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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Quando os pais querem ensinar algo a um filho e apontam uma forma de diretriz ou ação a ser modificada, a primeira coisa que o filho observa é como os pais lidam com essa questão específica em seu próprio comportamento. Os pais são nosso primeiro modelo de identificação, o primeiro referencial e a criança capta perfeitamente as contradições entre teoria e prática inerentes às falas dos pais ("faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço"). Em geral, um bom clínico, se observar o comportamento dos pais, vai perceber que o comportamento que os pais querem que a criança modifique e no qual gastaram inúmeros esforços em vão, para tentar alterar (antes de buscar ajuda especializada), é algo que a criança aprendeu no contato com os próprios pais e que faz parte de seus repertórios comportamentais cotidianos. Isso aponta para a importância e para a força das comunicações não-verbais, que, em geral, são registradas de forma mais intensa do que as comunicações verbais, que se transformam em mensagens vazias, sem significado para as crianças, por apresentarem uma clara conotação de não-verdades.

Analogamente, mesmo processo é válido para as práticas institucionais, o que torna a situação ainda mais complexa, pois os pacientes acabam estabelecendo contatos e/ou vínculos com um grande número de pessoas e buscam, nesses vínculos (múltiplas transferências) saber o quanto as mensagens são ou não coerentes entre si (assim como as crianças fazem, comparando as posturas de seus pais entre si e usando esse conhecimento em benefício de seu próprio princípio do prazer).

Durante as assembléias, por exemplo, nos comprometíamos a cuidar das situações problema em conjunto com os pacientes, mas as soluções vinham prontas de outros espaços decisórios e, em geral, não traziam elementos que indicassem uma ação de cuidado verdadeira, efetiva. Os pacientes apresentavam sua dor, sofrimento, mas esses sentimentos não eram ouvidos, o que também representava uma dupla mensagem: estamos aqui para cuidar de vocês, para ouvir, mas inconscientemente imperava um desejo oposto de não entrar em contato com aquela realidade psíquica, pois isto representaria um colapso egóico no grupo.

Para auxiliar-me nessa linha de raciocínio busco auxílio nas palavras de Durand (2003):

O ideal de tolerância e amadurecimento das relações institucionais só pode ser formulado quando conhecemos de perto as urgências do desejo e a dor de suas muitas impossibilidades... O suceder dos acontecimentos em uma instituição depende das pessoas, dos seus vínculos, da história de um grupo, do que se apostou juntos e do que negamos em nós e entre nós para permanecermos... (p.91).

Suas colocações apontam para uma responsabilidade coletiva pela tomada de decisões, o que se faz através de mecanismos conscientes e inconscientes. E ressaltam uma necessidade de cada protagonista no processo de mudanças e na administração de processos transferenciais, estar sempre refletindo sobre suas próprias condutas e como lida com posturas diferentes das suas.

Relembrando Bleger:

Por responder às mesmas estruturas sociais, as instituições tendem a adotar a mesma estrutura dos problemas que têm que enfrentar... a dissociação corpo-mente que rege os pacientes rege a própria instituição... Nas instituições que atendem doentes mentais esses problemas se tornam ainda mais agudos. Um dos que se apresentam é sempre o de uma forte dissociação entre os objetivos explícitos e implícitos da instituição ( p.62).

Esta experiência me colocou em contato com um sentimento que tinha a todo o momento durante o processo de mudanças do HD/CAPS. Sentia necessidade de ser cuidada e, me reunia com outros colegas, apontava para a necessidade da equipe se cuidar melhor. Esse sentimento se deve predominantemente a uma necessidade de dependência que tenho, acredito que sim, mas também é decorrente de uma necessidade de cuidado real, que emergiu do fato do processo de mudanças do HD/CAPS não ter sido adequadamente conduzido. A autonomia individual, mesmo em um contexto de gestão democrática, não pode prevalecer ao processo de tomada de decisões coletivo, que demanda o respeito às hierarquias e à tomada de decisões em fóruns coletivos e para os quais existe uma atribuição de responsabilidades diferenciadas dentro do processo de planejamento institucional.

Os resultados da pesquisa me fizeram pensar sobre as dificuldades tão intensas da equipe nas assembléias, que aparentemente apontavam para uma capacidade maior por parte dos pacientes de estarem em contato com a realidade do que a dos profissionais. Isso me fez concluir que a equipe estava vivenciando um quadro depressivo melancólico (enquanto grupo) e, portanto, necessitava realmente de cuidados. Essa situação ocorreu porque os pacientes como funcionam predominantemente na posição esquizoparanóide, projetavam as vivências persecutórias e más na equipe e no mundo externo. Isso trazia um quadro confusional, um maior empobrecimento egóico; por outro lado de certa forma eles estavam coerentes com suas verdades, defendendo seus desejos de continuar na instituição. Essa luta por seus interesses unia o grupo de pacientes e dava-lhes uma estrutura através do fenômeno grupal. A equipe, que funcionava sob mecanismos da posição depressiva, estava concretamente dividida por unidades dentro da Instituição Matriz (portanto enfraquecida enquanto grupo) e sem nenhuma autonomia para decidir seu próprio destino; entrou em conflito com seu ideal de ego e passou a se sentir extremamente culpada pela situação ter ocorrido da forma mais desfavorável possível. Não tínhamos com quem contar, como pedir socorro, lutar (tínhamos que ficar calados e impotentes, de modo a preservar a prefeitura do escândalo político) ou fugir - em função de nossa responsabilidade profissional com os pacientes e com a instituição - era impossível, de forma que também não havia meios de reparar o mau causado, pois não tínhamos autonomia para procurar casas e buscar saídas possíveis. A única saída foi a doença depressiva: evitamos um colapso maior, voltando o mau contra nós mesmos, pois a dor era insuportável. A equipe passou a agir como a mãe depressiva, que só consegue cuidar da sobrevivência de seus filhos (medicação e alimentação), entretanto, sem conseguir estabelecer um vínculo afetivo e terapêutico significativo. Penso que esse comportamento se estende até os dias atuais, quando a equipe tenta lutar contra a depressão, buscando estabelecer limites de atendimento no CAPS e procurando ampliar o grau de autonomia grupal.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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