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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A2L107 - Terminando os atendimentos vocês estão dispensados por hoje. (E2)

A dispensa de pacientes podia ter mais de um sentido, além da ação de dispensar. Naquele momento a Instituição Matriz, o HD e o CAPS, tinham se transformado em uma grande despensa, depósito de pacientes, uma vez que, sempre que não há condições minimamente adequadas de tratamento, ocorre o retorno a um funcionamento manicomial.

O fato de uma alteração importante de rotina do serviço, como a dispensa de atividades, ter sido anunciada no final do encontro e não no início, como sugerem os autores e profissionais que trabalham com atendimentos individuais e grupais, representou um acting out da equipe. Esse deveria ter sido, mesmo que a Assembléia não se constitua em um grupo terapêutico, no mínimo, um informe, que deveria ser dado no início da reunião, o que não ocorreu porque a equipe se recusou a acrescentar mais esse ponto negativo para a discussão que já estava bastante tensa, em meio a tantos problemas. Esse comportamento refletiu toda a dinâmica da assembléia 2, na qual não houve espaço para a reflexão conjunta.

A assembléia terminou com uma fala de P17, igual a uma das falas do início do grupo (A2L6). Apontou que não ocorreu transformação nele, do início para o final do encontro, o que representou que este não teve efeito terapêutico. Os pacientes saíram do grupo sentindo-se ainda mais impotentes e solitários, com uma baixa auto-estima (expressa por P4). O grupo funcionou repleto de pensamentos sem pensadores, como diria Bion.

A1L110 - Eu não sei fazer o que a E3 está fazendo (estava redigindo a assembléia). (P17)

Essa fala apontou para a pesquisa, que seria o espaço no qual seria possível pensar sobre a nossa experiência. E penso para uma sensação de falta de identidade dos pacientes, se considerarmos, que minha condição diferenciada, me atribuía uma identidade. E os pacientes, naquele contexto em que o CAPS não podia ser local de tratamento, tinham até a própria identidade de paciente ameaçada, restando somente um vazio, uma condição de "coisa" ou de "objeto".

3.) ASSEMBLÉIAS 3 e 4

Descrição do contexto institucional

Rapidamente nosso sonho transformou-se em um novo pesadelo! Poucos dias após o início do funcionamento das atividades do CAPS na nova casa, começamos a perceber que não éramos bem vindos por alguns de nossos vizinhos. Os vizinhos de duas casas próximas ao CAPS começaram a se organizar, na tentativa de conseguir novos adeptos na vizinhança, com o firme propósito de não permitir a permanência de uma clínica psiquiátrica (forma como se referiam a nós) ao lado de suas casas.

Inicialmente, a vizinha da frente interpelou alguns profissionais na rua, no momento em que chegavam para o trabalho e de forma bastante rude, ameaçou-os, dizendo que riscaria os carros que estacionassem em frente à sua casa. Passamos a tomar cuidados e apesar de considerarmos o "pedido" hostil, o respeitamos. Até então, não fazíamos idéia do tamanho da briga que teríamos pela frente.

Observávamos uma movimentação estranha de pessoas nos observando e fazendo pequenas reuniões, na casa desses nossos vizinhos, os quais, se tratavam, respectivamente, de um famoso neurologista da cidade e de um advogado. Alguns deles vinham conversar e expressar seus incômodos em relação à nossa presença, outros ficavam só nos observando à distância.Começamos a perceber que precisaríamos "cuidar" de nossas relações com a vizinhança. Em função disso, enviamos convites por escrito, chamando os vizinhos para a festa de inauguração oficial, sem prever o que nos esperava.

No dia da festa de inauguração, recebemos um comunicado judicial de que os vizinhos haviam entrado na justiça contra a abertura do CAPS naquele bairro, argumentando se tratar de um bairro estritamente residencial. Os vizinhos estavam juridicamente respaldados pela lei de zoneamento urbano, que regulamenta o uso do solo.

Nós tínhamos nos instalado em uma rua residencial, estávamos irregulares perante a lei, e a partir daí criou-se um impasse. O que fazer? Quais eram nossas alternativas legais para contra-argumentar? Tentamos nos defender na justiça, alegando que instituições públicas poderiam funcionar em qualquer espaço. A gerência do CAPS havia feito uma consulta apenas verbal ao departamento de urbanismo da prefeitura, antes da nossa mudança, e recebeu uma autorização, também verbal, que permitia a instalação do CAPS naquele local. A prefeitura não queria, por sua vez, ficar impopular diante dos moradores daquele bairro, pois poderia perder votos, uma vez que, a eleição para presidente da república ocorreria em alguns meses. Sugeriram o cancelamento da festa de inauguração.

Enquanto isto, os pacientes iam chegando ao CAPS, acompanhados de suas famílias. Estavam todos extremamente arrumados e com expressões de felicidade nos rostos. A equipe, por sua vez estava arrasada, sem saber o que fazer . Os profissionais da prefeitura responsáveis pela assessoria de saúde mental que implementou as mudanças, em conjunto com a gerência e profissionais do CAPS, estavam presentes e traziam o posicionamento oficial da prefeitura.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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