Cândido Escola
Teses
"Dizem que sou louco" | "Dizem que sou louco" |
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| Por Ana Carla Pereira Domitti | |
| 15 de março de 2003 | |
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"Em muitas instituiçõestotais, inicialmente se proíbem as visitas vindas de fora e as saídas do estabelecimento, o que assegura uma ruptura inicial profunda com os papéis anteriores e uma avaliação da perda de papel". Ainda o mesmo autor prossegue da seguinte maneira: "(...) as instituiçõestotais perturbam ou profanam exatamente as ações que na sociedade civil têm o papel de atestar ao ator e aos que estão em sua presença, que tem certa autonomiano seu mundo - que é uma pessoa com decisõesadultas, autonomia e liberdade de ações". (1992:46). O que podemos definir a partir do exposto acima é o fato das instituições totais propiciarem uma degradação da identidade por parte do sujeito, de seus bens materiais, um despojamento de si, enquanto as instituições abertas tenderem a uma abertura maior em relação às modificações que o sujeito vai enfrentando ao longo de sua existência, em sua relação com o mundo. Modificações num sentido amplo, tanto no tocante a aspectos biológicos, psicológicos, quanto do mundo social, incluindo aqui experiências idiossincráticas, como o ingresso e o trânsito pelo mundo da loucura , quando se objetiva a construção da personagem "louco". Ao trabalharmos com uma instituição de caráter aberto demonstramos com isso as maiores possibilidades de transitar pelo mundo que principalmente os sujeitos que estão em tratamento apresentam. Como também de se apropriar da própria loucura e poder falar sobre ela. Também é possível focalizar a questão da constituição e contínua transformação da identidade humana, tendo a compreensão de cada sujeito enquanto autor/ator de sua história. Como diz Ciampa (1990:154): contador de histórias Tal fato - a constituição da identidade - pode ser apreendido através das narrativas individuais em que as histórias-de-vida dos sujeitos aparecem de forma única, singular. É importante também lembrar a idéia colocada por Mead sobre a existência de uma co-autoria coletiva, isto é, em que todos são autores da mesma trama social num cenário construído pelas relações sociais, em que todos enquanto seres sociais estão inseridos. Existe, portanto, a idéia de uma história individual imbricada em uma história coletiva. Com isso podemos reforçar a idéia de que não é possível olhar para cada sujeito isolado tanto do contexto social em que está inserido como das relações com seus semelhantes. Vale dizer, a identidade é formada neste entrelaçamento entre sujeito e relações sociais. Como diz Ciampa (1990:157): "Identidade é história. Isto nos permite afirmar que não há personagensfora de uma história, assim como não há história (ao menos história humana) sem personagens". Esta afirmação implica que, sendo identidade o processo de metamorfose do sujeito, ela se objetiva no movimento das personagens que encarnamos, personagens que constituem expressões empíricas da identidade - momentos do movimento do sujeito em sua totalidade. (Ciampa, 1990). Talvez seja necessário recolocar a questão referente a importância de se trabalhar com o que o louco pode falar de si a partir de sua condição. A loucura enquanto fenômeno pode ser compreendida sob várias ópticas, a partir de um resgate histórico da formação do próprio conceito, consequentemente, variando de acordo com o contexto social e cultural, pode também ser explorada a partir de determinado corpo técnico-científico, como também ser compreendida via a experiência pessoal daqueles que nessa condição vivem. Esse resgate do louco enquanto sujeito falante, ativo, que se apropria de suas experiências de vida começa a ter lugar desde a Reforma Psiquiátrica, que no Brasil se organiza a partir da década de 70. Até então, o cenário dentro da Psiquiatria é de pessoas trancadas dentro de instituições psiquiátricas, sendo também trancado o direito de falarem por si mesmas. Na verdade, a restituição do direito de falar ao sujeito possibilita uma melhor compreensão da singularidade de cada um, uma menor homogeneização das diferenças e, portanto, uma atenção à subjetividade das pessoas. Nessa linha de raciocínio quem pode falar algo de seu sofrimento é quem está acometido por ele, pode inclusive dar pistas, apontar saídas que vislumbra a partir de suas experiências. Isto é, tem a oportunidade de se apropriar dessas condições histórico-sociais que muito possivelmente contribuíram para seu estado. É, diferente então, de a solução para seus problemas vir de fora, de um profissional da área que tendencialmente o vê como "uma doença, um código ou um mero conjunto de sintomas", tentando ajudar, mas muitas vezes desconsiderando a vivência dessas pessoas. Uma citação de Paulo Amarante sobre Rotelli (1990) fala sobre a necessidade de aceitar a complexidade e multiplicidade da existência humana. "E para tanto não se pode reduzir o sujeito à doença,ao distúrbio da comunicação ou simplesmente a um pobre coitado, nem automatizar o corpo ou o psíquico, mas somente reinscrevê-lo no campo social. O projeto da prática inovadora em psiquiatria representa em parte um retorno ao fato empírico, que foi obscurecido pelos conceitos e pelos procedimentos técnicos e institucionais padronizados, sem ser um empiricismo. É a re-invenção de que cada fato empírico é um universo em si, é ao mesmo tempo a totalidade e a singularidade. Daí a rejeição a aceitar simples fórmulas de definição das diferenças de comportamento, a recusa a aceitar modelos de rotulação diagnóstica (que pouca coisa significam para a compreensão do sofrimento ou mesmo para a condução dos "tratamentos"). Com a loucura,ou melhor dizendo, com as loucuras, passa-se a lidar de maneira não pré-determinada, superando a relação imposta exclusivamente pelo modelo médico, que reduz a loucura à doença e o louco ao doente, possibilitando assim um painel de outras possibilidades". 72,73,,
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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