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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Para isso, havia optado inicialmente por fazer entrevistas com alguns pacientes antes de as mudanças ocorrerem, essas seriam realizadas novamente durante o período de implantação e alguns meses após as mudanças, quando a nova forma de funcionamento do serviço já estivesse estruturada. No entanto, enfrentamos uma reação dos moradores do bairro para o qual o CAPS havia se mudado. Como conseqüência disso, não pudemos permanecer na casa e tivemos que retornar para nossa sede anterior. Assim sendo, houve uma nova mudança e funcionamos de forma improvisada, durante um ano, até que conseguíssemos uma nova casa para nos mudarmos. Nessa nova casa também tivemos que enfrentar uma ação judicial contrária à instalação do CAPS, por parte da vizinhança, mas ganhamos a causa na justiça, em novembro de 2004, após alguns meses de conflitos. Devido a esses imprevistos me vi obrigada a fazer uma modificação na metodologia do trabalho e procurei adaptar minha pesquisa aos novos acontecimentos.

Em função disso, a pesquisa se transformou no estudo de um período de tempo, correspondente a seis meses, de um processo de mudanças que se estendeu por quase dois anos. Portanto, quando me referir aqui ao processo de mudanças, estarei falando da primeira mudança de casa e do retorno à instituição sede, o que compreende o período de abril a setembro de 2002.

Meu objetivo principal, com esta pesquisa, é descrever e compreender, de uma ótica psicanalítica, os fenômenos que ocorreram com a equipe e os pacientes do CAPS, durante o referido processo de mudanças.

Para isso, convido o leitor a me acompanhar em uma caracterização do CAPS, na qual descrevo as características desse modelo de serviço de saúde mental, quem são os pacientes atendidos por ele e como é o tratamento oferecido, em particular, no CAPS. É fundamental, no entanto, que o leitor compreenda como esse CAPS está inserido no contexto mais amplo das políticas públicas de saúde mental no Brasil contemporâneo. Ainda no capítulo dois, descrevo as instituições responsáveis por administrar o CAPS em uma co-gestão e faço considerações sobre uma nova clínica psiquiátrica que se encontra em processo de desenvolvimento.

Ainda no segundo capítulo apresento conceitos e questionamentos de fundamental relevância para este trabalho. Trata-se de uma reflexão crítica sobre as influências ideológicas e metodológicas que podem se transformar em entraves para o desenvolvimento dessa nova clínica da loucura. Discuto as inter-relações entre o binômio reabilitação psicossocial e clínica psicanalítica, tendo como pano de fundo, a análise de questões relativas ao planejamento em saúde, enfatizando a importância do investimento constante na capacitação das equipes interdisciplinares, assim como dos processos de vinculação que ocorrem na instituição. Acredito que sem esse investimento as mudanças de modelo dificilmente terão êxito. A prática tem mostrado que os profissionais de saúde mal conseguem tolerar diferenças teóricas e de experiência entre eles e essa portanto, passa a ser uma contradição fundamental a ser discutida.

A reforma psiquiátrica nasceu da crítica às suas próprias instituições e, da intenção de transformá-las radicalmente, surgiu a prática da reabilitação psicossocial, baseada no movimento da luta antimanicomial. Para isso, desenvolveram-se métodos modernos de administração e planejamento em saúde. O único empecilho a essa reformulação é "um tal de" inconsciente, que insiste em aparecer sem ser convidado para interferir na arquitetura da reforma, indicando que, ao se tentar extinguir antigos fantasmas dos locais e estruturas, eles tendem a voltar e ocupar o espaço sempre que houver algo não dito, algo não pensado. O inconsciente é um quase sinônimo de loucura, de falta de controle, é a marca da diferença.

Para isso proponho refletirmos sobre o conceito de "manicômio mental", pois não adianta mudar os espaços físicos dos serviços sem investir nas concepções de loucura dentro de cada um dos protagonistas do processo. Sem esse investimento, mudam-se os espaços, mas perpetuam-se as práticas consideradas manicomiais, que a reforma psiquiátrica luta para abolir.

A luta antimanicomial abriu as portas do manicômio e decretou que o louco não seria mais trancafiado. Então surgiu o problema de que ele não tinha por que deixar os hospitais, não tinha para onde ir, pessoas com quem encontrar... Passou, então, a ser proibido pronunciar as palavras "manicômio", "cela forte", "contenção", "eletrochoque", "fechado", "louco", dentre outras. Após vinte anos de reforma, os antigos hospitais psiquiátricos, considerados "locais de trocas zero", que se transformaram em serviços de saúde alternativos e com tratamentos mais humanizados dentro de princípios éticos; passam a ser o único lugar de troca possível. Ao perceber isso, a reforma propôs a implosão dos grandes complexos hospitalares e serviços de saúde, subdividindo-os em partes menores e espalhando seus recursos por diferentes territórios, mais próximos da comunidade, oferecendo a eles novas roupagens: caracterizando-os como pequenas instituições de tratamento, oficinas de trabalho, centros de convivência, casas para viverem. O problema dessa transformação consiste no fato de as novas instituições resultantes continuarem a ser "redutos só de loucos" e de profissionais da área. A reforma ainda não saiu do quintal da psiquiatria e realmente ainda não se transformou em tema e preocupação social, como se pretendia. Ocorreram avanços fundamentais nesse período, assim como a qualidade dos problemas enfrentados, que saltaram de uma lógica da tortura, do confinamento, do não-direito para uma lógica do direito, da ética e do tratamento. Mas ainda há muito a ser feito.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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