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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A2L5 - Ah, agora entendi. Silêncio. (P15)

Esse diálogo inicial mostra que a confusão era interna, pois a mudança de local de funcionamento (já que a mudança de nome só ocorreria com a inauguração oficial) provocou uma perda temporária da identidade do serviço, no mundo interno dos pacientes. O que é "esse tal de CAPS"? É uma escola?

Este é o tema da assembléia 2: a perda de identidade - "O que é esse tal de CAPS? -

O fato de eu estar redigindo a assembléia chamou a atenção dos pacientes, que se dirigiam à mim para falar o que sentiam e P16 me fez um pedido:

A1L6 - Sabe escrever, então reza para nós. O Pai Nosso ! (P16)

O ato de escrever me diferenciava dos demais e me dava uma identidade: era aquela que sabia fazer algo, então poderia rezar para eles. Se eles estavam precisando da ajuda de Deus, era porque a angústia deveria estar muito intensa. A oração grifada indicava que inconscientemente, P16 percebia uma falta de função paterna na casa e podia estar me pedindo para cumprir essa função, que poderia ser tanto de um pai que coloca limites, quanto do pai protetor.

A própria oração é muito rica em significação e pode falar por si mesma:

"Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, que seja feita a vossa vontade, aqui na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação. Mas livrai-nos do mal. Amém!".

A1L7 - Eu estou escrevendo o que falamos na assembléia. (E3)

A1L8 - É bom ter leitoa aqui. Quero leitoa. (P17)

A2L9 - Já começou? (P18)

A2L10 - Ainda não, estamos aguardando todo mundo chegar. (E5)

O P17 apontou o desejo de que ali pudesse haver boa comida. Essa foi uma fala aparentemente fora do contexto, que apresenta uma forma muito regredida de se lidar com a realidade, o que me parece ser puro ID .

Em seguida chegou outro paciente, que perguntou se o encontro já havia começado. E5 respondeu que não, pois estavam aguardando todos chegarem: com isso, ela negou, desvalorizou, o que havia sido dito até então, o que foi sentido como um ataque a seus protagonistas, o que inclui a pesquisadora. P15 reagiu imediatamente.

A2L11 - Essa escola não vale nada! (P15)

A fala de E5 fez com que P15 buscasse novamente usar o adjetivo anterior - escola - para caracterizar o serviço, que podia ser tudo em seu ponto de vista, menos um lugar de tratamento.

A1L12 - Como não temos coordenadores para essa assembléia, eu vou coordenar hoje... Na última assembléia vimos o nome para o nosso CAPS e nos despedimos do espaço da Instituição Matriz . Acho que hoje podemos ver como foi a semana na nova casa. O que acham? (E2)

A1L13 - Tava a fim de ir para o Vera Cruz. (P15)

P15 expressou seu desejo de ir para um hospital novamente, um tradicional hospital geral da cidade. Provavelmente, onde pudesse ser tratado.

P19 se candidata a coordenar o grupo com E2, mas sua entrada é pró-forma, pois não tem, durante o encontro todo, nenhuma intervenção nesta função.

E2 ignorou novamente as falas anteriores, por lhe parecerem, talvez, delirantes, sem sentido. E perguntou se alguém queria falar.

E P17 repetiu seu desejo anterior de ter uma boa comida. Todos riram e foi se estabelecendo um uso de defesas maníacas frente à desestruturação provocada pela mudança.

A2L17 - Bonita casa. Deve ter custado uma nota preta! (P4)

A2L18 - Foi o mesmo preço das casas dos outros CAPS. Custa de aluguel R$3.000,00 por mês. (E2)

P4 apontou os custos da casa, mas não somente os custos concretos, mas também os emocionais. Sua fala foi em tom irônico, acusatório: expressava desconfiança. A ela E2 responde trazendo dados de realidade.

A2L21 - Quero retornar com o assunto das festas. Queria saber sobre a festa junina . Quero ajudar a organizar. (P10)

P10 trouxe para a reunião uma proposta de planejamento. Propôs a organização de uma festa junina, algo conhecido para ela, que deveria ocorrer somente no mês seguinte. Não falou da festa de inauguração, o que pegou todos de surpresa na hora, causou em mim grande estranheza. Mas penso que o presente estava tão confuso, insuportável para os pacientes, que era negado, como se isso fizesse o sofrimento diminuir.

A confusão e as perdas começam a aparecer a seguir:

A2L22 - Quero falar do horário de ir embora. Estão fechando as portas as 16 h e aí mandam todo mundo embora... (P20)

A2L23 -Vocês estão sentindo dificuldades na mudança? (E2)

A2L24 - Vários pacientes se levantam e saem da sala .

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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