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"Dizem que sou louco" Imprimir E-mail
Por Ana Carla Pereira Domitti   
15 de março de 2003
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"Dizem que sou louco"
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CAPÍTULO 2: DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA

Após todas as considerações feitas até aqui, podemos recolocar a questão central, a fim de delimitar o problema a ser investigado. Quem é o louco e quais as implicações de sua inserção na sociedade de hoje, parecem ser questões que despertam interesse e inquietação em diversas áreas do saber. Temos conhecimento, através da História, de muitas transformações pelas quais o conceito de loucura passou e, consequentemente, o olhar para o louco também. De perigosos a improdutivos, de doentes a inválidos, sempre houve formas de categorização da loucura, como também inferências, levantamentos de hipóteses, passando de um modelo de "possessão"para tentativas de "tratar"os loucos de acordo com um modelo médico, muitas vezes distante da realidade e do sofrimento particular de cada um.

O que nos propomos, então, neste estudo, é buscar um possível entendimento da loucura via aquele que enlouquece, compreendendo-se aqui a loucura como uma forma de expressão da subjetividade humana. Resgatar o processo pelo qual passa aquele que enlouquece é se aproximar do que é subjetivo, singular. É também entrar no mundo da multiplicidade de vivências, e entender o sentido de cada acontecimento, como "ter entrado em crise", ter sido internado, não ter conseguido se manter no emprego, ter sido considerado inválido, e as superações (ou não) de todas essas coisas. Como aponta Sônia França, (1994):

modus vivendi

É olhar para a loucura como sendo produzida dentro das relações sociais, fazendo parte da história da humanidade. E, também, olhar para o sujeito louco em suas relações mais próximas, como a loucura pôde ir se constituindo a partir daí. Poder escutar sua história e assim vislumbrar possibilidades de minimizar seu sofrimento. É fundamental a escuta em relação a cada história em particular; melhor que qualquer outra pessoa, aquele que passa por esse processo de enlouquecimento é quem pode falar dele; cabe a nós aprender a ouvir adequadamente.

Trata-se de não ter uma visão do louco enquanto alguém destituído de razão e, sim, permitir o confronto de significações diversas de outros modos de pensar e agir. Esta diferença entre o louco e os considerados normais pode ser compreendida a partir do projeto vital de cada um, já que um projeto vital não compartilhado se constitui por uma sequência de fatos e de um tempo não comum aos demais, consequentemente não havendo uma ligação intersubjetiva entre a pessoa e às sequências de situações e nem a identificação entre eu, outro e o mundo. (Berger & Luckmann, 1985). Portanto, um outro mundo cheio de significações diversas passa a ser construído, e muitas vezes o sujeito se isola por não conseguir compartilhá-lo com os demais.

Neste sentido, a proposta deste estudo consiste em trabalhar com as narrativas de sujeitos, diagnosticados como psicótico s, acerca da loucura considerando a multiplicidade de suas vivências, entendendo a loucura como parte constitutiva de suas vidas e não como uma "entidade abstrata"relegada a meras manipulações do chamado "modelo médico". Também apontando para a questão da constituição da identidade que se apresenta diferentemente para cada sujeito, embora todos passem por processos de enlouquecimento e apresentem suas crises, suas dores, seus sofrimentos e busquem igualmente saídas para isso. A identidade concebida como metamorfose , envolve o tornar-se, o vir-a-ser, a idéia de processo, isto é, a contínua transformação. É contrária, portanto, à noção de identidade cristalizada com poucas ou nenhuma possibilidade de mudanças. A não-mudança (conservação), na verdade mera aparência de não-metamorfose, explica-se como processo de reposição (Ciampa, 1990:160), tornando-se, às vezes, uma produção de identidade que se dá pela compulsão à repetição - mas sempre produção contínua do mesmo.

Desta forma, este trabalho, cujo problema de pesquisa pergunta quem é o louco, converte-se também em um convite a olharmos para a loucura e para o louco de um jeito diferente, como sendo uma forma imprescindível de, através deste olhar e da escuta atenciosa em relação a suas necessidades, transformar as práticas assistenciais arcaicas e ultrapassadas que ainda coexistem em outras mais eficientes.

O CAPS possibilita esse olhar diferente, talvez até menos preconceituoso, sobre o louco, uma vez que propicia espaço para que as pessoas possam forjar relações diferentes em seus cotidianos, saindo da condição de "doente", de ameaçador ou de inválido. Esse olhar diferente não se reduz somente ao olhar do pesquisador e sim, porque as condições ali criadas possibilitam uma outra compreensão da loucura , para todos os envolvidos.

Com isso queremos deixar claro a necessidade da coleta de informações a respeito da instituição, como poderá ser visto posteriormente, uma vez que existe enquanto espaço potencial para novas formas de se relacionar com a loucura .

Com aquilo que foi dito anteriormente, configuramos o problema da pesquisa como o estudo do processo de construção da Identidade de sujeitos considerados loucos, localizados em uma determinada instituição - o CAPS .

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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