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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Essa reunião é marcada por constantes entradas e saídas de pessoas. Um número grande de pessoas chegou atrasado e de certa forma, isso interferiu no curso das discussões, desviando a atenção dos presentes, o que resultou em um clima de confusão e desorganização. Essas interrupções ocorreram em A3L11, A3L24, A3L32, A3L35, A3L43, A3L45, A3L52, A3L59, A3L62, A3L76 e A3L77.

O que queriam dizer com esse comportamento não verbal? Pareceu-me ser um acting out para expressar através da ação como estavam nossas condições de trabalho e nossas entradas e saídas da instituição.

É retomada a discussão de uma nova casa (casa 2), que estava localizada em uma área central e comercial - o que havia se tornado o novo critério da equipe para a seleção da nova casa, que diferia em muito dos critérios anteriormente utilizados.

A3L14 - Tem vizinhos? (P20)

Aparece a preocupação dos pacientes de que pudessem ocorrer novos conflitos com a vizinhança, como na casa 1 e esse se constitui em mais um critério seletivo.

Essa frase expressa no plano latente a angústia dos pacientes de que, a partir daquele momento, teriam que viver ainda mais isolados, pois não se sentiam aceitos fora da instituição e dentro dela, não tinham mais lugar.

É dito que a mudança estava dependendo da aprovação da prefeitura e da promulgação de uma nova lei, que regulamentaria o funcionamento dos CAPS no município. Havia grandes chances de o CAPS ser montado naquela nova casa (casa 2).

Na passagem de A3L18-21 ocorreu uma descrição do novo imóvel, que foi caracterizado como "uma casa razoável".

A3L19 - Não está muito ruim, mas precisa de uma pintura e não tem a nossa cara. Mas podemos deixá-la com a nossa cara. (E2)

Essa afirmação mostra o sentimento latente de urgência que a equipe vivenciava, propõe acomodações de modo que qualquer casa serviria para ser sede do novo CAPS, naquele momento, o que se justificava devido à gravidade de nossa situação na Instituição Matriz, de tal precariedade, que exigia que encontrássemos um local rapidamente.

E2 se contradiz logo em seguida, quanto ao que havia acabado de dizer.

A1L19 - ... Estamos cuidando para que a mudança se dê de forma bastante cuidadosa. (E2)

A3L20 - É como aquela que estávamos? (P5)

A3L21 - A parte do jardim é difícil achar como naquela casa, mas tem boas salas e tem quintal para circulação. (E2)

A paciente P5 buscou um referencial conhecido, o da casa 1 para tentar entender o que E2 tentava dizer e perguntou se a casa era parecida com a primeira, que era muito boa. E2 respondeu que não e que, com esta mudança perderíamos o jardim. Ao invés dele na nova casa, teríamos um quintal para circulação.

Esta seria a marca daquele momento que o pacto tentava encobrir: havíamos perdido o nosso jardim concreto e simbólico. Nos restava um quintal frio para circulação, termo utilizado comumente para os pátios dos manicômios, nos quais os pacientes andavam em círculos.

Os pacientes começaram a questionar a localização e o acesso à casa e E2 sugere que esses aspectos fossem discutidos somente quando a mudança se tornasse concreta.

A nova casa ficaria próxima à uma avenida bastante movimentada, o que consistia em um dos temores dos pacientes quando discutiram, no início do processo, seus medos.

Teríamos que aguardar o aval da prefeitura, enquanto isso...

A3L29- E o café? Ficamos aqui sem café. (P20)

Os pacientes começam a listar algumas das perdas que tiveram com o retorno à Instituição Matriz e surge a situação do lacre judicial da casa anterior, que representou a quebra do pacto de silêncio por parte dos pacientes.

A3L30 - E as mesas que estavam na outra casa. Poderemos pegar? (P30)

A3L31 - ... Ela está impedida de funcionar, mas podemos pegar tudo o que é nosso. (E2)

Assim que é verbalizado o contexto no qual saímos da casa 1, ou seja, a proibição judicial de nossa permanência, assim como a nossa saída às pressas sem levar nada, os pacientes começaram a expressar seus receios quanto à nossa próxima mudança. Buscavam garantias de que não ocorreriam novas perdas, principalmente porque, nesse momento, não se referiam só a perdas materiais (que E2 garantiu que não iriam ocorrer, pois pegaríamos todos os nossos pertences), mas a perdas de ordem emocional. Estas haviam ocorrido de forma irreparável e deixado marcas profundas em todos. No nosso mundo interno, havíamos deixado nosso jardim lá e não poderíamos pegá-lo de volta no caminhão de mudanças.

A3L33 - Se a casa fosse no bairro T ia ficar muito longe. (P30)

A3L34 - Quando formos mudar para a casa, todo mundo vai junto? Vão nos ensinar a ir? (P31)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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