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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A missão do CAPS envolve o tratamento em liberdade, o resgate da cidadania dos pacientes, o resgate de uma condição de sujeito de sua história pessoal e um trabalho de reinserção social. No entanto, nesse momento de nossa história, tanto o CAPS - como instituição -- quanto seus pacientes e funcionários, estavam reduzidos a uma condição de objeto. Havíamos sido escondidos na Instituição Matriz, que foi ao mesmo tempo, o único espaço que se dispôs a nos acolher (nossa garantia de sobrevivência) e o espaço no qual nos tornamos fantasmas, para abafar a repercussão política negativa que nossa ida para a casa 1 (e o processo judicial da vizinhança) havia causado e o Caos que vivenciávamos ia se transformando em rotina, íamos tendo que nos conformar com nossa condição de objeto.

A loucura era a única saída possível contra a angústia de aniquilamento.

A4L3 - Tava bom naquela clínica , aí os velhos falaram mal de nós e aí tiraram nós de lá e olha o que aconteceu ...Tava tão bom lá! (P17)

P17 aponta para a perda do Bom -- do bom tratamento, do bom espaço físico, para a perda da esperança!

A4L4 - Vamos começar pelos informes da gerente (E2) sobre a casa. (E27)

E27, que estava coordenando a reunião, deu a seguir, a palavra à E2, a gerente, enfatizando sua função diferenciada da e na equipe, dizendo que seriam dados por ela os informes sobre a casa. Essa foi uma forma de representar uma cisão, provocada pelo sentimento de descredibilidade que os gestores estavam enfrentando naquele momento. O colegiado da Instituição Matriz estava tolhido em sua autonomia, "refém" das decisões da prefeitura, sem poder de negociação, o que criava um distanciamento entre equipe e gestores (gerente), uma vez que pouco podia ser feito concretamente em nosso benefício. A equipe esperava soluções para aplacar nosso sofrimento, de preferência uma solução mágica que pudesse nos despertar daquele pesadelo, aliviando-nos de tamanha angústia.

A4L5 - Estamos vendo a casa do bairro X, mas estamos negociando o aluguel, pois estão querendo cobrar muito caro . Estão querendo cobrar R$ 5.000,00 e está mais caro do que pagávamos pela outra casa e esta nem é tão boa quanto a outra. (E2)

A4L6 - Quanto custa a outra casa? (P17)

A4L7 - Custa R$ 3.000,00. (E2)

E2 utilizou a primeira pessoa do plural (nós), para referir-se aos gestores e à equipe do CAPS, no entanto estava tendo que assumir sozinha no "aqui e agora" da reunião o peso do processo de negociações e de decisões, que não era algo encaminhado por ela, em particular. Esse "nós" queria dizer "eles", ou seja, gestores representantes da prefeitura. Era a prefeitura que estava fazendo a negociação, da qual a Instituição Matriz e a gerente do CAPS eram espectadoras. Para tornar mais crítica a nossa espera, resolveram negociar o aluguel da casa em questão, que já era um imóvel alugado pela prefeitura, no qual anteriormente havia funcionado a sede da polícia federal do município. Os negociadores da prefeitura cancelaram o contrato de locação da casa, pois consideraram que o aluguel estaria superestimado e tentaram a assinatura de um novo contrato, já com o aluguel corrigido para valores de mercado. No entanto, as negociações não foram bem sucedidas e, em função desta decisão político-financeira, o CAPS acabou não se mudando para essa casa.

A discussão dos custos de nosso aluguel representava, no plano emocional, os custos psíquicos que todos os envolvidos estavam pagando após os últimos acontecimentos. Essa idéia foi reforçada, em seguida, pela resposta delirante de P17.

A4L8 - Pode pegar meus milhões do banco que eu não quero nada. Fica com o dinheiro pra vocês. Eu faço cura pelo Evangelho. Não tenho poder de nada . Pode comprar a casa. (P17)

A frase sublinhada era a marca registrada deste paciente, assim como, seus delírios envolvendo dinheiro e poder de cura, eram muito freqüentes. Entretanto, a frase em destaque parece representar a angústia da instituição e do grupo na assembléia: não tínhamos poder de nada! E nisso não havia nada de delirante.

Em seu delírio, P17, podia sair da posição de impotência quase absoluta, para uma posição de sujeito, mais do que isso, para a posição daquele que tinha o dom de cura, do Deus salvador, que viria messianicamente nos salvar de nosso sofrimento e, resolver a situação da casa do CAPS. Do ponto de vista de P17, essa situação só se resolveria com dinheiro, poder e com a ajuda de Deus.

A fala seguinte de E2 foi ao encontro da angústia em questão.

A4L10 - Esta semana tem uma reunião na prefeitura com o departamento de urbanismo. Vamos negociar a casa, eles têm que nos dar o alvará . A reunião será pra discutir isto e para que eles tomem uma posição mais eficiente quanto à nossa situação . As ruas que temos autorização para funcionar são muito poucas . Ou na av. X (principal avenida do centro comercial da cidade) ou em lugares que não queremos ir . Temos que ver como eles podem nos favorecer com leis e acordos para que nossa instalação seja facilitada. (E2)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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