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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A Instituição Matriz assumiu a responsabilidade pelos problemas com a escolha da casa, visando proteger a imagem da prefeitura em um ano eleitoral.

Após diversas batalhas judiciais, nas quais várias liminares impedindo o CAPS de funcionar foram expedidas e por nós contestadas - ainda que por prazos curtos, o que nos dava um prazo a mais para funcionar lá - o CAPS foi lacrado em 26 de julho de 2002. Nessa data deixamos a casa e retornamos com os pacientes para a Instituição Matriz. Cinco dias depois, o CAPS foi deslacrado por um período de quinze dias e recebemos autorização para pegar nossos móveis e pertences em geral. No entanto, não retornamos mais para a casa, uma vez que a decisão da Instituição Matriz foi a de evitar escândalos maiores.

Retornamos para a instituição que, já não tinha mais espaço para nós e, passamos novamente, a funcionar de forma improvisada. A equipe do centro de convivência se prontificou a dividir o seu espaço com o CAPS e a unidade de internação nos emprestou o espaço de nosso antigo posto de enfermagem, para que este pudesse voltar a funcionar lá. Permaneceríamos no Centro de Convivência até conseguirmos outra casa para alugar.

Eu estava trabalhando no dia em que a casa foi lacrada. Fomos tratados como infratores da lei pelos oficiais de justiça. Foi uma situação humilhante, um momento terrível. Não sabia a quem acudir primeiro, pois tanto os membros da equipe, quanto os pacientes, estavam passando mal. Muitas pessoas da equipe não resistiram à pressão e choraram. Não pudemos pegar praticamente nada que nos pertencia, saímos de mãos vazias, deixando tudo para trás. Novamente vivenciava uma expulsão e, o que é pior, uma punição por descumprir uma lei municipal. O pacto de silêncio feito entre a Instituição Matriz e a prefeitura, tornou a situação ainda mais angustiante, pois voltamos para a instituição, como fantasmas e, depois disso, a nossa situação desapareceu dos jornais e nada mais era comentado sobre o assunto.

Aprendendo com a experiência (Assembléia 3)

A assembléia 3 - assim como a 4 - ocorreram na Instituição Matriz, em uma sala emprestada dentro das dependências do Centro de Convivência. Participaram desse encontro quarenta e uma pessoas, sendo 19 profissionais e vinte e dois pacientes.

A3L1- Não vamos falar de casa, só falamos disso. (P20)

A assembléia se inicia com um convite para que se fizesse um pacto de silêncio, em torno da questão-problema: a casa. Esse foi um convite para que não se falasse da dor provocada pelos últimos acontecimentos e consistiu no tema da reunião. De certa forma P20, a porta-voz, encenou no "aqui e agora" da assembléia o pacto que também ocorria na equipe/gestores e era o fenômeno que predominava nas reuniões que fazíamos no período.

P20 ao salientar o quanto esse assunto era falado naquele período, ressaltou o quanto aquele aspecto da mudança tomou proporções de destaque, no processo de mudanças mais amplo.

Essa assembléia foi coordenada por E2, que propôs dois temas para a pauta: casa e "assembléia de familiares".

A questão da casa fica nebulosa. De qual casa ela estava falando (casa 1 ou outra casa)? O mesmo ocorreu com a pauta da "assembléia de familiares", eu, por exemplo, tinha certeza de que ela se referia a um encontro com as famílias dos pacientes para discutir o problema da casa do CAPS, o que não se confirmou mais tarde. As colocações continuaram da seguinte forma:

A3L3- Faz tempo que não venho. (P29)

Não venho aqui na assembléia? Não venho à Instituição Matriz? Não freqüento o tratamento? No caso desse paciente todas essas alternativas eram possíveis e penso estar dizendo que retornou , após um período de afastamento, nesses três níveis.

A assembléia estava vazia e E2 optou por aguardar a chegada de um maior número de pessoas para continuar a reunião. Enquanto esperávamos, informalmente os pacientes perguntaram como se organizaria o tratamento a partir daquele momento. Esse também foi o tema do encontro.

O paciente P20 faz um elogio à forma como E2 estava vestida, após ela ter informado que a pauta da reunião incluía, o item do qual ele não queria falar: a casa. Comportamento sedutor? Tenta uma aliança? Sente-se perseguido?

Em seguida, quando E2 indaga se mais alguém tem algum tema, P20 coloca que gostaria de falar da falta de uma cozinha para tomar café. Traz um problema de nossa rotina naquele momento ("aqui e agora") na Instituição Matriz: falta de espaço.

A3L8 - Queria falar da cozinha. Aqui não tem cozinha para tomar café. (P20)

A assembléia é oficialmente iniciada, com uma apresentação dos presentes.

A3L10 - Vou falar da nossa casa. Um grupo ficou responsável por procurar novos imóveis. (E2)

A casa era, em teoria, nossa ("como se" fosse nossa), mas um grupo estava responsável por procurá-la. Que grupo era esse? Não era composto por nenhum dos participantes, o que é, no mínimo estranho. Portanto, a casa não era mais nossa... Estávamos imobilizados, dependendo de um outro (perseguidor interno). Assim como, a procura por uma nova casa foi uma decisão dos gestores e da equipe (da qual os pacientes não participaram) e essa decisão havia sido tomada com o intuito de "proteger" os pacientes de novos confrontos com os vizinhos da casa 1 e principalmente, evitar mais escândalos políticos.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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