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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A2L46 - Estressou tanto assim? (E2)

A2L47 -Estamos cabreiros com a Copa do Mundo, não acreditamos mais no Brasil! (P4)

P4 nomeou o sentimento de desconfiança e descrédito que os pacientes vivenciavam em relação ao processo de mudanças e consequentemente, em relação à equipe e aos gestores do processo. Entretanto, ele o fez de forma disfarçada, pois temia provavelmente alguma retaliação por parte da equipe.

A2L48 - Ainda somos da Instituição Matriz ? (P10)

P10 por sua vez, funcionou como porta-voz dos pacientes, ao conseguir verbalizar a angústia que era a causadora do sofrimento: a perda de identidade provocada pela mudança. Seu sentimento de solidão ficou mais claro nesse trecho, pois ela se sentia órfã, sem pátria como P4. Isso nos remete à assembléia 1, na qual a mudança era comparada à perda do casal parental, que aqui fica representado como HD (função materna) e Instituição Matriz (função paterna).

A2L51 - Onde pego o meu remédio? (P18)

Um dos pacientes tenta se organizar no novo espaço, construir uma nova identidade, para preencher o vazio que sentia. Tenta, também, mostrar o caminho que a equipe precisava fazer para ajudá-los nisto: a equipe precisava recuperar sua capacidade interna de cuidar e a missão do serviço.

A2L52 - Aqui.Vocês estão pegando aqui? Tem coisas acontecendo aqui e lá na Instituição Matriz. (E2)

A confusão geral aparece claramente nessa fala, pois, na verdade, o tratamento estava fragmentado em dois locais, o que criava um estado de "faz de conta", pois o HD havia acabado, mas o CAPS ainda não existia concretamente: caracterizava-se um estado transicional . O que existia era um embrião de um CAPS querendo se formar.

A2L53 - Os pacientes de E15 vão pegar os remédios aqui hoje. As receitas já estão prontas. (E14)

E14 deu um dado de realidade, que aliviou ao menos uma parte dos pacientes, aqueles que seriam cuidados.

A2L54 - Acho aqui melhor do que lá! (P22)

A2L55 - Apesar de ser mais longe, prefere aqui? (E2)

P21 tentou cuidar de E2. Iniciou-se um período de negação maníaca, pois desvalorizando a instituição matriz, a perda pareceria menor. O uso de defesas maníacas continuou, através de uma tentativa de sedução.

A2L56 - Quem ainda não conheceu a piscina? (E16)

Vários pacientes levantam a mão.

A2L57 - Podemos organizar um grupo para conhecer depois da assembléia. (E16)

A piscina, o bom, ficava fechada por precaução (para evitar acidentes com pacientes que não sabiam nadar), já que se localizava em uma parte separada da casa. Organizar um grupo para ir até lá é algo que lembra uma burocratização da tarefa. Algo que transformaria uma simples "olhadela" em parte do tratamento, com status de grupo. Um outro "faz de conta"!

A2L58 - Onde está E10? (Ela havia saído da sala e fala da porta, se aproximando do grupo). (P10)

P10 procurou uma referência conhecida, alguém com quem tinha forte vínculo, para acalmar sua angústia. Dessa vez, citou o nome do profissional, já que, ao pedir auxílio se referindo à categoria profissional e função da equipe (tratamento), não havia sido atendida.

A2L59 - Está aqui na assembléia. Você é que está fora e por isso não tá vendo ele.(Pausa) . E como estão os acordos para cuidarmos da casa? (E2)

Foi feito um apontamento com base no "aqui e agora", mas este teve um tom superegóico, agressivo. Estaria P10 fora do "faz de conta"? Queria saber se concretamente receberia ajuda de quem confiava.

A reunião continuou com a introdução de regras, que excluiriam quem não as cumprisse.

A2L60 - Ficam fumando dentro da casa. (P23)

A2L61-Como faremos para não jogarmos cinza no tapete? (E2)

Havia um paciente -P24- fumando na sala e é convidado a se retirar para fumar lá fora.

A2L62 - Combinamos que não era para fumar aqui dentro. Já vieram os cinzeiros? (E2)

A2L63 - Só os pequenos. (E14)

A reunião virou um espaço persecutório, onde todos foram colocados como "descumpridores da lei". As falhas dos pacientes e as falhas do CAPS foram sendo enumeradas, o que estabeleceu um clima de guerra entre equipe e pacientes. Surgiu uma indiferenciação emocional entre os dois grupos. A equipe passou a imitar o comportamento dos pacientes, cobrando-os e apontando suas falhas: saíam da reunião, fumavam dentro de casa, jogavam cinzas no chão, derrubavam comida... Os pacientes retrucavam apontando as falhas do CAPS (equipe).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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