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"Dizem que sou louco" Imprimir E-mail
Por Ana Carla Pereira Domitti   
15 de março de 2003
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"Dizem que sou louco"
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E: Foram, foram, foram várias empregadas, né? Foram várias empregadas. Até que chegou uma época que minha mãe não conseguia encontrar mais empregadas, porque uma delas saiu, foi morar em outro estado, a A., aí, eu tive liberdade de dizer pra minha mãe assim: "olha, mãe, não precisa mais contratar empregadas, eu tenho uma idade suficiente, já sei o que fazer na casa, deixa que eu cuido dos meus irmãos. Esse é o final da história das empregadas, e tem o começo. Tudo começou com uma morena escura, uma mulher escura, que era empregada da minha casa, eu tinha quatro anos de idade, e ela se aproveitava de mim em todos os aspectos, em todos os aspectos. Batia em mim, fazia eu pedir na rua coisas, com um calor enorme, fazia eu pedir gelo na casa dos outros, batia em mim, o dia inteiro batendo em mim. Ela me tratava como escravo. Até que um dia sem mais nem menos, eu tinha uma Nossa Senhora Aparecida dentro de casa, era grande, né, era muito maior do que essa que tem na Aparecida do Norte, dentro de um móvel de casa. Ela quebrou a santa, ela era crente, evangélica, então, meu pai e minha mãe descobriu. Nós somos de uma família católica, aí, minha mãe descobriu e ela me culpou: "foi ele que quebrou". Minha mãe sem mais nem menos falou: "é impossível meu filho ter quebrado. Nós já sabemos que você é evangélica, deve ter sido você. De tarde você vai receber seu pagamento e não precisamos mais de seu serviço". E a segunda foi... aí, contratou uma nova empregada, no mesmo lugar, uma outra evangélica. Essa me batia, me molestava sexualmente, essa era pior que a primeira, nem vou falar o que ela fazia porque ela fazia coisas terríveis comigo. Passava manhãs lá me maltratando, com a porta fechada, me molestando sexualmente. E essa foi... um dia sem mais nem menos, apareceu uma amiga, a filha de uma amiga de minha mãe, que ficou minha amiga, até minha irmã, que hoje ela mora no interior de São Paulo, e a menina tem quase 40 anos, eu tinha quase 6 anos, e a menina era meio grandinha, né? Então, a menina ficou sabendo que ela me molestava sexualmente, falou: "você não vai fazer mais isso com meu irmão, não. Se você fizer mais isso, eu conto para minha mãe". Ela chama a minha mãe de "minha mãe". E a menina ficou lá, né. Um dia, ela falou assim: "eu duvido você contar". Eu falei: "eu duvido você contar". Aí, ela contou pra minha mãe. Mas essa amizade durou pouco, foi só um mês. Mas até hoje eu conheço ela, ela vai na minha casa no Ano Novo, no Natal, né. E geralmente, foram as duas piores. Mas teve mais. Teve uma que era branca, as duas primeiras eram escuras. A terceira era branca, geralmente, ela deixava minha casa abandonada, e levava a gente para a casa dela. Quando chegava à tardinha, ela levava a gente pra nossa casa. E aí, a casa ficava uma maravilha quando minha mãe chegava, ela limpava a casa, né. Um dia minha mãe descobriu, os vizinhos contaram, foi outra demitida, né. A gente sempre sofreu na mão de empregada.

A: Mas assim, pelo que você me conta de não ter dado sorte com as empregadas, isso aconteceu também com seus irmãos...

E: A primeira empregada e a segunda empregada quem não deu sorte fui eu, porque eles (os irmãos) eram todos pequenininhos. Elas saíam às 6:00 da tarde, deixavam a gente sozinho, porque meus pais chegavam às 10:00 da noite, eu ficava duas horas, quatro horas esperando meu pai chegar. Na época, minha mãe trabalhava de empregada doméstica, meu pai trabalhava numa empresa, de faxineiro, e chegavam tarde. Então, meu irmão fazia alguma necessidade, porque era pequenininho, tinha eu mesmo que tratar, com seis anos de idade, eu tinha que limpar meus irmãos e tudo mais. Já era terrível o dia inteiro, e de noite era mais terrível ainda.

A: Quem é o irmão mais velho?

E: Sou eu. Mas eu conto pros amigos que eu tenho irmão mais velho. Eu conto que tenho irmão mais velho, que essa (filha da amiga da mãe) é uma delas, tenho um irmão mais velho. Um irmão do sonho, né, que veio mais no futuro. Quando eu estava mental mente prejudicado, ouvindo vozes, eu achava que eu tinha um irmão, um irmão gêmeo. Coloquei o nome de Elington, E. e E. No futuro ficou Ewerton, meu irmão gêmeo.

A: Essa vontade de ter irmão mais velho surgiu quando você era criança?

E: Quando eu tinha 17 anos. Aí, veio a terceira empregada que eu contei, depois veio a quarta. Era uma senhora, uma senhora terrível. Ela era boazinha, mas na hora do meio-dia... ela tinha uma cara brava e ficava enchendo o saco da gente o dia inteiro com história de terror, de cemitério. A gente ficava com medo, não dormia à noite. Ela também foi mandada embora, teve opção de morar no Paraná, em Apucarana. E... teve a quarta que era a A., que foi a mesma coisa. Só que com a A. foi o contrário. Eu passava a A. pra trás. A., não sabia horário, eu saía da escola às onze, ficava na casa de um amigo meu até às três. Chegava em casa às quatro, morava longe, né. Aí, A., não sabia que horas eram e eu falava que era meio-dia. Eu brincava com ela... já era o contrário, né.

A: Você estava dando o troco em todas as outras empregadas, né?

E: O troco. Chegava às quatro. Um dia eu perdi uma blusa que era bonita, bem feita, era até cara na época, perdi na casa de um amigo meu, e A. descobriu. Tive que contar pra ela. Ela disse: "vai na casa do seu amigo ver se tá lá". Não achei a blusa até hoje. Depois da A. teve outra empregada, que contei pra você no passado. Parecia que tava a fim de mim. Olhava de um jeito, bonita, até. Mas eu era tímido, né. Até rezava pra tirar os olhos de cima de mim. Então, teve essas, né. Essa também casou e saiu de casa. As últimas eram pessoas maravilhosas, né. Só que A. fazia coisas... que nem a terceira , a casa ficava o dia inteiro suja, né. À tarde, ela limpava a casa rapidinho, né, depois ia embora, deixava a gente abandonado também. Abandonava a gente também.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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