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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Com o passar dos dias, percebemos que tínhamos escalado os profissionais responsáveis por atender as demandas do dia (o que inclui as intercorrências) para ficarem de plantão na Instituição Matriz, enquanto a maioria dos pacientes em crise estava na nova casa. A partir de então, esses profissionais passaram a ficar na casa, junto ao restante da equipe. Negociamos, com profissionais de outras unidades da Instituição Matriz, uma rede de ajuda, caso algum paciente do CAPS aparecesse na antiga unidade, necessitando de algum tipo de auxílio.

Foram feitas adaptações nos projetos terapêuticos individuais dos pacientes que possuíam duplo vínculo terapêutico na Instituição Matriz (nas Oficinas terapêuticas ou no Centro de Convivência), para que pudessem conciliar sua atividade nesses setores com o tratamento no CAPS.

Com a proximidade da festa de inauguração e da vinda do leito-noite para o CAPS, organizamos uma grade de plantão para os finais de semana e feriados. Desta, só ficaram excluídos os psiquiatras, o gerente e as monitoras. Todos os outros profissionais passaram a fazer parte das escalas. O plantão teria início assim que o leito-noite passasse a funcionar na casa, o que deveria ocorrer em questão de alguns dias.

A equipe achava que, de forma geral, as mudanças da estrutura de funcionamento dos CAPS eram boas, pois, já funcionávamos na mesma lógica de atendimentos há anos e a ampliação do horário de funcionamento do serviço, para atender os momentos de crise dos pacientes do HD, era demanda da equipe. Muitos profissionais chegavam a fornecer os números de seus telefones particulares, como uma alternativa para que os pacientes em crise, pudessem contactá-los no período da noite e durante os finais de semana.

Questionávamos e discordávamos, porém, de algumas diretrizes propostas pela prefeitura para o modelo de saúde mental do município. Ocorreram reuniões para discutir esses pontos de discordância, mas não houve acordo. As maiores discordâncias incidiam sobre a ausência da retaguarda de psiquiatras durante os plantões e sobre a falta de um transporte próprio para cada CAPS, o que repercutiria diretamente na qualidade de assistência prestada.

A equipe também não concordava com o risco iminente de que teríamos que atender a uma demanda muito maior do que a nossa capacidade. Da mesma forma, questionava-se a diretriz segundo a qual todo paciente psicótico do município deveria ser encaminhado para os CAPS. Os argumentos para a não inclusão dessas demandas da equipe no projeto da prefeitura envolviam questões ideológicas e financeiras. Sob o ponto de vista ideológico, a intenção dos gestores era a transformação do tratamento - historicamente centrado na figura do médico, que ocupava o lugar de representante do poder e do saber - com o objetivo de passar a legitimar o saber das equipes interdisciplinares. Sob o ponto de vista financeiro, a presença de médico vinte e quatro horas aumentaria muito o custo do projeto.

Essa argumentação partia do princípio equivocado de que a mudança de um comportamento da equipe se dá retirando o médico de cena. Tentávamos explicar que, do nosso ponto de vista, a mudança de atitudes deveria ocorrer na presença do profissional médico e não na sua ausência, pois, caso contrário, não seria possível alterar realmente o comportamento e as posturas de todos os envolvidos, dado que, retornado o estímulo, retornaria o comportamento anterior, o qual se pretendia transformar.

Tínhamos a preocupação de que os CAPS pudessem se transformar em pequenas e mal aparelhadas unidades de internação espalhadas pelo território, e era necessário criar algumas condições para tentar evitar que isso viesse a ocorrer.

A responsabilidade da equipe do CAPS pelo acompanhamento de um grande número de moradias terapêuticas também era um fator que a equipe questionava no projeto municipal. Questionávamos se não deveria ser preparada uma equipe especializada para o acompanhamento das mesmas, uma vez que elas, na nossa opinião, necessitavam de cuidados mais intensivos e, estes cuidados demandariam uma dedicação maior de tempo do que aquela que a equipe do CAPS, em função de um acúmulo de funções, estava conseguindo oferecer.

A assembléia 2, relativa ao momento histórico aqui relatado, foi a primeira ocorrida após a mudança para a nova casa.

Aprendendo com a experiência

A primeira assembléia na casa 1 teve início com atraso, pois os coordenadores estavam ausentes e não se sabia quem coordenaria o encontro. As pessoas pareciam confusas, o que sugere que, no plano latente, também a sensação era de confusão, de falta de organização, de falta de co-ordena-ação. O desejo inconsciente era de que alguém pudesse administrar aquela "bagunça interna" e colocar ordem na casa.

E2 assumiu a coordenação do encontro, que começou assim:

A2L1 - Eu já fiquei em hospital que era para tomar remédio, descansar, deitar, para fazer tratamento. Mas aqui nesta escola não está bom não... (P15)

A2L2 - Aqui parece escola? (E3)

A2L3 - Não é escola não? (P15)

A2L4 - É uma casa de tratamento. O Hospital-Dia que antes funcionava no hospital, agora vai funcionar nessa casa. (E3)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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