantes nas histórias-de-vida de cada um dos sujeitos e que agrupamos neste ítem. Consideramos aquilo que foi falado como uma forma de obtermos, num primeiro momento, um negativo da pessoa e que poderá ser revelado (ou ir se revelando) à medida em que formos nos aprofundando em sua história, a partir de outras interpretações e análise mais minuciosa, de acordo com o referencial teórico adotado.

Organizamos a etapa das entrevistas, com seus três momentos, em três itens separados, motivo este que nos ajudou a trabalhar com cada grupo das entrevistas no tocante às narrativas dos sujeitos. Ainda incluímos um ítem em que apresentamos os sujeitos conjuntamente, a fim de integrarmos elementos obtidos pela coleta de dados visando uma análise mais global.

5.1. 1ª FASE DAS ENTREVISTAS (LUANA, PEDRO, TERESA, HÉLIO, EDGARD)

1ª Entrevista - Luana:

Quando é pedido que ela conte sua história pessoal, na verdade que se apresente, apresente sua pessoa, inicia falando do problema que a acompanha há algum tempo. O que chama de problema é algo bem específico e se refere aos transtornos mentais, embora no início da entrevista use as palavras "problemas da cabeça".

Luana diz que desde seu nascimento vem desenvolvendo doenças: "nasci doente", diz. Vai apresentando melhoras depois que se torna crente, segundo ela, mas em todo o período do desenvolvimento infantil acontecimentos que alteram seu desenvolvimento, como: queda de cabelo sem causa aparente, desidratação, inchaço pelo corpo todo, e a queda de uma árvore aos 11 anos, provocando vários desmaios. Tenta a partir dessas situações arrumar uma explicação capaz de convencer aos outros e a si mesma de seu "adoecimento"presente até hoje. A queda da árvore parece ser o fato mais decisivo para o desencadeamento dos problemas. Segundo ela: "quebrei a bacia, machuquei um lado do rosto e quebrei a perna, acho que ofendeu também a cabeça, porque veio me trazer problema pro resto da vida". Inclusive neste tipo de fala, pode-se notar que a vida tem um certo caráter de predestinação, como se as mudanças possíveis de ocorrer não se dessem.

Ainda falando das causas de seus problemas, diz que não sabe se houve complicação na hora do parto, mas sabe que "nasceu ruim", e quando saiu do hospital e foi pra casa, possivelmente pegou gripe, "Minha irmã mais velha, a M., ela é mais velha que eu só nove anos. Já perguntei a ela o que eu tinha, ela fala que não sabe, ela fala a única coisa, que a casa era toda furada, de barro, sei lá, então ela não sabe se era gripe, só sabe que eu nasci muito ruim".

Fala de um período em que começou a trabalhar de empregada doméstica e das dificuldades que enfrentou, como apanhar das patroas. Diz que quase todas as patroas batiam nela, acredita que o motivo seria a dificuldade das pessoas de se relacionarem com alguém que "tem problema de nervoso". Refere-se desta forma à única patroa que não batia nela: "a M. não me batia, mas por causa de mim, ela foi parar na Psicanálise. Ela não me batia, mas foi parar na Psicanálise". No seu imaginário permanece uma sensação de que as pessoas precisam se aliviar dos "males"que ela causa...

Acredita que o "problema de nervoso"não tem cura, embora possa haver um controle e algum tipo de melhora: "Eu acho que o problema de nervoso não tem cura. Eu acho que enquanto a gente tiver tomando os remédios, o tratamento dos médicos, o apoio, tá ali com eles e eles com a gente, a gente tá melhorando. Mas por exemplo, se parar de tomar os remédios, parar o tratamento e você ficar sozinha (...). Então, eu acho que você pode voltar a piorar e pode até voltar a parar no manicômio". O apoio dos profissionais, formando uma rede de intervenção e sustentação a essas pessoas com transtornos mentais é fundamental e aponta para uma necessidade que extrapola os hospitais psiquiátricos, os hospitais-dia ou qualquer outro equipamento de saúde. Luana fala do sofrimento quando está ausente do local em que se trata: "Mas quando assim, eu tô com muita angústia, que, às vezes, eu procuro de um lado, procuro de outro e não vejo saída, justamente em casa de fim-de-semana, isso não é bom, eu vejo a hora que eu vou fazer qualquer coisa assim para mim, aí eu recorro ao Hospital São Paulo."Em casa, num espaço em que a loucura é menos compreendida e portanto, mais ameaçadora, é que se evidencia a necessidade de tal rede de sustentação. Luana se refere ao pai como alguém pouco compreensivo, mas que de alguma maneira reflete as relações que outras pessoas da família estabelecem com ela: "ele (o pai) ainda fica mandando em mim, fica dando ordens. Se eu estou nervosa e ele não me entende, porque também é nervoso, aí ele fica bravo comigo, daí eu fico nervosa". Alguém tem que ficar louco, para que os outros sejam os "normais"...

Durante sua trajetória de vida, em busca de significado para os seus problemas, Luana percorre vários hospitais psiquiátricos e recorre à internações. Faz críticas aos lugares por onde passou, por maus tratos que recebeu, por falta de atenção, desrespeito ou porque simplesmente não era cuidada como alguém que estava com problemas, e sim como mais um problema dentro dos hospitais. Ao chegar ao CAPS , identifica uma mudança que atribui tanto à instituição e às intervenções feitas pelos profissionais, como a ela própria. Como diz em seguida : "Eu acho que é um pouco de tudo. Veio do tratamento que ajuda, do Dr. S. que é meu médico, do grupo verbal, das atividades, do remédio (...). Um pouco de mim também". Embora reconheça ainda muitas dificuldades que tem que enfrentar: "é verdade que tem hora que eu tenho vontade de tacar copo na parede, de bater nas pessoas (...). Então, eu ainda tenho algumas coisas que é difícil de controlar, mas eu me seguro". A continência dos outros faz com que se contenha...

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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