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"Dizem que sou louco" Imprimir E-mail
Por Ana Carla Pereira Domitti   
15 de março de 2003
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"Dizem que sou louco"
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D: Não, não é isso, não. É porque eu não quero magoá-las...

A: Discordando?

E: Discordando. São meus amigos, né, então eu não gosto de deixar eles tristes. Tem um outro lado do Miguel, um outro lado do Miguel que é eu em casa, né, e que sou totalmente diferente daqui. Aqui sou sério, lá sou falador. Lá o Miguel... aqui ele pára pra pensar, lá, não, ele é falador, ele abre a boca mesmo. Lá, o Miguel, ele quer tudo certo, direitinho, não pode mexer nas coisas dele, não pode mexer no seu vídeo, não pode mexer na sua televisão, tudo pra ele é ouro. Se tiver assistindo algum filme, não quer que ninguém veja. É o Miguel totalmente diferente, é o Edgard totalmente diferente. Então, é o que o Dr. J. falou: "você tem dupla personalidade, você tem que falar muito desse lado Miguel, que lado você quer pra você?"Esse é o Miguel, e esse é o Edgard, por isso que eu falo: "quando saio daqui, tô no Xerox, no social, no CAPS , quando eu saio na rua, sou a mesma pessoa, quando cruzo o portão de casa, eu sou o Miguel. Acho que tenho muito daquele desenho animado, do maior inimigo do Homem-Aranha, o Duende Verde, quando ele veste a máscara, quando se veste ele vive um demônio, quando ele tira a máscara, ele se transforma num homem santo, num advogado, num intelectual, ninguém pensa que ele é um demônio.

A: Você já chegou a pensar que de acordo com o ambiente você é de um determinado jeito, e em outro você é de outro jeito. Pelo tipo de pessoas que tem na sua casa, tipo de relações, e aqui no CAPS , na rua, na Associação, você tem um outro tipo de relacionamento, porque as pessoas são diferentes, falam coisas diferentes pra você, cobram coisas diferentes. Você já chegou a pensar nisso?

E: Cheguei a pensar nisso, sim. Cheguei até a pensar que aqui no CAPS , na Associação, no Xerox, né, no trabalho (...), na rua, quando eu tô no ponto do ônibus, indo pra casa , quando eu geralmente atravesso o portão e tô dentro de casa (...) já perdi minha calma, aí dentro de casa viro o Edgard violento, na base das pauladas, né, aí, eu parto pra ignorância (...). Então, ninguém pode... eu sou uma pessoa muito temperamental , geralmente não pode falar comigo assim, estouradamente comigo que geralmente eu me transformo em outra pessoa, num bicho, num animal. Eu parto pra ignorância mesmo. Semana passada mesmo tinha um paciente aqui que tava (...) a porta da associação tava fechada, (...) eu cheguei pra ele e perguntei: "o que aconteceu?"e ele disse: "eu não sei, eu não sei", (...) aí, eu solto os cachorros mesmo, me transformo em outra pessoa.

A: Conhecendo você mesmo, conhecendo os "lados"que você tem...

E: Eu tenho um lado positivo e um lado negativo, né, geralmente, a pessoa que... eu sou uma pessoa muito temperamental , por exemplo, eu sou muito explosiva, por exemplo, eu penso em chegar aqui e "soltar os cachorros", falar alto, "soltar os cachorros", (...) no meu tempo (refere-se ao tempo em que fazia tratamento no CAPS ) batia em estagiário era expulso, quebrava soquete de lâmpada, de luz, liga e desliga era expulso, qualquer coisa era expulso, hoje em dia recebe uma advertência, tá no mundo fácil, né? Eu sou muito estourado, depois eu atravesso a porta do CAPS, já me acalmo. E... eu tava falando também no começo, eu tenho outro amigos também que é o anjo-da-guarda. São Miguel Arcanjo. Por isso que meu nome é Miguel, né? São Miguel Arcanjo. Semana passada, no ano passado, eu comprei uma estatueta, semana passada eu comprei um quadro, né? São Miguel Arcanjo, meu anjo protetor.

ROTEIRO:

1- O que significa para você ser reconhecido como louco?

2- O que você imagina que os outros pensam sobre esse fato?

3- Como e quando aconteceram as primeiras manifestações?

4- Como e quando se deu a primeira internação?

5- Fez outros tratamentos anteriores?

6- Como e quando chegou ao CAPS para iniciar tratamento?

7- O que faz atualmente no CAPS ? Em quais outras atividades você já se envolveu?

8-Você acredita que estar em tratamento está lhe ajudando? Em que sentido?

9- Quais as suas expectativas em relação a sua vida?

10- O que você já tem atingido até agora?

2ª Entrevista - Edgard

A: Hoje é 29 de maio, é a segunda fase das entrevistas que eu vou fazer com o Edgard. A primeira questão que eu queria colocar pra você, Edgard, o que significa pra você ser reconhecido como uma pessoa diferente, como louco, diferentemente das pessoas que são reconhecidas como normais. Queria que você me contasse um pouco.

E: Repete a pergunta. Eu não tava concentrado.

A: Tá legal. Vou repetir. Queria que você me contasse um pouco o que significa pra você ser reconhecido como uma pessoa diferente, das demais que são reconhecidas, tidas como normais.

E: Pra mim o reconhecimento das pessoas normais e das pessoas que não são normais, eu tenho pouca dificuldade. Pra mim é até normal me chamar de louco, né? Mas eu sempre aparento não ter doença, né, não ser doente mental . Se você me ver, as pessoas que me vêem, me vêem como uma pessoa normal, né? Eu não tenho dificuldade nenhuma em ser chamado de louco, acho que todo mundo tem um pouco de loucura , né, todo mundo é louco. Todo mundo sofre do sistema nervoso, quem hoje em dia não dá um chilique? Então, pra mim não tem dificuldade nenhuma de ser chamado de louco e a pessoa que não tem problema... eu não sou louco, louco é aquele que estão na penitenciária, estupradores, psicopatas, ladrões, assassinos que matam pessoas friamente. Eu sou apenas uma pessoa que tem problema e eu acho que não tem nada a ver uma pessoa que tem problema com aquela que não tem ser chamada, aquela pessoa que tem problema, e aquela que não tem ser chamada de... aquela que tem ser chamada de louco. Eu acho que aquela pessoa que tem problema é uma pessoa especial e aquela que não tem problema é uma pessoa de sorte, né? Acho que é isso aí.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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