Cândido Escola
Teses
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental | A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental |
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| Por Ana Carla Silvares Pompêo | |
| 31 de maio de 2004 | |
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Seria interessante que a equipe explorasse mais as falas dos pacientes, entendesse o sentido de cada comunicação ou de algumas palavras em particular, mesmo que aparentemente sejam palavras de uso comum e temas de domínio público. Foi observado que a equipe de forma geral, ignora falas de conteúdo delirantes ou estranhas à compreensão do grupo, um indicativo de uma possível tentativa de retirar o "psicótico" de sua condição de diferente, normatizando-o ou valorizando apenas conteúdos de falas mais próximos de uma comunicação considerada normal ou compreensível. No trabalho com indivíduos psicóticos essas falas precisam ser incluídas na discussão, através de esclarecimentos de seu conteúdo manifesto ou de seu sentido latente. Quando imperam os processos de resistência e o grupo não consegue se aproximar da tarefa proposta no encontro, Pichon-Rivière sugere que seja feito uso de interpretações do conteúdo latente, provável causador de angústia. Todas essas sugestões não minimizam o impacto de cada experiência grupal em seus participantes e o caráter de imprevisibilidade de cada encontro. Os coordenadores/terapeutas, por isso, deveriam estar sempre atentos às diversas formas de vinculação/comunicação (verbais e não verbais) que emerjam na dinâmica do contexto grupal, de forma a refletir sobre os aspectos transferenciais e sobre sua contratransferência, segundo o referencial teórico de psicanalistas como Klein, Bion, Pichon-Rivière, Zimerman, dentre outros. Quando não souberem intervir, o silêncio é a melhor opção e o grupo desenvolverá seu trabalho, com a menor interferência possível do coordenador. VI - Considerações finaisDesconstruindo o manicômio mental Iniciei este trabalho com uma intenção de defender a clínica dentro das práticas psiquiátricas, apesar de respeitar e considerar importante a convivência harmônica de todas as linhas teóricas e a soma de experiências dentro do processo de reabilitação psicossocial. Termino-o com mais questionamentos do que respostas, mas com uma significativa transformação interna, que penso ser o que Bion chamou de aprender com a experiência. Descobri mais sobre mim neste trabalho do que sobre meus pacientes e acredito que esta é a única via possível de ajudá-los a se ajudar. Descobri, desde minhas primeiras aulas do Mestrado, a importância das palavras e de seu emprego correto na formação de frases e da transmissão das idéias através da linguagem escrita. Esta pesquisa acabou por confirmar a experiência de meus professores, mostrando a importância da escolha e da busca da compreensão dos sentidos das palavras, também na linguagem verbal. O meu encontro com autores como Bion, Britton, Caper, Rezende, Berlo, Desviat, Perbart, Zimerman e Fernandes (W.J.), me possibilitou conhecer, perceber e entender alguns fenômenos que desconhecia, ou cujo peso sobre minha prática eu ignorava. O encontro com a psicanálise das configurações vinculares (PCV), além de me agregar uma identidade profissional, me apresentou à teoria das comunicações e a uma aplicação da psicanálise no contexto institucional menos conflitante com a linguagem utilizada no cotidiano de uma instituição de saúde que trabalhe, em especial, com práticas de reabilitação psicossocial. O estudo do conceito de vínculo pôde me mostrar o quanto este é utilizado de forma imprecisa ou vazia nas instituições de saúde, por mais esforço que se faça para trabalhar de forma ética e responsável; não se trata aqui de uma crítica à competência dos profissionais, mas à minha própria ignorância sobre o assunto. E, neste caso, me considero uma porta voz de um grupo mais amplo de pessoas com experiências as mais diversas. Fala-se de vínculo o tempo todo e de sua importância, mas não sei se as pessoas têm a dimensão do quão complexo é esse conceito, principalmente no que se refere a formas de manejá-lo adequadamente, em benefício de um tratamento. Penso que sempre busquei coerência entre teoria e prática; não me cansava de cobrar que meus colegas fizessem o mesmo, assim como era cobrada por eles e vejo que temos um longo desafio pela frente no que se refere a isso. Não fazia idéia do quanto as mudanças são difíceis, incomodam e o quanto se luta para manter o establishment , tanto nos pequenos grupos, como nas instituições (na sociedade esse processo é ainda mais árduo). O medo da mudança desencadeia em nosso psiquismo um impacto inimaginável. Neste trabalho me utilizei muito de minha experiência como psicóloga infantil, em que trabalhava com o modelo da relação de pais e filhos, para exemplificar o impacto das mudanças que tivemos no CAPS. E, novamente, recorrerei a essa experiência para dizer o quanto percebo, nas práticas institucionais, que emitimos mensagens duplas e contraditórias aos nossos pacientes e colegas profissionais o tempo todo. Em linguagem da PCV, praticamos duplo vínculo em grandes proporções, assim como temos inúmeros problemas de falha de comunicação, que demandam reflexão. Empregamos um uso freqüente de vínculos baseados numa modalidade de contato denominada de nível fantasmático (Puget e Berenstein, 1993). Nesse tipo de vínculo, há um reconhecimento do outro, mas o que predomina é o que nosso ego deseja que o outro seja, o que representa uma forma de vinculação auto-referente. Da mesma forma, há um predomínio dos vínculos de posse e de controle, em detrimento aos vínculos de aliança e de amor, o que se observa através do material emergente das assembléias e das descrições dos contextos institucionais, podendo ser observados tanto na relação entre os gestores, profissionais e pacientes (considerando todas as combinações possíveis de todos esses protagonistas do processo de mudanças). 66,67,68,69
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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