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"Dizem que sou louco" Imprimir E-mail
Por Ana Carla Pereira Domitti   
15 de março de 2003
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"Dizem que sou louco"
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Dividimos a coleta de dados em duas etapas: a primeira com informações a respeito do CAPS , e a segunda de dados a respeito dos sujeitos em questão. A análise foi desenvolvida de uma forma gradual, tecendo reflexões acerca de cada uma das fases das entrevistas com os sujeitos, trabalhando com suas narrativas identificando o movimento das personagens até chegarmos a uma análise temática, isto é, dos temas que extraímos do conjunto das entrevistas. Por fim, elegemos um sujeito típico que tendencialmente explicita a constituição de uma identidade voltada para a questão da autonomia .

Como registro da etapa em que me encontro, dentro desta trajetória pelo mundo da loucura o último capítulo, referente às Considerações Finais, na verdade não pretende ser um simples fechamento do trabalho e sim, ouvindo o apelo desses sujeitos, pretende se constituir numa contribuição para melhor pensar questões relacionadas ao bem-estar e formas dignas de vida daqueles que sofrem com transtornos mentais.

Os anexos, apresentados no final do trabalho trazem na íntegra o relato das entrevistas realizadas, num total de onze, mais um roteiro elaborado para o segundo momento da segunda etapa das entrevistas. Sendo fiel ao objetivo do trabalho, dar voz ao loucosignifica também dispensar uma atenção especial a suas falas, vistas como formas de expressão de pessoas que buscam na sua loucura resgatar sua humanidade prejudicada.

CAPÍTULO 1: PREMISSAS TEÓRICAS

O presente trabalho toma como base a Psicologia Social , dentro de uma abordagem que compreende a constituição do homem, enquanto sujeito, via as relações sociais, isto é, relações que estabelece com outros homens face-a-face, e, de forma mediatizada com o social, internalizando regras, condutas e modos de vida. Dessa maneira, constitui-se enquanto sujeito formando uma identidade pessoal, ao mesmo tempo em que participa da produção de outras identidades, por meio de suas interações.

Sendo a proposta presente a de buscar uma compreensão acerca do sujeito que se constitui no decorrer do processo de socialização , ao se tornar membro da sociedade, desenvolve modos de vida próprios, recriando a realidade objetiva [1] compartilhada com os demais, muitas vezes apropriando-se dela numa forma própria, será dada uma especial atenção aos aspectos singulares de tais sujeitos. Modos de vida singulares, experiências individuais, narrativas pessoais são, portanto, elementos básicos para análise.

Para uma reflexão sobre o sujeito que enlouquece é necessário contextualizá-lo em suas relações sociais em geral, particularmente as familiares, e também resgatar sua história de vida. Isso se faz necessário partindo do pressuposto de que para se discutir a questão da loucura , não só como coisa ou entidade, mas como processo de enlouquecimento , e do sujeito que enlouquece, não como emanação da "entidade"loucura, mas como metamorfose vivenciada nesse processo, é necessário trabalhar com uma multiplicidade de fatores, levando em conta a complexidade da constituição da realidade.

Mead (1982:54) destaca a importância da compreensão do todo social na constituição do sujeito:

"La Psicologia Socialestudia la actividad o conducta del individuo tal como se da dentro del proceso social; la conducta de um individuo sólo puede ser entendida em términos de la conducta de todo el grupo social del cual él es miembro, puesto que sus actos individuales están involucrados en actos sociales más amplios, que van más allá del él y que abarcan otros miembros de esse grupo".

Mead prossegue com a afirmação de que para o entendimento da conduta de um indivíduo é necessário compreendê-la dentro da conduta organizada do grupo social, e não o contrário, como uma explicação sobre a conduta organizada do grupo social a partir da conduta dos diferentes indivíduos que pertencem a ele.

Portanto, a loucura deve ser entendida como expressão da trama de relações entre os indivíduos, isto é da conduta (des)organizada do grupo social, e não como um aspecto isolado, inerente ao indivíduo.

Há ainda um aspecto que parece ser bastante importante no entendimento da loucura enquanto uma forma singular da existência do sujeito, que se refere a fatos que são compreendidos a partir de sua própria biografia. Como diz Mead (1982:76), "existen hechos que son importantes sólo en cuánto residen en la biografia del individuo". Mas isto não significa dizer que aquilo que é vivido por determinado sujeito não tenha sido constituído na interação com os outros e nem que não tenha ressonância nos demais. É verdade que uma experiência na vida do sujeito, pensando na questão da loucura, por exemplo, traz marcas e alterações profundas a nível individual, delineando uma subjetividade pessoal, embora isso não signifique que os outros sujeitos que passam por outras experiências desse tipo em que outras marcas são formadas não possuam aspectos em comum com este. Nesse entrelaçamento entre indivíduo e respectiva biografia, e indivíduo e aspectos que são comuns aos outros, Mead (1982:77) ressalta:

"Lo que es accesible sólo para ese individuo, lo que ocurre sólo en el campo de su vida interior, debe ser explicado en su relación con la situación dentro de la cual se lleva a cabo. Un individuo tiene una experiencia y otro tiene otra experiencia y ambas son explicadas en términos de sus biografías, pero existe un agregado: lo que es común a la experiencia de todos".

72,73,,


Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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