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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A3L75 (Repete a fala anterior) Quero ver o filho da mãe fazer tudinho! (P3)

A3L76- (se levanta e sai da sala) Vou tomar café pra deixar as pessoas com vontade. (P35)

Os pacientes P3 e P35 acabam reagindo de forma verbalmente agressiva, reeditando uma situação de rivalidade, um provoca o outro para ver quem pode mais. Esses diálogos representam a ruptura de pacientes e equipe, CAPS e gestores e dos próprios gestores entre si durante a assembléia: assim como o clima de desconfiança que pairava no ar. Ninguém da equipe interferiu na discussão dos dois.

P3 foi quem provocou. Como a equipe não intervém em apoio de P35, ele sai e vai resolver seu problema sozinho: o interesse coletivo não foi priorizado.

Em seguida, ocorreu uma nova interrupção. E28 entra na sala e chama E3 (pesquisadora) para atender a uma paciente em crise. Eu tive que deixar a reunião e o relato foi interrompido, antes que a assembléia terminasse. Crise do CAPS, crise da pesquisa.

Nesta etapa, foi o momento de maior dificuldade para manter viva a pesquisa, pois foi uma fase bastante caótica e a pesquisa se transformou em um elemento persecutório para a equipe, que se sentia muito ameaçada, pois aquela representava a quebra do pacto de silêncio do grupo. E, de alguma maneira, eventos foram ocorrendo de modo a me afastar do espaço das assembléias, o que funcionava como uma forma de manutenção desse pacto e me parece se tratar de um movimento do inconsciente grupal e não de uma mera coincidência. Essa quebra do pacto também poderia ter um significado positivo, como se estivessem atribuindo à pesquisa um espaço de nomeação do sofrimento, portanto de pensamento e que só poderia ocorrer fora daquele espaço, atribuindo à pesquisadora o lugar de quem poderia cuidar dessa questão grupal, já que não seria possível falar disso de outras formas.

Aprendendo com a experiência (Assembléia 4)

A assembléia inicia-se com uma apresentação dos presentes, dentre os quais, metade era de pacientes e metade de membros da equipe, o que os constituía em dois grupos homogêneos quanto à quantidade de representantes. O que isto indicava? Houve uma diminuição do número de pacientes participando das reuniões, se comparado ao número médio das assembléias anteriores e houve um aumento do número de participantes da equipe. Isso ocorreu, em parte, porque os membros da equipe (os impacientes) iam para a assembléia buscar informações atualizadas sobre a situação do CAPS naquela semana. Os pacientes também já não estavam tão pacientes, após trinta e oito dias de funcionamento do CAPS no centro de convivência da Instituição Matriz. De certa forma, para eles, a assembléia havia perdido seu objetivo, pois o provisório estava começando a figurar como definitivo, a desesperança era geral. Falar para quê? Se nada de bom ocorria, no intuito de modificar a nossa situação? As nossas palavras e promessas iam caindo no vazio (de tanto defender os interesses políticos, nos tornamos políticos profissionais, no sentido pejorativo do termo, e nos afastamos muito de nossa real função). O interesse político estava falando mais alto que os direitos e interesses humanos.

Este pode ser um indicador de uma semelhança entre os dois grupos, uma identificação: dois grupos que estavam em igual nível de desinformação, recebiam informações simultaneamente e vivenciavam à cada nova notícia, um semelhante impacto emocional. Da mesma forma, havíamos perdido a autonomia e como os pacientes, tínhamos que pedir para usar o telefone da instituição, pedir para usar o banheiro, pedir para ocupar as mesas do centro de convivência e implorar para manter o agendamento de algumas salas para que os grupos não fossem desmarcados. Pude sentir na pele, como os nossos pacientes se sentiam na vida.

A falta de condições minimamente adequadas de atendimento e o conseqüente desconforto geral apareceram logo no início da reunião, nos itens de pauta, através da fala e iniciativa de um paciente. Essa pauta não foi uma sugestão institucional, mas sim uma iniciativa dele.

A4L2 - Temos hoje dois assuntos: a casa e o posto de enfermagem que tá muito pequeno, não tem espaço pras coisas, nem pra gente ficar. (P30)

Esse foi o tema da assembléia que, pela primeira vez coincidiu com a pauta da reunião, graças ao protagonismo de P30, representante da parte sadia do grupo como um todo.

A4L3 - Eu queria falar da nova comissão de eventos, que não está funcionando bem. (E3)

Me surpreendi ao perceber (após redigir e ler muitas vezes os relatos dos grupos) o quanto a comissão de eventos foi citada nas assembléias. Geralmente era eu quem trazia esse assunto para discussão. Após pensar muito sobre isso, cheguei à conclusão de que estava tentando expressar uma angústia relacionada à co-missão, co-responsabilização pelos eventos que estávamos vivendo. Realmente esta co-missão não estava funcionando nada bem! A equipe não participava de grande parte das decisões administrativas, mas tinha que assumir tais decisões como próprias, por estar no contato direto com os pacientes (função de executores de tarefas, que se opunha à função administrativa de "planejamento": modelo taylorista), o que resultava em uma quebra do vínculo de confiança, além de ser uma agressão à ética e à nossa capacidade egóica, pois defendíamos aquilo em que não acreditávamos, dentro do processo de um grande "faz-de-conta".

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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