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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Nesse momento alguns profissionais começaram - mobilizados pela angústia que o assunto trazia (contratranferência) - a conversar paralelamente para organizar a visita à casa nova, o que dispersou a discussão coletiva. Eles representaram no "aqui e agora" a dispersão que a equipe vivia no real. O tumulto provocado por conversas paralelas ocorreu de A1L77 até A1L84 .

Em A1L80 , P4 me mostrou seu documento de identidade e um papel com seus dados pessoais dizendo que era deficiente mental. O ato de mostrar a identidade reforça a idéia de ele estar com sua identidade fundida à do HD, como se este funcionasse para ele, como uma pele protetora. Fora daquele espaço, só lhe restava a doença, o rótulo de deficiente mental. A seguir surgiu uma nova pessoa que pode perceber o tumulto e conseguiu intervir, fazendo com que o grupo refletisse a partir de um dado de realidade.

A1L84 - Temos que ir com calma, primeiro temos que avaliar como é a situação da casa. (E9)

O tumulto foi interrompido pela intervenção acima e, com isso, se tornou possível propor um encaminhamento concreto, que partiu de um paciente.

A1L85 - Por que não fazemos a próxima assembléia na casa? (P9)

A1L86 - Vamos ver, é uma boa idéia. (E9)

E9 apesar de considerar a sugestão uma boa idéia, não sentiu que a assembléia teria autonomia para tomar esse tipo importante de decisão, sem dados concretos sobre a situação da casa e sem a autorização gerencial. O assunto muda para questões como um passeio a uma igreja, um tema menos complexo, que poderia ser decidido naquele espaço e momento.

A1L91 - Quem se compromete tem que fazer! (P3)

O superego rígido do paciente apareceu nessa colocação, que se tornou um elemento de controle persecutório para a equipe.

A1L92 - Vamos ajudar a transferir coisas para o caminhão de mudanças? Vocês arrumaram uma sala provisória para a equipe, mas para nós não (referindo-se à perda da sala de música e descanso dos pacientes para alojar a unidade de internação) Secando a tinta podemos usar lá? Tem um quadro meu lá , que está coberto com papel para não sujar, eu fiz isto porque quero levá-lo para a casa nova. (Este quadro foi perdido na mudança da internação para o espaço do HD) . (P9)

P9 queixou-se de que, com a perda do espaço físico, os mais prejudicados foram os pacientes, pois a equipe, mesmo que precariamente, tinha uma sala. E9 queria levar algo seu, construído no antigo HD, para o novo CAPS. O quadro funcionava como um objeto transicional. A perda do objeto transicional representou que, durante a mudança, não foi possível organizar um processo adequado de despedida do antigo HD, foi uma perda abrupta, traumática.

A1L93 - Pode estragar o nome do hospital , pois se não cuida do HD, a Instituição Matriz vai virar tudo manicômio . (P4)

Quando não ocorre um cuidado com espaços, intervenções e desaparece o respeito à subjetividade, ao direito individual e se perde a noção de limites adequados, se institui uma lógica manicomial. O HD era a representação para seus pacientes, do espaço não-manicomial da instituição e não cuidar deste espaço significava a perda do bom tratamento e da própria sanidade mental de cada indivíduo, o que atingiria à ele, ao novo CAPS e à Instituição Matriz como um todo.

A1L94 - O HD está acabando e o nome está mudando. E a Instituição Matriz como tal, também está mudando. Tem uma perda, vocês não tinham se tocado disto? (E12)

As colocações de E12, que havia entrado na assembléia alguns momentos antes, contribuíram para que a expressão dos temores pudesse ocorrer livremente, já que ele pode dar um nome para o que ocorria e trouxe dados de realidade para a discussão. E12 desempenhou uma função paterna ao nomear a morte do HD, em função da mudança da identidade do serviço, assim como explicitar que uma transformação que afetava toda a Instituição Matriz. A perda era inevitável.

A1L95 - Se acabar o HD a Instituição Matriz vai acabar, não será mais a mesma. (P4)

P4 demonstrou uma preocupação de que a Instituição Matriz poderia acabar. Penso que ele estava captando isso inconscientemente, prevendo uma intenção da prefeitura, que não se limitava a uma fantasia desse paciente e que foi se confirmando mais tarde, com outras propostas de transformação na instituição.

P4 mostrou ainda que, em seu mundo interno, HD e Instituição Matriz eram uma coisa só, indiferenciada, fusionadas, o que ocorria também com sua própria identidade em relação à instituição.

A1L96 - A Instituição Matriz está mudando e você tem razão que não será mais a mesma. (E12)

E12 acolheu adequadamente e validou a angústia de P4, como se nas entrelinhas dissesse: - "Você não está louco!" - Colocou em prática o vínculo R de Zimerman.

A1L97 - Pacientes citam nomes para o novo CAPS. (...)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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