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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Descrição do contexto institucional 5

A casa 2 citada durante as assembléias três e quatro, não pôde ser alugada para o CAPS, pois seu proprietário não quis negociar com a prefeitura, depois da quebra do contrato anterior.

Permanecemos funcionando no espaço cedido pelo centro de convivência, que passou a abrigar ambas as equipes e pacientes. Nessa fase, a dispersão da equipe do CAPS pelo espaço da instituição foi marcante. Os profissionais foram novamente divididos: uma parte trabalhava no Centro de Convivência, outra próxima ao setor de internação, no posto de enfermagem: a equipe noturna passou a compor a equipe da unidade de internação, os auxiliares administrativos foram trabalhar no espaço físico da recepção e os auxiliares de higiene foram distribuídos por diversos setores e horários de trabalho, ou foram trabalhar nas moradias terapêuticas. Os leitos-noite do CAPS passaram a funcionar de forma improvisada na sala de televisão da unidade de internação.

Em 4 de abril de 2003, o CAPS mudou-se para uma nova casa, também localizada em um bairro nobre da cidade - com padrão semelhante ao da casa 1 -em uma rua, na qual era autorizado o funcionamento de imóveis comerciais, segundo a Lei de Zoneamento Urbano. Mesmo assim, os vizinhos abriram um novo processo na justiça solicitando o fechamento do CAPS, alegando que a rua era residencial, baseando-se nas repercussões na imprensa e no processo judicial da casa 1 (que permanece na justiça até o presente momento). Esse foi um novo período de turbulência emocional para todos, mas, principalmente, para os pacientes que passaram a ter o estigma de não serem aceitos em lugar algum. A própria Instituição Matriz não tinha mais espaço para eles, a sociedade tornava-se cada vez mais ameaçadora e sua reinserção social tornava-se cada vez mais utópica. Além de tudo, a equipe perdeu totalmente a credibilidade diante dos pacientes, pois nossa palavra não tinha mais peso algum e, caía no completo vazio. O trabalho tornou-se extremamente difícil. Estávamos "no mesmo barco" que eles e pudemos sentir na pele como eles se sentem! Houve, então, um novo processo de identificação: equipe e pacientes eram iguais na vivência emocional, parceiros na crise, com uma diferença: nós tínhamos um lugar aconchegante para nos refugiarmos após o término da jornada de trabalho, mas eles não. Para eles, o lugar de refúgio sempre foi a Instituição Matriz e o HD. E, nesse período, pouco puderam contar com o amparo do CAPS, pois em função desse processo de identificação intenso, qualquer tipo de tratamento estava inviabilizado.

Somente em novembro de 2003, o CAPS ganhou a ação da nova casa na justiça e pôde regularizar sua situação, o que permitiu a reinclusão do CAPS e de todos os seus membros na lógica de sujeito de direito e do resgate da cidadania.

4.) REUNINDO OS FATOS

O grande problema enfrentado, pela equipe e pelos pacientes do CAPS, durante o processo de mudanças, foi, como vimos, a forma como todo o processo ocorreu, em conseqüência de uma falta de planejamento adequado. Os prazos para que as mudanças ocorressem não foram adequadamente planejados, uma vez que desconsideraram que, a Instituição Matriz e a equipe, necessitavam se programar para a mudança, de forma a ter meios de preparar adequadamente os pacientes para o mesmo. Deveria ter havido um cuidado real, a organização de prazos que englobariam desde o momento adequado de informar os pacientes e suas respectivas famílias sobre a mudança, até a adequação da nova casa para a chegada dos mesmos; só depois, teriam início as atividades. Além disso, o planejamento demandava uma conciliação dos prazos com as mudanças dos outros serviços (Unidade de dependentes de substâncias psicoativas e Unidade de internação) assim como com o cancelamento do contrato de aluguel do antigo hospital psiquiátrico (onde funcionava a Unidade de dependentes, antes da mudança para a Instituição Matriz) com a preparação da casa do novo CAPS e com as reformas no espaço físico da Instituição Matriz, que não deveriam ter sido iniciadas antes da mudança do HD.

Esse planejamento não abrangeu a criação de amplos fóruns de discussão das diretrizes que caracterizavam a mudança de modelo de saúde mental que, deveriam contar com a presença de pacientes, equipe e gestores da Instituição Matriz e da prefeitura. Além disso, nossa saída da instituição, envolveria mais do que a escolha de uma casa adequada, envolveria em primeiro lugar, a preparação das equipes, a organização de um treinamento para os profissionais novos e oficinas de planejamento que tivessem como objetivo trabalhar a integração do novo grupo e as expectativas para a mudança. Em segundo lugar, demandaria o planejamento do tempo que seria gasto na preparação do imóvel para receber os pacientes e, para que a casa pudesse ter estrutura para funcionar como CAPS e, principalmente, o desenvolvimento de campanhas para informar a população em geral sobre a reforma psiquiátrica e a questão da doença mental, tendo como ponto de partida visitas à comunidade do bairro no qual o CAPS seria instalado e campanhas publicitárias nos veículos de comunicação de massa.

Com a nossa mudança para a casa 1 e o decorrente problema com a vizinhança, foi possível identificar o quanto o preconceito contra o doente mental continua grande, provavelmente, devido à desinformação da população, que não acompanha as transformações pelas quais a psiquiatria vem passando e não tem contato com pessoas que vivenciam problemas como esse (e recebem tratamento adequado).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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