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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Os pacientes buscavam saber se a nova mudança ocorreria logo ou se a casa estaria muito longe deles (o que poderia representar uma distância geográfica ou uma distância emocional, no sentido de busca de aceitação, do sentimento de pertença) e ainda, se não iríamos perder mais ninguém ou nos perder, outra vez (geográfica ou emocionalmente) em nossa próxima mudança.

Após receber de E2 a garantia de que cuidaríamos dessas preocupações, P30 questionou se eles poderiam comemorar de verdade, tendo uma festa de inauguração de verdade, dessa vez.

A3L37 - Vai ter festa de inauguração? (P30)

A3L38 - Vamos organizar tudo com vocês , assim que estiver certa a casa. Vamos fazer por partes e não sofrer por antecipação . Combinado? (E2)

A grande questão era a de que os pacientes não estavam sofrendo por antecipação, mas estavam sofrendo muito e tinham receio de sofrer mais uma vez. Essa colocação foi uma forma de negar ou minimizar a experiência recente do grupo. Passado, presente e futuro se confundem.

A3L39 - Isto tem que saber fazer, para depois não voltar. (P3)

O paciente P3 apontou o erro que ocorreu na primeira mudança e, verbalizou a angústia que estava presente de forma latente, nas falas dos pacientes, assim como nas inúmeras entradas e saídas das pessoas durante a reunião (comportamento não-verbal) e no silêncio dos profissionais que, até então, não haviam se pronunciado nenhuma vez.

A equipe assumiu uma postura de espectadora do processo. Estava identificada com a parte doente dos pacientes e de si mesma. Afinal de contas, equipe e pacientes estavam em crise, em iguais condições de desinformação e falta de autonomia, aguardando as decisões dos gestores da Instituição Matriz e da prefeitura sobre o destino do CAPS, que eram tomadas fora do espaço da assembléia e das reuniões de equipe.

E2 mudou de assunto, logo após a fala de P3 e introduziu a discussão sobre o segundo item de pauta: a "assembléia de familiares".

Fiquei bastante decepcionada e até surpresa, quando percebi que a "assembléia de familiares" à qual E2 se referia, não era a mesma que eu tinha em mente, o que talvez possa ter ocorrido com os demais participantes. E2 inicia sua fala buscando aliar-se aos pacientes que participaram da assembléia em questão. E2 provavelmente estava sob o impacto da colocação anterior (A3L39) e sentindo-se desamparada pela equipe e, pelos demais pacientes.

Poucos pacientes e funcionários (eu, inclusive) haviam sido informados de que ocorreria essa reunião com as famílias, o que denunciava uma falha na comunicação. Esta falha pode relacionar-se tanto com o objetivo da reunião de familiares, quanto com a falha (quebra) de comunicação: mudança de assunto, assim como com a falta de comunicação entre equipe e pacientes durante aquele encontro (pacto de silêncio).

Somente quatro pessoas (de um total de 46) presentes na assembléia haviam participado dessa reunião, cujo objetivo era discutir a mudança do conselho diretor da Instituição Matriz, para o qual havia candidatos representando diversos grupos na instituição, inclusive os pacientes. A proporção mencionada acima demonstrou uma imensa falta de comunicação.

Ocorreu uma interrupção na reunião, pois uma profissional do centro de convivência havia encontrado uns óculos perdidos e veio questionar se era de alguém do CAPS. E devolve os óculos para seu dono. Penso que este evento possa representar simbolicamente, a possibilidade da equipe poder voltar a enxergar nitidamente sua situação, de forma a poder intervir com sensatez. A perda dos óculos mostra também o quanto isto estava difícil naquele momento. A equipe não suportava se ver naquela situação.

E2 fez o pedido para que os pacientes convidassem suas famílias para a nova "roda" que ocorreria. Enfatiza a importância do conselho diretor para a Instituição Matriz e consequentemente, a importância da participação de todos na escolha de seus representantes no mesmo. Dependeria da composição do conselho diretor, o destino que a instituição tomaria. Na época, a prefeitura tinha intenção de mudar o superintendente da Instituição Matriz, dentre outras figuras de liderança, em conseqüência de estarem enfrentando disputas e conflitos político-ideológicos entre as principais lideranças das duas instituições. Essa rivalidade foi bastante agravada pela crise do CAPS.

Do ponto de vista simbólico, a mudança da direção da instituição, também era da maior relevância. E2 comentou a fala de uma família em especial, durante a reunião.

A3L46 - ... A presença no conselho diretor é de grande responsabilidade. Tinha uma família que trouxe com firmeza o quanto o tratamento de seu filho era prejudicado por falta de transporte. Esse é um exemplo do quanto é importante defender os interesses coletivos. Por isso foi feita uma proposta de ter uma associação de usuários e familiares... (E2)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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