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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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O anúncio da perda dessa identidade provocou muita angústia e os pacientes buscaram pensar nomes para o novo CAPS, para que a nova identidade pudesse ir se delineando logo, para ocupar o vazio interno provocado pela perda. Para isso se utilizaram de uma defesa maníaca, frente a uma ansiedade depressiva.

A1L98 - Com a chegada da Unidade de internação, acho bom a gente mudar rapidinho para ter mais espaço! (E12)

A equipe estava tão angustiada com a situação quanto os pacientes, e também utilizava os mesmos mecanismos de defesa e vivenciava as mesmas ansiedades. O que mostra a identificação dos dois grupos, que se confundem em vários momentos, tornando-se impossível identificar quem era cuidador e quem era paciente.

A1L99 - E quando estivermos mal, em crise , vai para onde? (P4)

Tratava-se de uma situação de crise coletiva. Essa é uma alusão à mudança estrutural no tratamento.

A1L100 - Para o CAPS ou para o pronto-socorro. (E12)

Em seguida, ocorreram questionamentos sobre o que ocorreria com o que restou do espaço do HD a partir da chegada das outras unidades assistenciais.

A1L102 - É complicado ter que esperar para ver. (P4)

A1L103 - Não sabemos se vai dar certo (as mudanças) , vamos tentar. (E12)

O riscos do processo foram colocados realisticamente por P4 e por E12, o que propiciou uma possibilidade de pensar que a mudança, mesmo tendo riscos, poderia ser benéfica e não catastrófica. A forma como os profissionais da equipe foram lidando com as pressões emocionais que estavam surgindo, poderia transmitir um modelo de identificação positivo ou negativo, para os pacientes e, vice-versa.

A1L104 - Vocês não deviam sair daqui. Já que entrou (E12 havia entrado atrasado na assembléia) vai ouvir. (P3)

P3 fez uma última tentativa de que E12 o ouvisse, e quem sabe, o ajudasse a reverter o processo.

A1L105 - Nossa saída são favas contadas, é definitivo. Em vez de brigar com a mudança vamos ver o que podemos fazer! (E12)

E12colocou um dado de realidadee interpretou o mecanismo de negação/resistência, ao qual P3 estava recorrendo para se proteger e apontou para a possibilidade de existência de outras saídas mais construtivas para lidar com sua angústia de aniquilamento.

O encontro continua, mas agora é possível perceber um tom de ironia e até de humor nos comentários dos pacientes, um pouco mais aliviados pela intervenção de E12.

A1L106 - Tem que pegar ônibus e andar um pouco. (respondendo à fala de um paciente). (E1)

A1L107 - Tem que andar ainda?!... (Risos gerais) (P4)

A1L108 - Vou mandar colocar lá uma escada rolante. (Risos) (P9)

Através de uma defesa maníaca, os pacientes encontraram uma forma de aliviar a sensação de impotência absoluta que vivenciavam, buscando uma saída alternativa para lidar com seus receios e angústias. A solução era esperar para ver, parafraseando P4.

P3 encerrou a reunião dizendo que cuidaria sozinho das coisas que competiam à ele, como a arrumação de seu quarto interno e isso deixou implícito que cada um deveria fazer o mesmo.

2.) ASSEMBLÉIA 2

Descrição do contexto institucional

Enfim veio a mudança de casa, mas saímos da instituição com uma sensação de termos sido expulsos de lá, o que infelizmente não se deu somente no campo da fantasia, uma vez que lá não havia mais lugar para nós. Não foi possível fazer um trabalho de despedida do antigo HD, que foi extinto, bem antes da inauguração do CAPS.

Durante um final de semana, alguns funcionários do HD, em conjunto com alguns pacientes, fizeram a mudança para a nova casa. Foi um momento de muita alegria, pois seria o final de uma espera de quase um ano. A sensação de satisfação e alívio pela conquista do nosso lugar era algo presente em todos os rostos.

A casa era bastante ampla e confortável, com bastante área verde e piscina, localizava-se em um dos bairros mais nobres da cidade, um local de fácil acesso para os pacientes, que não precisariam passar por períodos de grande adaptação para aprender a chegar lá, pois poderiam pegar o mesmo ônibus que pegavam para ir até a Instituição Matriz. O local facilitava também a locomoção da equipe, que ficava a uma distância não muito grande da instituição, além de facilitar o acesso da equipe às moradias terapêuticas, que permaneceriam nos arredores da Instituição Matriz.

Durante as semanas da assinatura do contrato, a equipe fez visitas na casa, com os pacientes, para que eles pudessem conhecer seu novo espaço de tratamento e aprender como chegar até lá. Como nem todos os pacientes haviam conhecido a casa ou não estavam seguros quanto ao novo percurso até lá, a equipe definiu que os profissionais que estivessem na escala de triagem e os dois acolhedores da demanda do dia (um profissional de nível universitário e um auxiliar de enfermagem) ficariam de plantão na Instituição Matriz, caso algum paciente fosse até lá, procurar pela equipe. Foi decidido que o leitos-noite iriam para o novo endereço no dia seguinte à festa de inauguração oficial do serviço. Com isso, nesse primeiro momento, a equipe trabalharia dividida nos dois locais de funcionamento (casa nova e Instituição Matriz). A equipe de plantão noturno ficaria separada dos demais profissionais, por um período maior, assim como, sua clientela-alvo: a crise (pacientes de leito-noite).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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