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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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2) EXPERIÊNCIAS SIMILARES AO CAPS

A partir da lei que institui o fechamento progressivo dos hospitais psiquiátricos ocorreu uma mudança estrutural na atenção à saúde mental; deixou de priorizar o regime de internação fechada e passou a valorizar o tratamento em regime aberto. Essa mudança tem como objetivo o não-afastamento do sujeito do seu convívio familiar, nem de sua comunidade. O tratamento, que até então seria realizado prioritariamente pelos hospitais psiquiátricos, passou a ser realizado em CAPS, NAPS, Ambulatórios de Saúde Mental, Centros de Saúde, Hospitais-Dia, Oficinas protegidas e Centros de Convivência.

Com isso, um novo desafio foi criado para os profissionais de saúde. Esses profissionais, que antes estavam trabalhando com um modelo de saúde mental no qual acompanhavam um paciente somente em uma determinada fase da sua doença, passam a ter que criar uma forma de tratá-los integralmente. Torna-se uma meta o acompanhamento do paciente em todos os momentos de sua doença, seja durante um período de agudização dos sintomas, seja em momentos de maior estabilidade.

Em outras palavras, a mesma equipe que trata do indivíduo em crise, é também responsável por seu tratamento fora da crise, ou seja, por seu processo de reabilitação psicossocial. Sem dúvida, trata-se de um avanço na forma de atendimento, pois o enfoque do tratamento, deixa de ser a doença em seus diferentes estágios e passa a ser o sujeito que sofre e precisa de cuidados.

Os profissionais de saúde se viram obrigados, então, a desenvolver recursos, do ponto de vista pessoal e técnico, para se adaptarem à mudança no modelo de atenção à saúde mental. Eles encontram-se em um momento em que é preciso repensar suas experiências práticas, discutir seus métodos e técnicas e buscar um novo suporte teórico na literatura existente sobre os serviços substitutivos ao manicômio.

No caso específico desta pesquisa, cabe inicialmente reconhecer e analisar um recorte bibliográfico, que se caracteriza por descrever algumas experiências práticas recentemente realizadas em equipamentos similares aos CAPS. Selecionei, neste subcapítulo, somente textos de alguns profissionais engajados no cotidiano de suas práticas clínicas, na construção da nova tecnologia de cuidado, que oferecem, no meu entender, contribuições importantes para meu tema de pesquisa.

Está ocorrendo a desconstrução de um modelo de atendimento, paralelamente à construção de novos paradigmas de tratamento. Esse não é um processo simples e tampouco é possível que ocorra sem o desgaste e sofrimento de todos os envolvidos. Tais transformações, espero, resultarão no desenvolvimento de uma nova clínica. Os serviços de urgência, por sua vez, passam a fazer parte da clínica do CAPS e foram criados justamente para substituir os hospitais psiquiátricos e os setores de internação de agudos, têm como proposta tratar os casos de crise psíquica grave com o consentimento dos pacientes, que podem permanecer em tratamento por períodos de tempo variáveis, conforme a necessidade de cada caso. Esses serviços podem receber diferentes nomenclaturas, que variam de uma região à outra. Por exemplo, NAPS (Núcleos de Atenção Psicossocial), CERSAM (Centros de Referência em Saúde Mental) e/ou CAPS (Centros de Atenção Psicossocial).

Para Pitta (1996), a reabilitação psicossocial implica uma atitude estratégica, uma vontade política, à qual corresponde uma ética da solidariedade que facilite aos sujeitos com limitações para os afazeres cotidianos, decorrentes de transtornos mentais severos e persistentes, o aumento da contratualidade afetiva, social e econômica, permitindo-lhes o desenvolvimento de relativa autonomia.

Kinoshita (1996) argumenta que reabilitação implica necessariamente uma tentativa de ampliar o poder contratual do paciente, no que diz respeito à troca de bens, de mensagens e de afetos. Essa prioridade no tratamento se deve ao fato do doente mental ter positividade em sua vida somente na sua dimensão de doente, já que perde seu valor enquanto sujeito social. Nestes termos, o tratamento consistiria em modificar o pressuposto de desvalor natural para um pressuposto de valor possível.

Silva (2001) descreve que no CERSAM o atendimento é feito por uma equipe multiprofissional, na qual todos os profissionais se organizam no atendimento da urgência. Nele privilegia-se o atendimento com portas abertas, incentivando o sujeito a falar de sua crise e a implicar-se com ela. Ressalta que o atendimento da urgência necessita do exercício de uma lógica antimanicomial, que exige a mudança de posição pessoal de cada técnico. Trata-se de uma nova clínica em construção, impedida de apresentar quaisquer garantias de êxito, por ser uma clínica que requer da equipe uma organização interna que permita suportar o insuportável que toda crise traz consigo.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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