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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Este trecho da reunião demonstrou porque estava tão difícil encontrar alguém para co-ordenar a reunião, ninguém queria ocupar essa função difícil, todos estavam sob forte impacto emocional e os problemas eram muitos. E2 teve que assumir esse papel, para permitir que tivesse continuidade, mas ela, naquele momento, era uma representante do grupo de profissionais, os quais não conseguiam ouvir as queixas. Havia um desejo latente em relação a nossa mudança, de que a casa bonita fosse nos salvar da confusão, do sofrimento, mas isso não ocorreu.

Não foi possível sequer explicar o motivo real dos problemas (racionalização), já que a casa estava sem água, luz (em alguns cômodos), sem campainha, dentre outras coisas, que serão citadas durante o encontro (e esse era o motivo pelo qual o CAPS estava sendo fechado antes do horário normal). A negação foi o mecanismo de defesa mais usado, até então.

Na ação sublinhada, os pacientes protestaram, através de um acting out , para dizer da perda de credibilidade e de função da assembléia, já que o que diziam não era escutado.

A2L25 - A manutenção está trabalhando. Como está a comida? A água está funcionando bem? (E2)

A2L26 - Ainda estou meio perdida. Gostaria que alguém nos levasse para atravessar a pista. Uma enfermeira , alguém. Sozinha eu tenho medo , quase não saio de casa. (P10)

P10 conseguiu pedir ajuda e verbalizar seu sentimento de confusão mental, de solidão e medo. Pediu claramente para que a equipe a auxiliasse, ou seja, cumprisse sua função.

A2L27 - Não é perigoso não, é só ir por baixo do viaduto. (P21)

Quem primeiro foi em seu auxílio foi uma paciente, P21, que fez uma racionalização, tentando se proteger da confusão mental expressa por P10. A equipe não estava conseguindo dar conta de tanta angústia e confusão e não respondeu ao pedido de P10.

A2L28 - Ficou mais perto vir para cá? (E2)

A porta-voz da equipe buscou o argumento positivo que o grupo utilizava para defender a mudança, buscando ouvir algo bom dos pacientes.

A2L29 - Sim, ficou. A distância para a gente andar é menor. (P10)

P10 que havia pedido ajuda anteriormente ressalta que realmente, para ela, o problema não era a distância concreta, mas a distância emocional em relação à equipe (se sentia sozinha).

A2L30 - Ficou mais longe. (P22)

A2L31 - Ah, mas é que você mora lá do lado da Instituição Matriz , né?! (E2)

Silêncio.

Ao ouvir mais uma queixa de P22, a porta-voz da equipe racionaliza e minimiza o incômodo trazido pela fala da paciente, por não conseguir suportar a angústia que era expressa. E2 devia estar se sentindo extremamente pressionada para mostrar resultados positivos e com muitos problemas a resolver. Devia estar se cobrando muito e se sentindo tão sozinha e desamparada naquela função, quanto os pacientes. Inclusive porque a equipe não a auxiliava nessa tarefa difícil.

A2L33 - Como está a comida? E o remédio? (E2)

A2L34 - Tá dando certo. (P20)

Provavelmente P20 captou o desejo da equipe e respondeu o que queríamos ouvir, uma vez que, na seqüência, são relatados problemas com o remédio e com a comida.

A2L35 - E a nossa festa de inauguração, ninguém quer saber ? Será no dia catorze. (E2)

A2L36 - Porque não pode ser nesta terça-feira? (dia seguinte) (P10)

A2L37 - É que temos que convidar várias pessoas: a prefeita, o secretário da saúde. Vai ser a partir das 14 h. Estamos vendo a comida para servir na festa. Vai vir um grupo de teatro se apresentar aqui... (E2)

Este trecho demonstrou que a assembléia tinha se tornado um espaço de transmissão de informações, caracterizada pela transparência do modelo de gestão, no entanto havia sido esvaziado seu espaço original de co-gestão do cotidiano, já que as decisões vinham prontas e o grupo não tinha autonomia para tomar decisões importantes.

A festa teria também um caráter solene, de inauguração oficial, além de ser uma comemoração para os pacientes. Eles tentaram sugerir mudanças no dia da festa, mas quase tudo já estava organizado.

A2L44 - Vocês estão tão quietos, o que houve? (E2)

E2 fez um apontamento baseado em sua percepção real do "aqui e agora" da reunião, o que abriu possibilidades para que a dinâmica anterior se modificasse e os pacientes começassem a expressar seus temores livremente.

A2L45 - É a mudança, tá todo mundo tentando se acostumar. (P21)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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