Cândido Escola
Teses
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental | A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental |
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| Por Ana Carla Silvares Pompêo | |
| 31 de maio de 2004 | |
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E2 apresentou nessa fala, a realidade dos fatos. Apareceu claramente de forma manifesta e latente, seu sentimento de solidão e desamparo no exercício da função ingrata de co-gerenciar o Caos . O "nós" se transformou em "eles". Quando se referiu ao alvará da casa, estava se referindo também, ao próprio alvará para voltar a ser uma gerente-sujeito e poder resgatar sua autonomia e, capacidade de decisão sobre o nosso futuro. Algumas semanas após essa assembléia, a prefeitura assinou um decreto-lei, que regulamentava o funcionamento de equipamentos como os CAPS na cidade, o que não existia anteriormente, por serem serviços criados recentemente. Essa lei ampliava as áreas da cidade nas quais estaria autorizado o funcionamento de serviços substitutivos de saúde mental, como os CAPS, que passariam a seguir normas semelhantes de classificação a dos Centros de Saúde. Antes a instalação de serviços de saúde mental, era regulamentada por uma lei de ocupação do solo, que os caracterizavam como serviços hospitalares, o que reduzia, as alternativas de áreas nas quais poderiam funcionar. A4L11 -Tenho o dom de cura e não quero perder este dom não! Você que ajuda com remédio... Já falei o que tinha que falar. Pode tirar o quanto for (dinheiro) . Eu já curei o Michael Jackson, ninguém acredita, mas no rádio falou. (Levanta-se e sai da sala) . (P17) P17 fez, nesse momento, alusão ao temor de perder seu tratamento e sua sanidade, representada pela palavra cura. Após dizer isso, levantou- se e saiu da sala, fazendo um acting out . Ele falou, mas a angústia de aniquilamento não lhe permitiu ficar na reunião para ouvir o que seria dito na continuidade do encontro. Preferiu uma saída delirante segundo a qual havia auxiliado na solução do problema e seu dinheiro imaginário teria salvado todos. E2 verbaliza a seguir seus esforços e empenho para negociar com a prefeitura e sensibilizá-la para que agilizasse a solução de nossa situação de impasse, ou lhe desse autonomia para fazê-lo. A4L13 - Não ficou decidido se vamos voltar logo pra lá? (referindo-se à casa 1). (P32) A4L16 - Não temos esta meta de voltar pra lá. Vamos procurar outra casa. (E2) A4L17 - Eu sonhei com o P6 a noite toda. (P16) Essa seqüência de diálogos mostrou que o desejo (sonho) dos pacientes, era voltar para a casa 1, de serem acolhidos realmente naquele espaço, serem valorizados e respeitados pelos vizinhos. Mas isso não passava de um sonho impossível, uma utopia. O sonho de ter um lugar, um valor social ainda está muito distante deste grupo. A realidade se impôs e E27 direcionou a discussão para o problema do posto de enfermagem. P30 buscou uma aliança com os demais participantes, para que relatassem suas opiniões sobre o posto e nosso problema de falta de espaço, mas ninguém teve coragem de denunciar a situação, provavelmente devido à uma angústia persecutória e um temor da retaliação. P30 então de forma bastante corajosa, denuncia nossa situação real, no papel de porta-voz do grupo: A4L22 - Eu pensei no bem-estar e no bem-estar das outras pessoas. Tô me sentindo passado pra trás. Não tem lugar pra gente aqui, não tem lugar pra gente ali... (P30) Essa fala repercutiu como uma bomba no ouvido de todos, remeteu o grupo de volta a seu presente desolador, de volta ao Caos e à nossa impotência para sair dele. A partir dessa verbalização se tornou impossível negar as perdas, o pacto de silêncio havia sido quebrado definitivamente e, a sensação de angústia, acompanhada da profunda dor no peito, que a caracteriza, invadiu a todos. A crise do CAPS e, consequentemente, da equipe e de seus pacientes, havia sido desmascarada e a ferida narcísica de todos estava aberta. Faltava bem-estar. Não tínhamos lugar em lugar algum, nem mesmo dentro da Instituição Matriz, único lugar possível de trocas sociais e até então valorizado. A loucura passa a ser a única identidade possível para aqueles pacientes. A4L23 - P31 se levanta e dá um grito extremamente alto e começa a chorar e a gritar. P31 não pôde se deprimir e com seu acting out também foi, naquele momento, porta-voz do sofrimento de todos, que só pôde encontrar vazão através da ação, da loucura, da crise: crise dos pacientes e da equipe, que fica atônita, assistindo à cena, sem conseguir intervir; e, novamente, crise da pesquisa, uma vez que eu fui a pessoa da equipe solicitada para atender à paciente e com isso, o relato da assembléia voltou a ser interrompido. Isso mostrou que a crise de P33, se a considerarmos porta-voz do grupo, não podia ainda ser elaborada dentro da assembléia, pois não podia ser pensada e incluída naquele espaço, ou nesta pesquisa. Como já mencionei anteriormente, a pesquisa e, consequentemente, eu (E3), ao registrar o que ocorria naquele momento, passamos a funcionar como elemento perseguidor, como bode expiatório, dentre os membros da equipe: em função disto e da crise que se instalou em um grande número de pacientes, nessa e em todas as assembléias que ocorreram após nosso retorno para a Instituição Matriz, tive que interromper minha participação nas mesmas, para atender a pacientes em crise. 66,67,68,69
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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