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"Dizem que sou louco" Imprimir E-mail
Por Ana Carla Pereira Domitti   
15 de março de 2003
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"Dizem que sou louco"
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A: Entre a vida e a morte.

P: Entre a vida e a morte, sim, Ana Carla.

A: Nesse momento, diante das coisas que você está apontando, o que significava a vida pra você?

P: Trabalhar, estudar, realmente ter uma família e progredir junto com a família. Eu pensava em ser um professor, o qual eu pudesse lecionar em minha casa também, é isso aí. E não dar folga pra mim quando eu não colocasse um conteúdo em mim diplomático, uma forma diplomática mesmo que seja em terceiro plano, em segundo plano, mas uma forma diplomática, e isso me custou muito para pensar, mas pouco a realizar. Eu não recebi ajuda e complicou as coisas, porque perto do meu pai era uma coisa e também perto da minha esposa também era outra coisa. Era uma dificuldade. (Pausa). Eu acho que, eu me preocupo porque sempre quando eu passo na cidade ver esses apartamentos, eu vejo a diferença do bairro, uma criança crescer no bairro e outra crescer no apartamento, o lazer dela é toda a cidade, a qual quem vai se encontrar é a turma do bairro depois de 20 anos, 18 anos. Muito complicado, passar pra uma escola, da escola pra casa e da casa pra escola, não vai a um cinema, não vai a um teatro, não explora a cidade ainda enquanto novo, com 15 anos, 10 anos, sei lá, os pais não levam pra passear e o outro tem o privilégio de morar no apartamento e ir para a Disneylândia, para outros países. Eu acho meio complicado, eu me preocupo com as pessoas do bairro, me preocupo. Meus amigos têm carro mas é da casa pro bairro, a volta que eles dão é no bairro, né? E...

A: Você fala de um limite?

P: Sim, é uma espécie de limite que se impõe. (Pausa). É igual a tartaruga quando desova na praia, que a tartaruguinha só vai voltar pro mar, e o peixe também só vai freqüentar o alto mar enquanto grande, e tudo mais. Eu acho que deveria ser mais, em vez de padaria, cinema, farmácia que o bairro tem, deveria ter um cinema num lugar, numa escola que passasse filme de sábado e domingo, só de lazer. Porque isso complicou, porque são muitos domingos, a semana passa rápida no bairro, mas o domingo mais rápido ainda. São muitos os domingos que a gente vai contar pela vida afora, os sábados que a gente vai ficar sem fazer nada, até esqueceu o que foi a prova de 6ª feira, de 5ª feira, a lição, né. Mas é, é a infância, eu acho que a infância foi pra mim que eu não conseguia, que eu engolia, são as coisas, as questões que eu engolia ao invés de falar por causa das pessoas serem mais velhas, eu acho que reatou numa explosão cerebral, o cérebro falou: "vou reagir assim porque você não reage como devia", né, deveria reagir de uma forma com cada pessoa, com um sim ou um não, eu só dizia: "sim senhor, sim senhor, sim senhora", isso me trouxe uma espécie de explosão cerebral, explosão emocional a qual eu não fiz aquilo que eu deveria fazer quando ainda tinha tempo de fazer.

A: Você pode me explicar um pouco melhor o que você está chamando de explosão cerebral?

P: Sim, o cérebro, cada vez que você conversa com alguém você tem vontade de falar coisas, como eu estou com vontade de falar coisas pra você agora, a qual a gente já conversou, se você não faz isso, você é cobrado, porque ele continua raciocinando, ele não pára como o automático que fala: "não, o Pedro está cansado, vou parar", não desliga, ele fica pensando naquilo que mais ele quer, na pessoa que ele próprio pensa. (Pausa). Acho que é por aí. E eu não ter participado do bairro como eu deveria, eu fui à igreja , mas não participei da igreja, né, eu fui à escola, mas não gostava de liderança na escola, me chamavam para liderar alguma coisa, eu não gostava de liderar nada porque eu era submisso aos meus pais, eu não sabia como falar para as outras pessoas: "faça isso ou faça aquilo", eu não queria que eles falassem comigo mas eles falavam, né? Eu acho que isso tudo veio trazer uma neurose, um choque entre o cérebro e o que estava acontecendo, mas ao invés de eu ter a reação na hora, no momento, na data, eu tive depois de muito tempo. Isso me prejudicou muito. Quando eu pensei que eu estava já na idade madura, na idade de uma pessoa mais velha, era artificial, era tudo conselho que eles me davam, não deixar de falar: "sim senhor, não senhor". Eu acho que isso não é bom. Criança deve pedir a benção pros mais velhos, como eu pedi e peço até hoje, mas eu não consigo abençoar uma criança, não consigo, porque eu só sei pedir a benção. Eu não consigo imaginar uma criança pedindo a benção pra mim. (Pausa).

A: Pelo o que estou entendendo você está dizendo sobre uma relação forte com seu pai e sua mãe e que por isso você se coloca mais no lugar de filho...

P: Sim. Eu quero dizer que no meio dos mais velhos, de pessoas de idade, você vai ser sempre aquele garotinho. Você pode ter vencido na vida, ter saído de lá e ter vencido mas quando... o Pedrinho voltou, é aquele menininho sempre. Pra eles é sempre. Eu volto lá, às vezes, onde eu morei e penso que alguém vai me chamar... puxa, você agora está mais velho, está de idade, está fazendo alguma coisa séria. Ninguém pergunta. É como se eles perguntassem: "o Pedro voltou e vai voltar a brincar com a gente como era antes, e a gente vai ver o Pedro brincar por aí."

A: O que você acha que seria preciso para modificar essa imagem que eles têm de você, de Pedrinho. O que seria necessário para essa transformação?

P: Sim. Primeiro, eu deveria dar continuidade aos estudos, porque me sufoca pensar em mim, eu tenho que buscar o pão e o leite, eu tenho que comprar tal remédio, eu tenho que comprar a carne e não voltar a estudar a história de um povo longe do Brasil ou dentro do Brasil, ou alguma coisa mais elaborada, alguma coisa que já passou, alguém que fez uma história. Eu queria que mudasse, não que mudaria, mas eu queria que mudasse a maneira de eles pensar sobre mim. E eu estou fazendo alguma coisa séria, passei a fazer alguma coisa séria. Quando eles conversassem que eles não falassem: "vai brincar Pedro, porque você não pode ouvir tal conversa". Que eles percebessem que a gente cresce, sim ou não, cresce.

72,73,,


Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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