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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A falta de transporte, uma constante reivindicação da equipe do CAPS, representa a paralisação, a falta de autonomia e agilidade da equipe para resolver as situações-problema. O grande desafio do tratamento consistia em saber como defender os interesses da equipe e, principalmente, dos pacientes do CAPS naquele momento de crise. Os membros da equipe necessitavam resgatar o direito a ter um espaço digno para se instalarem, e recuperar a confiança na equipe, desejavam manter a esperança de dias melhores e de ter um lugar na sociedade.

A oportunidade de candidatar-se ao conselho diretor ou da criação de uma associação de usuários eram exemplos de oportunidades, ao menos em teoria, de voltar a participar dos espaços decisórios da instituição, de sair da paralisação. Uma oportunidade de voltar a dirigir as próprias vidas e a da Instituição Matriz.

Novamente volta-se a falar da falta de comunicação, pois, uma semana não é um tempo suficiente para planejar-se, ou preparar candidaturas: era o prazo do improviso, do fazer sem pensar, o que demonstra que ocorriam freqüentes acting outs administrativos.

A353 - Fui no médico, pediram exame e fiz lá na casa. Queria saber onde está meu exame? (P28)

O exame perdido é um símbolo da desorganização externa e interna das pessoas e do espaço físico. O exame é a comprovação concreta da saúde e da doença, sem ele, pairava uma sensação de que o exame da realidade não poderia ser feito. O exame poderia ser um representante da perda do tratamento ou da sanidade (capacidade de pensamento).

A3L56 - Os usuários querem falar como foi sábado? (E2)

A3L57 - Acho muito importante a participação. (P1)

Esse paciente era candidato à representante dos pacientes na reunião anterior e repete a fala anterior de E2, sem responder ao que lhe havia sido perguntado, mostrando que para ter chances na candidatura, tinha que falar a linguagem da instituição, o que mostra um processo de identificação dele com a equipe.

A3L58 - Isso tem que saber soltar, pois cada um que pega, rasga. (P3)

P3 acaba sendo o representante da desconfiança em relação à capacidade de tomada de decisão dos gestores, naquele período de crise. Necessitávamos que não nos abandonássemos ali, naquela situação e que lutassem pelas necessidades do grupo do CAPS.

Chegavam mais pessoas à assembléia. Não havia mais cadeiras nem espaço para todos ali, o que representava a encenação na reunião (reedição no "aqui e agora") da nossa situação na instituição. Não havia mais lugar para o CAPS ali (A3L59-63) . Em A3L67-70 ocorre o mesmo em relação à um passeio à Expoflora, para o qual havia cinco pacientes e apenas quatro vagas.

E7 sugere mudar os passeios agendados para que os pacientes pudessem participar da "assembléia de familiares". Foi cancelado algo planejado previamente com os pacientes, para colocar outra coisa no lugar, sem que se consultasse a opinião dos maiores interessados: os pacientes. O passeio foi substituído por uma atividade importante, mas de interesse institucional. Os pacientes (ou uma parte deles) poderia querer ir ao haras, ou ao cinema, citado a seguir, mas não puderam opinar.

E2 percebeu que os pacientes não foram consultados e pergunta se todos concordavam, mas ninguém respondeu.

A3L66 - Não gosto de filme da Xuxa, só dos Trapalhões. (P35)

Eu penso que a escolha dos filmes foi bastante peculiar e denota um momento regressivo do grupo de pacientes. No entanto, pode significar que P35 esteja dizendo à equipe que não gosta de ser tratado de forma infantilizada. E estaria mostrando as trapalhadas que gestores e equipe vinham fazendo.

Pela equipe teríamos tido um posicionamento mais agressivo no sentido de brigarmos pelos direitos dos pacientes, mas o posicionamento dos gestores foi de não criar escândalo, para que não se prejudicasse o resultado das eleições presidenciais.

A3L71- Não tem lugar pra fazer o café. (P20)

P20 repete a pauta, que ainda não havia sido colocada em discussão por E2, como uma forma de questionar o que faríamos naquele momento e, como negociaríamos a resolução de problemas imediatos como esse, que consistia em um assunto do interesse geral e do qual dependia a sobrevivência de nosso serviço.

A3L72 - Com R$ 27,00 bebemos café o mês todo. Me proponho a fazer o café, se trouxerem o material. Todos os dias às 10 h eu faço. (P35)

P35 coloca uma solução, já que ninguém sugeriu nenhuma saída para o problema do café.

A3L73 - Dou cinco quilos de pó e quero ver você fazer tudo isso de café. Se não fizer não sai de lá. (P3)

A3L74 - Proponho fazer grupo de café. (P35)

P35 ao propor resolver a questão do café, sugere uma ação prática para resolver uma situação do momento, algo que o grupo poderia fazer para aliviar a situação do "aqui e agora", que possibilitaria aliviar as necessidades e trazer algum prazer, ou restaurar uma rotina conhecida para ele.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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