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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Considero importante fazer algumas considerações sobre o papel do coordenador-paciente que nas três primeiras assembléias, estava identificado com o papel dos gestores e usava como modelo o comportamento dos profissionais-coordenadores. A imitação de um modelo conhecido, apesar de fazer parte da experiência de aprendizado de novas funções, acabou comprometendo a espontaneidade dos coordenadores-pacientes. Penso que o que agrega valor aos encontros é justamente a possibilidade do coordenador-paciente ser um efetivo representante do grupo e dos interesses dos pacientes, como ocorreu na assembléia quatro, que acabou sendo um espaço catártico e de expressão das angústias, o que é qualitativamente diferente do não-encontro marcante nas assembléias anteriores. Seria interessante que a equipe pudesse refletir sobre como encaminhar essa questão, pois dela podem surgir mudanças de postura interessantes. Talvez este pudesse ser um tema de pauta numa assembléia após passar por uma reflexão da equipe.

Sobre a mudança mais ampla do modelo de saúde mental do município e sobre as ideologias que são o pano de fundo do mesmo, os pacientes expressaram opiniões que, a meu ver, demandam reflexão: disseram que nem sempre estar se tratando perto de casa é bom, pelo contrário; consideram importante a presença de médico vinte e quatro horas nos CAPS; julgam hospital algo bom para eles (aqui não quero dizer hospital como sinônimo de manicômio, mas de serviços como os da Instituição Matriz, por exemplo, o Hospital-Dia); não querem que a Instituição Matriz acabe ou que perca suas características de bom tratamento; consideram essas mudanças de espaço físico um remédio errado: e sentem que estar na sociedade ainda é muito perigoso para eles e que não são desejados em lugar algum.

A assembléia foi planejada como um espaço democrático, de exercício da cidadania, mas na prática, não o é, pois todas as decisões importantes são realizadas fora do espaço da reunião, pelos gestores ou pela equipe. O espaço das assembléias tem se transformado em espaço de transmissão de informações e passa a ter características superegóicas. Apenas uma decisão importante se deu nesse espaço: a escolha do nome do CAPS. Em geral, esse espaço acaba sendo utilizado para tomar decisões de menor grau de complexidade, como as que dizem respeito a passeios, festas e problemas de convivência diária. Usando de ironia: o paciente pode escolher se quer tomar café ou suco no chá da tarde. A assembléia está, portanto, enfraquecida enquanto espaço deliberativo, pois as relações verticalizadas de poder continuam sendo a forma preponderante de tomada de decisões. Vale a pena pensar sobre a possibilidade de inclusão de representantes de pacientes em espaços deliberativos da instituição, como reuniões de colegiado, reuniões de equipe ou outros fóruns de discussão.

A equipe acreditava que não existiam diferenças entre o funcionamento que tínhamos enquanto Hospital-Dia e que teríamos enquanto CAPS: por isso, para os profissionais, a mudança de nome seria apenas um formalismo. Fui percebendo pelos resultados da pesquisa que, para os pacientes, isso não era vivenciado da mesma forma e que o "tal de CAPS" era algo sentido como um "corpo estranho" ou como um "elemento perseguidor". Tentavam entender que sigla era esta e as explicações da equipe, em geral, caíam no vazio, sem agregar valor. Aquilo que é claro para a equipe e gestores, nem sempre o é para os pacientes, e se ambos não aprenderem a se comunicar, ocorrerão mais falhas graves de comunicação decorrentes de pensamentos como: "eu sei sobre o outro", ou "sei o que é melhor para os pacientes", ou "acredito que o que é bom para mim é necessariamente bom para o outro". Observemos os principais exemplos retirados das assembléias que denotam isso:

A1L18 - É isso mesmo, lá perto de casa tem um (CAPS) , mas fui uma vez só e nunca mais. Pode ser uma alternativa para se recuperar, mas vai ser duro! (P4)

A1L28 - Lá é mais complicado para irmos apesar de ser mais perto. (P4)

A1L32 - Como é este tal de CAPS? (P4)

A1L66 - Eu moro em um beco sem entrada e sem saída, tem um CAPS lá perto (da casa dele) , só que eu odeio aquele lugar. No novo CAPS até posso ir (que é bem longe de sua casa) . (P4)

A1L68 - Será que terá a mesma oportunidade que temos aqui? Vai ter grupo de segundas e quintas? Eu só venho estes dias. (P4)

A2L1 - Eu já fui em hospital que era para tomar remédio, descansar, deitar, para fazer tratamento, mas aqui nesta escola não tá bom não... (P15)

A2L11 - Essa escola não vale nada! (P15)

A2L13 - Tava a fim de ir para o Vera Cruz. (P15)

A2L87 - Pensei que aqui fosse moradia! (P22)

A crise provocada pelas mudanças demonstrou que o limite entre normalidade e patologia é muito mais tênue do que se imagina e que, em momentos de crise os fenômenos psíquicos que ocorrem em indivíduos neuróticos e psicóticos são muito semelhantes. A diferenciação entre os dois subgrupos é o grau de autonomia, a possibilidade de inserção e o amparo social e familiar. Para a grande maioria dos pacientes, o CAPS funciona como o único lugar de trocas afetivas e de exercício da subjetividade possível. E quando esse espaço é ameaçado, o impacto na qualidade de vida do paciente é muito significativo, visto que simplesmente estar em uma casa ou na sociedade de forma alguma significa ser aceito ou acolhido.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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