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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A Prefeita anunciou que não compareceria à inauguração, pois não podia comprometer sua imagem, nem vincular o nome da prefeitura àquela situação politicamente desfavorável. A imprensa havia sido mobilizada pelos vizinhos e o telejornal do meio dia apresentou uma reportagem com os vizinhos denunciando a situação irregular do CAPS.

Os profissionais corriam de um lado à outro da casa, tentando conseguir informações através do advogado da Instituição Matriz e, fazer outras consultas jurídicas. Tentávamos planejar estratégias de enfrentamento da crise, que se instalou em todos.

Todas as orientações vindas da prefeitura determinavam medidas preventivas, visando diminuir a gravidade do escândalo e de sua repercussão negativa, o que era inevitável. Sugeriam que a festa fosse suspensa, que os convidados que pudessem ser avisados, até o horário marcado para a solenidade oficial, fossem informados do cancelamento do evento. As instituições de saúde receberam o aviso para que não trouxessem seus pacientes, o coral e grupo de teatro foram cancelados e o buffet foi avisado de que o pedido seria possivelmente suspenso. Enquanto isso, os pacientes do CAPS continuavam a chegar para a festa.

A equipe estava reunida tentando entender o que havia ocorrido, tentando assimilar os novos fatos e decidir o que fazer. A sensação de revolta e perplexidade era geral e não adiantava procurar culpados, pois o erro já havia sido cometido e não haveria como voltar atrás. O mais grave foi nos vermos sozinhos e obrigados a dar a notícia aos pacientes: não teríamos o apoio da prefeitura. Na verdade, naquele momento, não havia lugar para a nossa dor, para o nosso desespero ou para a nossa crise. Nós, os "homens e mulheres máquinas", ironicamente chamados de profissionais de saúde, teríamos de engolir a dor e seguir em frente com nossa tarefa de "cuidar" dos outros. E começamos a pensar: o que fazer da festa?

As horas iam passando e todos os pacientes do CAPS já estavam na casa, muitos acompanhados de familiares e amigos, aguardando por nós, mas principalmente, pela prefeita e pelo momento de comemorar a casa nova.

Optamos, mesmo sem estarmos em clima de festa, por "festejar" entre nós, os pacientes e poucos convidados de fora, que por ventura, comparecessem à casa. Essa escolha representava uma tentativa de fazer o luto pelo sonho não realizado. Explicamos a situação aos pacientes e demais pessoas presentes. Os discursos de festividade se transformaram em discursos políticos, de militância sobre a reabilitação e sobre a incompreensão social da burguesia. Algumas pessoas, bem poucas, dentre as que discursaram, puderam falar da dor e esses poucos discursos foram, os que nos emocionaram, por tocarem diretamente o coração de todos. Esses foram os discursos realizados por pacientes, familiares e por uma ex-funcionária da Instituição Matriz, que estava presente, na condição de acompanhante de um paciente novo, recém admitido no CAPS que, era morador da região da nova casa. A sensação de decepção era geral.

Durante aquela noite, o secretário da saúde deu uma entrevista ao telejornal das sete horas reconhecendo que houve um erro, mas não deixou claro de quem era a responsabilidade pelo problema. Ele, no entanto, assumiu o compromisso público de que o CAPS deixaria de funcionar naquela região, dentro de um curto período de tempo. Ele havia comparecido à festa de inauguração e não tinha se posicionado de forma tão objetiva e conclusiva naquele momento, embora essa posição estivesse implícita em sua fala. Usou o termo - amadorismo - para descrever a forma como os profissionais das duas instituições conduziram a mudança de casa.

Nos dias e semanas subseqüentes acompanhávamos pela imprensa escrita e pela televisão como estavam as negociações sobre nosso destino. As informações chegavam mais rapidamente à imprensa do que à equipe e, consequentemente, à maior parte dos pacientes.

Recebemos o apoio de políticos e de diversos serviços de saúde, mas novamente perdemos a autonomia e nossa capacidade de planejamento. O nosso futuro estava nas mãos da justiça e da estratégia da prefeitura.

Percebemos, tarde demais, que tínhamos caído no meio do campo de uma batalha, que dividia aquele bairro em dois, muito antes de nossa chegada. Um grupo de moradores era à favor de que o bairro passasse a ser comercial e outro grupo lutava para manter o bairro como estritamente residencial. Foram feitas reuniões, com ambos os grupos de representantes dos moradores do bairro para discutir nossa permanência no local e buscar algumas alianças.

O preconceito dos vizinhos ficou mascarado pelo problema da nossa situação irregular no bairro, em função da lei de zoneamento. Dessa forma, era muito difícil abordar os conteúdos implícitos à mobilização que ocorreu no bairro. Na rua em que o CAPS se instalou funcionavam até aquele momento, inúmeros imóveis utilizados como consultórios médicos e escritórios de advocacia, que não enfrentaram a mesma fúria da vizinhança, embora funcionassem ilegalmente para fins comerciais.

Alguns vizinhos foram criando situações de intimidação e de invasão de privacidade, cada vez mais graves. Filmavam e fotografavam, diariamente, os pacientes e nossas atividades. Houve uma situação em que o nosso vizinho advogado saiu com um taco de Beisebol nas mãos, para filmar de perto nossos pacientes, provavelmente esperando uma reação agressiva dos mesmos, que pudesse ser documentada em vídeo e utilizada na justiça como evidência de que não poderíamos permanecer ali. No entanto, em quase três meses nos quais ficamos na casa, convivendo com esse tipo de atitude hostil e sob forte estresse, não houve nenhum tipo de reação agressiva por parte dos pacientes, no contato direto com algum vizinho. Esse foi mais um fato que demonstrou como o limite entre normal e patológico é tênue. Nesse caso, a ameaça não vinha dos pacientes do CAPS, mas sim, surgia de forma disfarçada e com amparo legal.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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