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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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O autor entende crise como o aparecimento súbito de sintomas, de alterações psicopatológicas, uma quebra na continuidade histórico-vital do indivíduo, ou, também, segundo seu referencial psicanalítico lacaniano, como uma quebra na cadeia de significantes. Acrescenta, ainda, que a melhora do sujeito em crise depende do tratamento individual e coletivo que venha a receber, assim como da construção de um caso clínico e do resgate de sua história de vida. O lugar da crise seria o lugar do convite ao tratamento, ou seja, de um possível estabelecimento de relações transferenciais, fator importante para a aceitação do próprio tratamento. E só quando estiverem esgotadas todas as possibilidades de abordagem verbal é que se recorreria à uma contenção física e/ou medicamentosa, até que haja um abrandamento da crise, o que ensejaria o momento para se refazer um convite ao tratamento. Conclui ele que o sujeito só consegue sair da crise na medida em que recebe alternativas de tratamento que possibilitem que ele mesmo encontre ou mostre à equipe o caminho para ajudá-lo.

Lobosque (2000) ressalta que os serviços de urgência substitutivos ao manicômio só podem ter eficácia se estiverem incluídos em uma rede que ofereça alternativas concretas para a extinção do modelo hospitalar, o que implica na ampliação do número de oficinas terapêuticas, oficinas de trabalho, centros de convivência, moradias extra-hospitalares, entre outros recursos de tratamento.

Carvalho e Milagres (1989) descrevem essa nova clínica:

Trata-se de uma clínica a ser inventada, conceituada, e que não se encontra ancorada por um saber prévio: não é uma clínica psiquiátrica tradicional; não é estritamente uma clínica psicanalítica... não é simplesmente uma clínica antimanicomial, se a definirmos a partir das noções de cidadania e inserção social, apesar de um amplo acordo em torno de suas diretrizes básicas, ao tomar o sujeito de direito como condição de todo o possível trabalho clínico. Dizer que existe uma clínica do CERSAM é, portanto um ato de nomeação desta prática que se desdobra em um convite ao necessário trabalho de conceituação, tendo em vista, que constatamos o inédito desta clínica (Carvalho e Milagres, 1998, p.23).

.Os profissionais de saúde estão buscando construir essa nova clínica e têm tentado se adaptar às mudanças propostas. Têm por objetivo ir bem além do tratamento humanizado, o que implica um desafio coletivo árduo, mas para o qual todos estão bastante motivados.

Galende (1994) ressalta, a esse respeito que as instituições de saúde não são por si só terapêuticas somente pelo fato de assim serem denominadas como acreditava a psiquiatria clássica. Argumenta ele que, se não houver o desenvolvimento de dispositivos institucionais adequados a um trabalho transferencial, elas podem até alcançar um bom nível de humanização do tratamento, menos arbitrário e patogênico, mas isso não significa que estejam sendo realmente terapêuticas. Aponta para o risco dos novos equipamentos públicos se transformarem em novos espaços de institucionalização da pobreza e da marginalidade.

Goldberg (1989) concorda com Galende (1994):

Os efeitos perversos que se verificam nos hospitais e em suas estruturas de apoio nos alertam para o fato de que certos regimes de comportamento institucional, que há muito assimilaram a doença e a dissolveram na funcionalidade de seus procedimentos, requerem esforço de mudança muito mais penetrante do que a pura e simples supressão formal do hospital. Porque tais efeitos podem muito bem se reproduzir em instâncias extra-hospitalares, caso não se alcance a raiz desses comportamentos institucionais (p. 28 e 29).

Ele ressalta a importância da construção de uma nova clínica capaz de dar conta do que denomina de campo terapêutico em expansão, que tomaria a fala do paciente não pelo reconhecimento de seu sintoma, mas como produção de um sujeito social, mesmo que isso se dê dentro dos limites impostos pela loucura. Isso resultaria em um deslocamento do processo de tratamento da figura da doença para o sujeito doente. E, ainda, possibilitaria o desenvolvimento de novas formas de acesso ao usuário, para além do manejo sintomatológico. Para isso se faz necessário que os profissionais passem a ocupar, segundo o autor, um outro lugar terapêutico. Torna-se necessário o desenvolvimento de um espaço de manobra no qual a fala do sujeito possa ser manifestada em sua plenitude, sem aprisionamentos em uma lógica institucional alienante. Acredita que isso só poderá ocorrer com a busca do singular de cada usuário e do desenvolvimento de projetos terapêuticos individualizados. Aponta, ainda, para a necessidade do surgimento da grande clínica, atenta a cada um dos sinais que compõem a figura do sujeito doente no instante de sua emergência na situação terapêutica.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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