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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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P4 de forma brilhante, resumiu e tornou manifesta a angústia que invadia a todos durante todo o encontro. Afirmou que a bagunça era o adjetivo que caracterizava o funcionamento institucional.

P3 fez em seguida um convite para que os pacientes se unissem diante daqueles problemas:

A1L61 - Temos que descer junto todo mundo em carreira. (P3)

Tentei abrir espaço para que os pacientes pudessem expressar suas angústias, de modo a reforçar, de forma implícita, que elas eram legítimas e parte do tratamento, e que, apesar de não termos mais o nosso espaço de tratamento concreto, o espaço mental para acolhimento e nomeação das angústias continuaria existindo.

A1L62 - Quais são os receios de vocês? (E3)

A1L63 - Eu já fui para outros pontos e peguei ônibus errado . (P3)

A1L64- Ter que andar a pé bastante . (P6)

O grande temor era que o novo fosse um erro, que a mudança trouxesse desorganização, perdas irreparáveis ou que tivéssemos que pagar um custo alto por ela. O questionamento dos pacientes era quanto ao direcionamento do processo de mudança de modelo, para que não pegássemos o ônibus errado, descêssemos em ponto errado ou que perdêssemos o ônibus de nossa história.

A1L66 - Eu moro em um beco sem entrada e sem saída , tem um CAPS lá perto (da casa dele) , só que eu odeio aquele lugar . No novo CAPS até posso ir (que é bem longe de sua casa ). (P4)

Apareceu novamente uma crítica à regionalização dos serviços. Tudo o que esse paciente queria era ficar bem longe de sua casa, o oposto do que propõe o novo modelo de saúde mental. Fez referência a uma dimensão emocional: casa não é vivenciada significativamente como espaço bom, de acolhimento pela grande maioria dos pacientes psiquiátricos, tanto no plano da casa concreta, como da casa interna. A casa interna dos gestores, que planejam as mudanças, é completamente diferente do conceito de casa interna dos pacientes. E, muitas vezes, eles (assim como nós) não se dão conta de que essa diferença existe.

A1L67 - Seria bom a comissão de eventos organizar a mudança para a nova casa. Nem tudo na vida é como queremos . Vou fazer um convite para irmos conhecer este lugar novo! (E9)

E9 deslocou para a comissão de eventos as missões desagradáveis, principalmente porque fazer mudança de casa não era da responsabilidade desta comissão somente, mas sim de todos. E9 estaria assim, salva da inglória missão de organizar tamanha confusão, já que não fazia parte de tal comissão. Na frase sublinhada fez uma racionalização, de forma coerente com o conteúdo das falas anteriores, visando se proteger do sofrimento e da confusão mental.

A1L68 - Será que terá a mesma oportunidade que temos aqui? Vai ter grupo de segundas e quintas? Eu só venho estes dias. (P4)

A1L69 - Eu também. (P9)

Os pacientes voltaram ao assunto anterior, buscando garantias de que seus tratamentos (grupos) não iriam mudar, de que não perderiam o bom tratamento. Não receberam nenhuma resposta da equipe.

A1L70 - Tô no bico do corvo . Sabe quanto tempo faz que tô aqui? Dez anos e meio. Dá para acreditar? (P4)

P4 enfatizou sua condição de "paciente fundador" do HD e o quanto sua identidade estava fundida com a identidade da instituição. A possibilidade de que a instituição morresse representava no plano psíquico, que sua vida também estaria ameaçada. Apareceu aí a angústia de aniquilamento e uma angústia depressiva, caracterizada pela percepção de suas partes "doentes", "loucas".

Passaram a discutir uma possível dificuldade de acesso ao CAPS em A1L71 e A1L72 . Em A1L72 a A1L74 os pacientes voltaram a perguntar se haveria mudança em seus projetos de tratamento e nos vínculos com a equipe (profissionais de referência). Dessa vez receberam a palavra da equipe de que o tratamento não mudaria.

A1L75 - Por que alguns enfermeiros foram mandados embora ? (P9)

A1L76 - Por que estavam em período de experiência e não foram aprovados . E alguns funcionários (cita nomes) foram cedidos neste período , para a unidade de internação e alguns (nomes) estão trabalhando lá no plantão da noite, enquanto não mudamos de casa. (E1)

Sabiamente os pacientes identificavam uma fragmentação na equipe, que estava concretamente dividida pelas unidades da instituição. Tanto a unidade de internação, quanto a de dependência química também estavam vivenciando uma crise e a gerência do HD procurou ajudá-los, já que não havia mais espaço para sua equipe trabalhar dentro da matriz. Em função disso, a equipe foi reduzida e fragmentada e, portanto enfraquecida em sua força grupal. O temor de demissão era uma fantasia presente, caso não pactuássemos com as decisões dos gestores sobre a mudança e defendêssemos os interesses institucionais.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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