Cândido Escola
Teses
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental | A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental |
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| Por Ana Carla Silvares Pompêo | |
| 31 de maio de 2004 | |
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A casa alugada pela equipe estava fechada aguardando um locador, há aproximadamente três anos e, necessitava de muitos reparos e adaptações para que ficasse adequada ao funcionamento de um CAPS. As reformas na casa, em função da urgência de nossa mudança, ocorreram simultaneamente ao início do funcionamento das atividades terapêuticas do CAPS. Os primeiros dias de funcionamento do CAPS na nova casa, trouxeram sentimentos bastante ambivalentes, pois, se por um lado, todos estavam muito felizes e aliviados com a conquista do novo espaço, por outro, vivíamos momentos de atribulação. Todos andavam pela casa desorientados, sem saber como fazer uso e tomar posse do espaço . Não havíamos tido tempo de definir a distribuição dos cômodos da casa, que seriam destinados para a realização de nossas atividades cotidianas. Tudo estava improvisado, não havia móveis em número suficiente para o número de pessoas, o telefone e computadores ainda não haviam sido instalados e havia funcionários do serviço de consertos gerais da instituição, por toda a parte. A casa estava sem água, vários ambientes estavam sem luz, o portão eletrônico não funcionava, nem a campainha, o que dificultava o acesso ao interior da casa; não tínhamos transporte disponível para cuidar dos detalhes da mudança, havia sujeira e barulho por todos os lados. As refeições que haviam sido encomendadas na matriz atrasavam muito para chegar, em função da falta de transporte, o que deixava as pessoas bastante impacientes . Além disso, faltavam medicações, enquanto os pacientes estavam bastante agitados, tentando se adaptar, assim como a equipe, à tanta desorganização. Enfim, ocorreram problemas diversos, mas, mesmo assim, havia ocorrido uma transformação qualitativa dos problemas, o que permitia que, nesse momento, a minha vivência e de parte do grupo, já não fosse mais de "Caos absoluto", mas sim, de desorganização. Sentia que ter uma casa para nos abriga, nos dava um suporte mínimo necessário para voltarmos a ter esperanças e passarmos a crer que o desconforto era algo passageiro... Na Instituição Matriz tínhamos nossas necessidades de recursos materiais atendidas com uma facilidade e agilidade muito maior. Até a captação de recursos financeiros parecia ser mais fácil. Agora tínhamos que planejar nossas ações e gastos com uma antecedência de tempo muito maior. Nosso principal desafio no campo terapêutico foi o acolhimento da crise de nossos pacientes, já que, para isso, tínhamos que tentar elaborar o momento de crise dentro de cada um de nós, a nossa própria crise interna e externa, provocada pelos últimos acontecimentos. Entretanto, não havia tempo para cuidarmos de nós, tínhamos muito trabalho a fazer . Essasquestões surgiram numa fase em que a equipe ficou vários meses sem supervisão institucional e de planejamento, já que havíamos dispensado os serviços de nossos supervisores e não escolhemos substitutos para essas funções. Estávamos somente com supervisão clínica, o que é um dado bastante significativo e paradoxal. Essa postura que tomamos gerou em mim, durante a redação da dissertação, sentimentos de perplexidade e estranheza intensos. Como optamos, numa situação como a que vivíamos, por não pedir socorro e não contratarmos novos supervisores institucionais e de planejamento? Principalmente levando em conta que tínhamos esse recurso disponível . Utilizamos apenas, no início do processo de mudanças, duas "oficinas de planejamento", para organizar o atendimento no novo CAPS. Optamos pelo silêncio e por não pensar sobre nosso sofrimento (-K bioniano). Essa situação denunciava algo importante sobre o funcionamento mental da equipe, naquele momento; esse comportamento me lembrou um ato suicida, um comportamento onipotente e autodestrutivo. Paradoxalmente, eu sentia uma dor intensa, que mal podia ser verbalizada pela equipe. Eu desacreditava da capacidade administrativa dos gestores do processo, após suas últimas decisões. Sentia-me impotente, doente tanto emocional como fisicamente. Não recebíamos nenhum tipo de acolhimento e, ainda me sentia cobrada a agir como se nada estivesse ocorrendo. Qualquer tentativa que fazíamos de falar sobre nosso desconforto era rotulada como queixa e éramos cobrados para que tentássemos ser mais construtivos e maduros. De qualquer forma, não nos foi possível pedir ajuda, nem reconhecer a necessidade urgente de recebê-la. Durante esses primeiros dias, tentávamos organizar as rotinas da casa, assim como os espaços de tratamento e de convivência. Foi necessário, também, solicitar e comprar alguns recursos materiais, bem como organizar aqueles, dos quais dispúnhamos, além de fazer a decoração da casa. Neste momento, a equipe voltou a aumentar e foram contratados mais duas monitoras e três funcionários que se responsabilizariam pela limpeza da casa. As atividades terapêuticas de rotina foram temporariamente suspensas e a equipe tentava envolver os pacientes nos cuidados com os espaços e organização das rotinas da nova casa. Era dada prioridade para atividades em grupo, principalmente as atividades abertas. Foi possível, nessa casa, manter as salas de atendimento em número bem semelhante, àquele do qual dispúnhamos na Instituição Matriz. O único espaço que não foi possível manter e que significou uma perda para os pacientes foi a sala de música e descanso dos mesmos, que ficou sendo um espaço compartilhado para música, televisão e refeições. 66,67,68,69
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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