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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A1L28 - Lá é mais complicado para irmos, apesar de ser mais perto. (P4)

P4 responde à fala de E1, dizendo que a resistência dos pacientes não era devida a um problema de falta de compreensão da localização do CAPS, e sim uma questão de outra ordem.

A situação da mudança que já havia ocorrido no espaço físico, não aparece até então, nem nas falas da equipe nem nas dos pacientes. Ela foi negada e discutida como ameaça de perda futura, no campo da fantasia, o que estabeleceu, do ponto de vista dinâmico, uma relação de "faz de conta", um processo de "ilusão grupal", pois as mudanças e as perdas, já haviam ocorrido. Na seqüência, os pacientes começaram a falar de suas perdas pessoais e conflitos familiares.

A1L29 - O E6 e a E5 são testemunhas, pois já foram em casa. Tenho um irmão bêbado , que precisou abrir a porta para eu ir para a rua . Não tenho como viver (...) Acho a maior besteira mudar daqui . (P3)

P3 buscou fazer uma aliança com seus terapeutas E6 e E5, pedindo apoio a eles, que comprovassem que tinha razão (lucidez) no que dizia. E exemplificou contando uma vivência de perda na qual foi expulso de sua casa por alguém em quem confiava.

A1L30 - O duro é acostumar. Meu pai e minha mãe morreram um atrás do outro e eu tive que me acostumar. Isto não tem nada a ver , mas tô tentando entender como é este tal de CAPS. (P4)

O que parecia não ter nada a ver com o que era discutido, indicava exatamente o inverso: as mudanças estavam sendo sentidas como perdas semelhantes à perda dos pais. Havia ocorrido a perda do espaço físico do HD e em seguida, ocorreria a perda do HD - enquanto instituição -- e da própria Instituição Matriz. Simbolizava a perda do acolhimento do corpo materno, semelhante ao momento do nascimento (parto), que constitui a nossa primeira experiência de separação, reeditada transferencialmente, nessa nova situação de perda. O espaço acolhedor de trocas afetivas tinha "morrido" e queriam colocar - "este tal de CAPS"- no lugar do seu tão amado HD.

Nessa frase surge a primeira menção simbólica à perda do espaço físico que já havia ocorrido.

O Hospital-Dia era sentido como parte da identidade e representante da parte saudável de seus pacientes, já que esse espaço os caracterizava como pacientes-dia, ou seja, mais estáveis, aqueles que não demandavam internação e, portanto, não eram os "loucos", no vocabulário dos pacientes. Naquele momento, tentavam tirar essa conquista deles, querendo misturar os pacientes mais estáveis e os "loucos" no mesmo serviço.

Os pacientes lutavam por evitar a perda dessa identidade, representada pela perda do HD: por isto, até A1L29 , a mudança estava sendo referida somente como perda futura, já que o CAPS ainda não era algo concreto na mente do grupo.

A1L31 - E a festa de inauguração? (P1)

A1L32 - Como é este tal de CAPS? (P4)

Nesse trecho do relato, o paciente-coordenador tentou mudar de assunto, para evitar que o grupo entrasse em contato com as perdas. Propôs que se falasse de festa, algo bom. Ou seja, houve uma defesa maníaca. Mas P4 não aceitou o convite para festejar e retomou o assunto anterior. Colocou o CAPS como "corpo estranho", no lugar de perseguidor interno. Seu questionamento, no meu entender, dizia respeito a como seria o tratamento no CAPS dentro do modelo de saúde mental. Entretanto, E1 entendeu que se referia ao espaço físico.

A1L33 - P2, você que conheceu a casa, não quer descrever para as pessoas como ela é?

A1L34 - É uma casa grande, bonita, tem a parte da piscina separada da casa e tem bastante espaço que dá para fazer atividade. (P2)

P2 utiliza o mesmo vocabulário que havia sido empregado pela equipe em Assembléias anteriores para descrever os pontos fortes da casa. Ele encarna o papel para o qual foi solicitado por E1, o de auxiliar a equipe a argumentar. Isso transforma o representante de pacientes em representante da equipe.

A1L35 - Este espaço a turma vai cercar com arame . (P3)

P3 colocou o temor delirante de que os pacientes não poderiam usufruir do bom com a mudança, já que as coisas boas seriam cercadas com arame. Para ele só existiriam perdas.

A1L36 - Mas temos que sair daqui, não tem jeito. (P2)

P2 apontou através de uma racionalização, que a perda ocorreria de qualquer forma, independentemente do desejo do grupo, como quem diz: --" Temos que nos conformar com esta perda!"--

A1L38 - Mas vocês podem continuar a freqüentar aqui. (E1)

E1 tentou atenuar (mecanismo de negação maníaca) a perda, dizendo que a instituição matriz não "morreria", não estaria fechada para eles.

A1L39 - Não vamos mais ter por que continuar a freqüentar aqui. (P4)

P4 respondeu, então, à colocação anterior, reforçando a perda e, relacionando-a à função da instituição: local de tratamento.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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