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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A2L64 - Precisamos de mais cinzeiros. Quem sabe fazer? (E2)

Ninguém respondeu.

A2L65 - Precisamos fazer uma campanha na igreja para parar de fumar. (P25)

O tratamento foi colocado fora dali, na igreja, em Deus, já que só poderiam ser salvos da angústia através de uma saída mágica, divina. E a guerra continuava, aumentando a persecutoriedade e a frustração de todos.

A2L66 - Vocês têm ajudado a limpar a comida do almoço? (E2)

A equipe pede ajuda dos pacientes na resolução dos problemas, pois a sensação de sujeira interna era muito grande e a equipe não estava conseguindo administrar tantos problemas.

A2L67 - Hoje faltou colher. (P23)

A2L68 - Não veio? (E2)

A2L69 - Chegou só agora, mas E17 avisou que até sexta-feira não vai ter mais que isso. Vai ter que usar e reaproveitar. (E18)

A2L70 - Eu já mandei comprar talheres, mas acho que não chegou. E os banheiros? (E2)

Transparece uma necessidade da equipe de garantir que as coisas melhorariam e de demonstrar a eficiência através da expressão de poder, da autonomia para fazer as compras e organizar os espaços, negando as perdas do momento presente. As compras chegariam, mas naquele momento imperava a falta.

A2L71 - O dos homens tá entupido. (E12)

Neste encontro E12 não conseguiu exercer a função paterna (como fez na assembléia 1), estava impedido, tanto quanto o banheiro masculino.

A2L72 - O das mulheres também entupiu porque jogaram papel no vaso sanitário. (E18)

A função materna, do acolhimento (rêverie) também estava impedida.

Os pacientes começavam a atacar os espaços da casa (banheiros) e os espaços de convivência (som alto). Chamavam a atenção da equipe, para suas necessidades, nem que a atenção viesse em forma de bronca, era melhor do que a sensação de vazio, de invisibilidade, provocada pela perda de identidade. A equipe estava ocupada cuidando da casa e se esquecia dos pacientes.

A2L73 - Assim a estrutura não agüenta . Se jogar papel no vaso vai entupir sempre. Não pode jogar papel no vaso. Tem lixo? (E2)

A2L74 - Tem. (P4)

A equipe desabafa: fala não só de uma estrutura concreta da casa, mas da estrutura emocional de todos ali. Estava sendo impossível digerir emocionalmente tantas faltas, queixas, críticas e hostilidades. P4 afirmou que lixo não faltava. Seria outra ironia?

A2L75 - As pessoas têm colocado o som alto demais. (P21)

A2L76 - Nós temos problemas mentais, mas não somos surdos ! (P25)

Esta fala pode ser compreendida de várias maneiras: uma brincadeira entre os pacientes (defesa maníaca), uma indicação para que a equipe pudesse ver que eles não tinham só limitações, ou ainda, uma parte da guerra de pacientes versus equipe. Eles estariam interpretando o comportamento da equipe durante a assembléia, e referiam-se a uma equipe que estava surda para o sofrimento deles. Eles poderiam estar dizendo saber ouvir o que estaria por trás da fala da equipe, ouviam por exemplo, que estavam perdendo o espaço de participar das decisões.

Os pacientes pareciam, por sua vez, cuidar de nós em vários momentos, estabelecendo uma troca de papéis, o que demonstra o quanto o limiar entre normal e patológico é muito tênue.

A2L77 - Mandei comprar sofá, cadeiras e mesas para o almoço, pois ainda não tem lugar para todo mundo . (E2)

A falta de espaço concreto e mental, de lugar mental apareceu verbalizada na fala da equipe, pela primeira vez, de forma manifesta.

A2L78 - Vai ter médico de noite? Acho que tem que ter. (P22)

A2L79 - Precisa ter sim! (P26)

Começam a aparecer críticas ao modelo de saúde mental do município, que não incluía psiquiatra vinte e quatro horas nos CAPS.

A2L80 - Não tem nem cama... (P18)

A2L81 - Nenhum CAPS terá médico à noite. No dia catorze virão as camas para cá e no dia seguinte começaremos a fazer o leito-noite aqui. (E2)

A2L82 - Então isso quer dizer que só podemos surtar de dia! Meu Deus! (P25)

A2L83 - Se precisar de médico, será o plantonista da Instituição Matriz que atenderá. (E12)

Começam a aparecer as incongruências do modelo mais amplo, dentre as quais a equipe do CAPS concordava inteiramente com seus pacientes, mas ela não tinha autonomia para encaminhar a questão de outra forma.

Ocorreu um silêncio após esse momento, que havia despertado na equipe a sensação de impotência e, nos pacientes, provavelmente a sensação de insegurança, que se confirmada a seguir.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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