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"Dizem que sou louco" Imprimir E-mail
Por Ana Carla Pereira Domitti   
15 de março de 2003
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"Dizem que sou louco"
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CAPÍTULO 3: METODOLOGIA

O CAPS constituiu-se enquanto interesse de estudo por apresentar uma proposta de intervenção que possibilita o confronto com o singular, com aquilo que é de cada pessoa concreta, que participa do cotidiano e do "jogo da vida", de modos diferentes umas das outras. Portanto, sua proposta de intervenção não se reduz à uniformização das diferenças entre as pessoas, como ainda ocorre na maior parte de hospitais psiquiátricos.

Acompanhei por um ano (1995/1996) enquanto aprimoranda da FUNDAP [5] , o projeto de trabalho da instituição e a partir daí, surgiu o interesse pela escuta em relação a paciente s que são acolhidos em suas diferentes maneiras de se relacionar com a vida, até mesmo para compreender os significados que "estar em tratamento", ou "melhorar da doença", assumem para cada um, como voltar a trabalhar ou a estudar, ou sofrer menos, ou enfim, como viver diferentemente.

No capítulo seguinte, organizamos os dados coletados sobre a instituição a partir da minha condição de observadora participantee dos dados obtidos via informantes, para garantir uma melhor compreensão do cenário do qual fazem parte nossos sujeitos. Embora o estudo não se restrinja a um detalhamento ou avaliação da instituição, entendemos a necessidade de contextualização dos sujeitos a partir do vínculo com a instituição e das implicações na vida de cada um, bem como esta se configura para cada um deles.

Os critérios para a escolha dos sujeitos não foram dados à priori. À medida em que fui tendo um maior contato com a instituição e com os paciente s foi se despertando um interesse em ouvir o que algumas pessoas tinham a dizer. Alguns aspectos como terem sido submetidos à internações anteriores antes de ingressarem no CAPS e buscarem "saídas"para conduzirem suas vidas através do trabalho, estudo, ou outra atividade estavam presentes na vida dos sujeitos que desejava que fizessem parte deste estudo.

Inicialmente, escolhemos cinco sujeitos, sendo três do sexo masculino e dois do sexo feminimo. Esta escolha se deu a partir de minha observação de que estes sujeitos buscam no ato de contar e recontar as histórias de suas vidas construir um sentido e um rumo para as mesmas, após terem se confrontado com o mundo da loucura . A leitura dos prontuários (documentos em que ficam registrados os dados dos paciente s com relação à evolução dos tratamentos) também ajudou com mais informações. Com esses dados - obervação e prontuários - foi possível conhecer um pouco mais sobre os sujeitos e após a realização da primeira entrevista estabeleceu-se uma maior clareza para identificar os sujeitos que fizeram parte das fases seguintes.

Definimos duas etapas para a coleta de dados; a primeira se dirige a uma coleta de dados sobre a instituição e se constitui por entrevistas de profissionais que trabalham no CAPS , sobre como se deu a formação do mesmo, sobre a proposta e funcionamento do mesmo. Como não se apresentam como os "objetos"do estudo em questão daremos a essas pessoas o nome de informantes,pois contribuíram enormemente com informações as quais utilizamos na composição do capítulo sobre a origem da instituição referida neste trabalho. A segunda etapa se compõe de três momentos; o primeiro visa de uma maneira mais panorâmica uma aproximação dos cinco sujeitos de modo que eles próprios pudessem destacar pontos que consideram fundamentais ou decisivos para o seu estado atual. Num segundo momento, escolhemos três desses sujeitos para uma entrevista mais dirigida, focalizando tópicos relevantes que surgiam a partir das entrevistas anteriores. Após a questão inicial, relacionada a apresentação de cada um, que é mais abrangente, em que os sujeitos destacaram pontos que consideram relevantes, ao trabalharmos no segundo momento, apresentamos algumas questões referentes aos tratamentos anteriores, ao tratamento no CAPS , bem como a coisas que têm conseguido a partir do tratamento e aquelas que desejam alcançar. No terceiro momento selecionamos um sujeito para um estudo mais detalhado e extenso em que o objetivo se refere a conseguir um maior aprofundamento na compreensão em relação ao sujeito em questão. O terceiro momento se constitui de três entrevistas com este sujeito, sendo que aparece um aprofundamento de alguns temas destacados a partir das entrevistas anteriores, como a questão da infância, adolescência, relação com família, com o trabalho e a história dos tratamentos e internações psiquiátricas.

É interessante afirmar que mesmo com um único sujeito se trabalharmos "em profundidade", as falas deste, mesmo particulares, relacionam-se com um aspecto mais geral, universal, que inclui as particularidades de outros que participam de tal vivência. Fora isso, a escolha deste sujeito se deu porque entendemos que pôde falar de seu passado, de suas crises, de suas internações, enfim de sua história, com um certo distanciamento, procurando articular todos esses fatos na busca de produzir um sentido. Desta forma, parece que somente a partir destes acontecimentos é que este sujeito vem se constituindo com alguma autonomia . Ele nos aponta, com a propriedade de quem viveu essas experiências, o rumo pelo qual tem encaminhado sua vida.

[6] Escolhemos, vamos assim dizer, trabalhar a análise em duas vertentes: a que se refere ao conjunto de dados de todos os sujeitos, estes dados agrupados por categorias extraídas das próprias entrevistas (ver quadro) e a outra, recai sobre a constituição da identidade de um único sujeito. Neste sentido, como consegue dentro do mundo da loucura e apesar dele encaminhar sua vida e se constituir enquanto um ser autônomo.

Para ser possível apreender esta tendência a técnica utilizada neste estudo é a história de vida. Através de histórias de vida narradas por estas pessoas, pretendemos resgatar os possíveis significados que a loucura pode assumir para cada um, como esta se apresentou em cada momento vivido, com a intenção de investigar o rumo que estas pessoas têm dado a suas vidas a partir do momento em que ingressam na instituição citada, embora mais uma vez seja necessário dizer que todo nosso esforço para uma melhor compreensão se centralize em um único sujeito.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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