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"Dizem que sou louco" Imprimir E-mail
Por Ana Carla Pereira Domitti   
15 de março de 2003
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"Dizem que sou louco"
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5.6. PROCURANDO DESVENDAR UMA DRAMATURGIA COMPLEXA

Na primeira fase das entrevistas, aconteceu algo surpreendente ao desligar o gravador. Edgard fez uma observação em tom de confidência. Podemos falar em confidência pensando em um dos profissionais do CAPS que ao saber do fato disse que desconhecera e demonstrou estar surpreso. Edgard desvelou um outro lado seu - o de Miguel - permitindo-nos levantar alguns questionamentos.

Falaremos inicialmente sobre Edgard, este que transita pelo mundo fora da casa, longe da família. Em seguida, então, tentaremos uma aproximação com Miguel, a fim de conhecermos um pouco mais a respeito da complexidade dessa trama.

Ao falarmos em Edgard, pensamos imediatamente na história que ele nos narrou e diante disso nos foi possível conhecê-lo e saber das transformações pelas quais vai passando durante sua vida. De como chega de vagabundo a trabalhador. Podemos desvelar personagens que se ocultam por entre as narrativas . E como personagens precisam de atores para aparecerem, para se fazerem conhecidas, eis aqui Edgard, que além de representar é narrador/autor de sua história.

Falaremos então, das várias personagens formadoras da identidade de Edgard, embora seja importante salientar que essa tentativa de nomear as personagens que aparecem não se encerra por aqui, como se hoje sua identidade estivesse definida, acabada e não fosse sofrer mais modificações. O que tentamos, é a partir dos dados que coletamos, dar uma visão geral e global da formação de tal identidade.

"GAROTO-ADULTO"

Aparece aqui, durante a infância, um misto de adulto e criança. Como anteriormente já falamos, a ausência dos pais de Edgard força-o a entrar no mundo das responsabilidades muito cedo, tanto no que se refere aos cuidados em relação a ele, como em relação aos irmãos menores. Daí, podemos entender o desejo que vai se formando em relação a ter um irmão mais velho, que possa cuidar dele. Assim, ele passaria de quem cuida àquele que é cuidado.

"O DESISTENTE"

Esta personagem é possível de ser conhecida se a localizarmos no período de sua fase escolar. O que aparece é um crescente desinteresse em relação à escola. Como fator que contribui para essa falta de interesse e falta de prazer, entram em cena as reprovações que o levam a abandonar os estudos. É verdade também, que nesse momento da desistência em relação à escola, coincide o momento das primeiras manifestações de sua "doença", que aparece como mais um impedimento para um investimento maior em relação aos estudos, mas que na verdade "legitima"sua desistência. Isto o envolve numa armadilha que o leva a criar um mundo de fantasias, preparando-o para o tratamento psiquiátrico.

"AQUELE QUE QUASE TUDO PODIA"

Não dá para pensarmos que de uma hora para outra, como num passe de mágica, Edgard abandone a personagem desistente, a qual encontrava impedimentos, dificuldades para prosseguir, sentindo-se talvez impotente, para assumir uma outra em sentido oposto. Acreditamos que isso vai acontecendo gradualmente, às vezes, até mesmo as duas personagens coexistindo, ora uma cedendo lugar para outra, ora acontecendo o inverso. O que podemos dizer a respeito é o fato de nesse período em que Edgard adoece e tem fantasias, sente-se forte, poderoso, mesmo à custa de muito sofrimento. Aí, se vê como alguém que pode controlar todo o Universo.

"O DOENTE-VAGABUNDO"

A sensação de força, potência são muito particulares somente a Edgard. O que vai se caracterizando para a família, principalmente na visão e fala de seu pai, é a constatação de alguém que é doente, inválido e acima de tudo vagabundo. Como se dependesse só de Edgard modificar essa situação; como se as outras pessoas, a própria família, nada tivessem a ver com a transformação dessa condição, como se ele não precisasse de apoio dos outros.

"O TRABALHADOR BEM-SUCEDIDO"

Esta personagem trabalhador aparece após Edgard ter "trabalhado muito sua dor", a dor do estigma, da discriminação, e do próprio sofrimento dentro de seu processo de adoecimento. Neste sentido, o tratamento no CAPS teve sua grande importância. Depois de várias intervenções que sofreu, no sentido de uma reorganização pessoal, consegue se reerguer e esse fato se consolida com sua entrada no mundo do trabalho, dentro dos projetos especiais da Associação Franco Basaglia .

Consegue através do trabalho desenvolver uma liderança, uma capacidade maior de autonomia e uma ampliação do seu mundo, através do contato com os colegas de trabalho, o qual constituiu um grupo de referência para ele, como com o contato com o público.

Dizemos então, que a personagem "doente-vagabundo"cedeu lugar ao aparecimento do trabalhador bem-sucedido. É verdade também, como o próprio Edgard nos disse que em alguns momentos quem volta a reinar é o "vagabundo"quando se sente ameaçado a deixar o emprego, entrando em choque com as expectativas da família em relação a ele.

O "DUPLO"MIGUEL

Para tentar compreender como Edgard conseguiu construir a personagem "trabalhador", talvez seja necessário falar do que ele chama de "dupla personalidade".

Nesse momento, vamos ceder espaço a Miguel e com isso, quem sabe, chegar a um entendimento desse "duplo"de Edgard. Vale a pena dizer que ao narrar sua história, pois é Edgard que fala de si, ele aponta momentos em que se percebeu mais "enlouquecido", com fantasias de ser super-herói, mas atualmente diz não acreditar nessas histórias que no passado construiu. Ao falar em Edgard e Miguel percebemos, porém, que acredita fortemente na co-existência de ambos.

O início ou a construção desse "duplo"se deu na família. O seu nome seria Miguel se não fosse a reprovação por parte de um dos pais, batizando-o como Edgard. [8] A partir daí, na família se apresenta como Miguel e também é assim chamado. Porém, fora de casa é Edgard como todos os outros o conhecem.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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