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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A grande maioria dos momentos de silêncio por parte dos participantes, assim como os acting outs ocorreu após intervenções que não levaram em consideração as colocações feitas pouco antes durante os grupos, que vinham impregnadas de conteúdos contratransferenciais, de uma não-escuta ou não-respeito à subjetividade e às diferenças entre as pessoas. Em todos esses casos, nota-se a falência da palavra e a busca de outros recursos de comunicação dos processos inconscientes.

Quanto aos aspectos técnicos da condução de um grupo, fica claro que a equipe necessita buscar um ou diversos tipos de formação na área, para embasar seu trabalho nas práticas grupais. O domínio de uma técnica auxiliaria muito, principalmente em momentos de crise, nos quais a capacidade de pensamento, escuta e acolhimento se encontram abaladas. Muitas intervenções prejudicaram o bom funcionamento do grupo e/ou foram motivadas pelo fato de o terapeuta sair de sua função ou de atuar a partir de sua contratransferência, sem ter muitas vezes, consciência disso.

Algumas intervenções que provocaram uma alteração positiva na dinâmica das assembléias estão citadas a seguir:

A1L56 - Acho melhor conversarmos sobre como está a organização dos espaços aqui no momento e depois que fizermos a visita na casa poderemos discutir como será lá. (E3)

A1L62 - Quais são os receios de vocês? (E3)

A1L84 - Temos que ir com calma, primeiro temos que avaliar como é a situação da nova casa. (E9)

A1l94 - O HD está acabando e o nome está mudando. E a Instituição Matriz também está mudando. Tem uma perda, vocês não tinham se tocado disto? (E12)

A1L96 - A Instituição Matriz está mudando e você tem razão que não será mais a mesma. (E12)

A1L103 - Não sabemos se vai dar certo (as mudanças) , vamos tentar. (E12)

A1L105 - Nossa saída são favas contadas, é definitivo. Em vez de brigar com a mudança vamos ver o que podemos fazer! (E12)

A2L2 - Aqui parece escola? (E3)

A2L44 - Vocês estão tão quietos, o que houve? (E2)

A2L99 - Vocês têm mais alguma coisa a dizer na assembléia de hoje? (E2)

A4L20 - O que você pensou P1? (E27)

Estas colocações tiveram êxito, pois abrangem questões da vivência presente do grupo ("aqui e agora"). Sempre que a conversa tinha como eixo a discussão de eventos futuros, conceitos que demandavam muito do imaginário e da capacidade de abstração de cada um, o grupo se perdia em suas fantasias, ora boas, ora más, e caía no vazio. A inclusão de informações atualizadas e de dados de realidade auxilia a trazer a discussão para um funcionamento baseado mais no processo secundário de pensamento. Para isso é necessário que as opiniões, sentimentos e vivências sejam expressos da forma mais direta e clara possível, sem o uso de jargões técnicos. Além disso, quanto mais no plano manifesto estiver o conflito/problema, melhor será a possibilidade de encontrar soluções, propor encaminhamentos práticos ou trabalhar a angústia causada pelos mesmos.

Cada coordenador/participante tem que buscar preservar seu ego, seus valores e até suas crenças, estabelecendo limites adequados dentro de um compromisso ético consigo mesmo e com o grupo. Cada um deveria estar atento ao uso que faz dos tempos de verbos e das pessoas do discurso, utilizando "eu, nós ou eles" conforme a coerência dos eventos pedir.

Seria interessante que os membros da equipe refletissem sobre o fato de deixarem sozinhos, à própria sorte, os companheiros que têm a função de coordenação da assembléia, pois esse é um indicativo da falta de cooperação e de interação entre os membros do grupo, que se torna mais evidente nos momentos de conflito.

A partir de minhas reflexões, pude concluir que sempre que nas assembléias forem informadas decisões - tomadas em outros fóruns - que envolvam ou afetem o futuro desse grupo, os gestores ou pessoas citadas deveriam ser convocados para os próximos encontros, para trazer a problemática para dentro das assembléias. Essa seria uma forma de envolver e responsabilizar os gestores pelas decisões que tomam, preservando a função de cuidador dos membros da equipe e sua capacidade de escuta e, a conseqüente manutenção de um vínculo terapêutico.

Além dessa questão, os resultados da pesquisa mostraram que as pautas não têm ficado claras no início da reunião, o que demanda um cuidado em explicitar, sempre que possível, o que cada pauta representa. Também é preciso deixar claro em cada pauta, qual é a governabilidade dos participantes e do dispositivo assembléia, em relação àquela pauta em questão, o que funcionaria como pequenos contratos. Sugiro que, sempre que o grupo não tiver governabilidade ou autonomia para tomar decisões sobre um determinado item de pauta, que este não seja colocado como pauta e sim como informe, o que é muito mais coerente e ético e evita mensagens dúbias ou ambivalentes, o chamado "duplo vínculo".

No final da assembléia 2, a representante da equipe propôs um cancelamento de atividades (A2L105). Segundo aspectos técnicos, mudanças na rotina devem ser introduzidas sempre no início das reuniões e mesmo que estejam pré-determinadas, é importante esclarecer o porquê da alteração, sempre que existir uma razão consciente.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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