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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Os pacientes especialmente, vivenciaram as mudanças como uma perda irreparável, comparada à perda dos pais, o que me leva a pensar que a mudança de casa e de nome do serviço estaria relacionada à questão da perda da identidade e teriam resultado em um intenso processo de resistência. Nas falas dos participantes as identidades das pessoas misturavam-se às identidades da instituição e do setting institucional , confundindo-se com estas, em alguns casos. No HD a identidade dos pacientes era marcada pela condição de paciente-dia, o que lhes assegurava um alto grau de sanidade no campo simbólico: após o retorno para a Instituição Matriz, só lhes restava a identidade de "louco", de "indigente", de "órfão": eram os pacientes sem lugar no mundo, aqueles que ninguém queria por perto... Isso pode ser percebido através de falas e actings out dos pacientes, conforme exemplos abaixo:

A1L70 - Tô no bico do corvo. Sabe quanto tempo faz que tô aqui? Dez anos e meio. Dá para acreditar? (P4)

A1L80 - Não falo porque estou aqui há três meses. Não conheço nada. Se for ficar aqui bem, se for mudar também é bom. (P12)

A1L80 - P3 mostra o RG para E3 e diz ser nascido no município do CAPS (...) P4 mostra para E3 um papel em que está escrito seu nome, telefone e que é deficiente mental.

A1L93 - Pode estragar o nome do hospital, pois se não cuida do HD, a Instituição Matriz vai virar tudo manicômio. (P4)

A1L95 - Se acabar o HD a Instituição Matriz também vai acabar, não será mais a mesma. (P4)

A2L47 - Estamos cabreiros com a Copa do Mundo, não acreditamos mais no Brasil. (P4)

A2L48 - Ainda somos da Instituição Matriz? (P10)

A2L95 - Eu perdi o meu documento. Não sei se foi aqui ou na Instituição Matriz. Preciso do meu documento. (P10)

A3L29 - E o café? Ficamos aqui sem café. (P20)

A3L30 - E as mesas que estavam na outra casa. Poderemos pegar? (P30)

A3L53 - Fui no médico, pediram exame e fiz lá na casa. Queria saber onde está meu exame? (P28)

A3L63 - Não tem mais cadeira... Eu sou macumbeiro!... (P35)

A4L1 - Temos dois assuntos: a casa e o posto de enfermagem que tá muito pequeno, não tem espaço pras coisas, nem pra gente ficar. (P30)

A4L21 - Eu pensei no bem-estar e no bem-estar das outras pessoas. Tô me sentindo passado pra trás. Não tem lugar pra gente aqui, não tem lugar pra gente alí... (P30)

A4L22 - P31 se levanta e dá um grito extremamente alto e começa a chorar e a gritar.

As quatro assembléias do ponto de vista dinâmico funcionaram sob o pressuposto básico de luta e fuga de Bion e em consonância com a fase de pré-tarefa estabelecida por Pichon-Rivière.

Os temas (conteúdos latentes) das assembléias foram respectivamente:

1. Falta de autonomia para tomar decisões e a mudança de espaço físico/nome;

2. Perda de identidade;

3. Pacto de silêncio e perda de espaço/tratamento;

4. Falta de um lugar no mundo.

Somente na quarta assembléia o tema latente coincidiu com a pauta da reunião.

A equipe utilizou a diretriz da regionalização dos serviços para defender o processo de mudanças de casa e os pacientes utilizaram o conceito de vínculo e da importância do setting institucional em seus tratamentos para argumentar contra a saída do HD/CAPS da Instituição Matriz.

Em quase todos os encontros os coordenadores acabavam atuando como porta-vozes dos gestores e dos interesses institucionais. Isso só não ocorreu na quarta assembléia, devido ao protagonismo do representante dos pacientes e à postura mais imparcial assumida pela representante da equipe, que passou a palavra para a gerente do serviço comunicar as novidades sobre a situação do CAPS. As assembléias perderam, nesse período o caráter de espaço de co-gestão do cotidiano institucional, o que desvitalizou completamente esses grupos, que perderam sua função original e tornaram-se, em sua grande maioria, espaços de transmissão de informações predeterminadas pelos gestores e, em alguns momentos pela equipe. A postura assumida pelos coordenadores impossibilitou que se pudesse desenvolver nos encontros um vínculo positivo, pois a preocupação de defender as mudanças instituídas impossibilitou que a equipe escutasse seus pacientes e os acolhesse adequadamente. O coordenador acabava tendo o papel de "bode expiatório" do grupo e muitas vezes a equipe acabava abandonando seu companheiro nessa função difícil, abstendo-se de auxiliá-lo nos momentos de maior tensão.

Na maioria dos encontros os pacientes agiram mais baseados em processos secundários e em melhor contato com a realidade do que os membros da equipe. Trata-se de um dado da maior relevância. A crise da equipe foi mais intensa que a dos pacientes, uma vez que a perda das funções egóicas de seus membros ocorreu em diversos níveis: perda da autonomia, perda da credibilidade e da função de cuidadores, perda da capacidade de planejar ações, fragmentação entre seus membros, assim como perda da coerência interna, da auto-estima e do protagonismo individual e grupal, já que tivemos que defender e implementar ações incompatíveis com nosso compromisso ético com os pacientes e com nosso profissionalismo. A equipe também vivenciou um processo de perda de identidade profissional, pois não conseguiu lidar com o volume de frustrações que teve que enfrentar, o que comprometeu as funções sensoriais (observação da realidade interna e externa, escuta, empatia) e a capacidade de pensamento.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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