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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A1L40 - E quando podemos ir visitar a casa nova? (E3)

Fui ficando extremamente angustiada enquanto relatava o encontro, por perceber que ficar discutindo como seria a casa antes da experiência concreta de visitá-la seria perda de tempo. Tentei, por isso, encaminhar o problema para alguma ação prática, numa tentativa de fazer contato com o novo. Com isto, o restante da equipe, que estava até então, em silêncio, começou a se colocar, saindo do estado de impotência absoluta, para uma posição de potência relativa. Ocorreu a partir dessa intervenção, uma transformação na dinâmica do subgrupo equipe, que através de E7 sai da postura passiva e propõe uma ação.

A1L42 - Podemos organizar grupos para irmos amanhã até a casa. (E7)

Os pacientes continuaram a verbalizar seus temores, mas como a ameaça parecia estar mais próxima, começaram a se defender dela com uma outra ameaça de agressividade verbal (reação contra-fóbica).

A1L43 - Eu quero ver se eu vô, coitado de quem estiver do meu lado na piscina, vou dar bundada e derrubar n'água. Eu fui para (cita o nome da cidade) e perdi a minha mãe na minha mão, porque tomou remédio errado . (P4)

P4 estava se sentindo completamente impotente e ineficiente em seus esforços para salvar o HD da morte. Considerava a mudança um remédio errado, um erro médico (da equipe). A frase sublinhada também pode ser compreendida como uma crítica à mudança de modelo de saúde mental: regionalizar e mudar o nome do HD não eram o melhor remédio (solução) do ponto de vista dos pacientes. Novamente a perda do HD foi comparada à perda da mãe (função materna).

A1L44 - Sei que isto é muito sério, mas temos outras pautas. (E1)

E1 mudou em seguida de pauta, mas como já não se sentia desamparada pela equipe, pôde tolerar melhor a angústia e, de forma acolhedora, incluiu o sofrimento do paciente em sua fala.

Geralmente a equipe, representada por E1 (que muda de assunto quando P4 falou da morte da mãe), tem uma concepção de que, quando são trazidos temas pessoais para a assembléia, eles não devam ser ali trabalhados, mas sim nos grupos terapêuticos. Isso ocorre porque a equipe trabalha somente no plano manifesto nesse grupo, o que lhe impossibilitou a compreensão de que a morte da mãe estava dentro do assunto, por ser uma vivência transferencial. Assim, não pôde ser trabalhada enquanto temor em relação à mudança, ou pelo menos investigada enquanto linguagem simbólica.

A1L45 - Podíamos falar do baile? (E6)

A1L46 - É precisamos ver a nova comissão de eventos para ajudar a organizar tudo . (P1)

P1 apontou a necessidade de organização de tudo, nos planos interno e externo. E oito pessoas se candidataram para ajudar nisso.

Em A1L48 apareceu um sentimento de desconfiança em relação ao grupo e em A1L54 um paciente em crise entra na sala. Penso que isso era o que precisava ser cuidado e organizado naquele momento: o sentimento de desconfiança que representava uma quebra no vínculo terapêutico entre equipe e pacientes. Essa era uma das causas importantes de nossa crise.

A1L55- As salas disponíveis na casa serão suficientes para termos as salas que a gente tem aqui? (E6)

Nessa fala foi introduzida a pauta dos espaços físicos na casa nova. E6 negou a perda que já havia ocorrido e tentou levar a discussão novamente para fora do "aqui e agora" do encontro, ou seja, para o campo abstrato da fantasia. E6 tentou assegurar-se de que não ocorreriam mais perdas.

Foi a primeira representante da equipe a expressar um temor e demonstrou que o CAPS para a equipe também era vivenciado de forma tão abstrata, quanto para os pacientes, o que é um indicativo da identificação da equipe com as partes "doentes" dos pacientes e vice-versa e, que, na passagem de HD para CAPS existia, a identificação no plano inconsciente de uma mudança (o que não aparecia no discurso consciente, no qual se justificava que o HD já funcionava como CAPS).

A1L56 - Acho melhor conversarmos sobre como está a organização dos espaços aqui no momento e depois que fizermos a visita na casa poderemos discutir como será lá . (E3)

Com minha intervenção, trazendo a discussão para o momento atual: "aqui e agora", os pacientes puderam enumerar os problemas que enfrentávamos e demonstravam que as perdas já haviam ocorrido, perdas essas não só dos espaços concretos, mas de um tratamento humanizado e digno.

A1L57 - Não temos banheiro para usar. (P9)

Nas frases seguintes continuaram a discutir o problema dos banheiros, até P4 intervir, colocando um limite e expressando a angústia de todos.

A1L60 - Se o nosso problema fosse só separar banheiro... quero é saber se vamos ter o mesmo tratamento que tinha aqui, lá . Eu faço tratamento aqui há dez anos e agora querem mudar. O jeito é fugir desta bagunça e continuar pintando no atelier... (P4)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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