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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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P3 através de um mecanismo de projeção do objeto mau, responsabiliza a equipe pela decisão de sair da Instituição Matriz e deixa claro que o grupo de pacientes não apoiava a mudança, mostrando que existia um conflito de interesses entre o grupo de pacientes e o grupo de profissionais, o que dividia o encontro em dois subgrupos rivais. Essa idéia foi reforçada pela fala transcrita a seguir, de P4.

A1L18 - É isso mesmo, lá perto de casa tem um (CAPS) , mas fui uma vez só e nunca mais. Pode ser uma alternativa para se recuperar, mas vai ser duro! (P4)

P4 fez uma alusão a uma das diretrizes da mudança de modelo de saúde mental: a regionalização dos serviços. Segundo sua experiência, ter um CAPS perto de sua casa não é vantagem alguma, muito pelo contrário, uma vez que se recusava a se tratar lá.

A partir de A1L17 teve início um discurso de resistência à mudança, no qual os pacientes se colocaram fora desse processo, continuando a fazer uma projeção do objeto mal, quando usaram o termo "vocês" e não "nós". Esse diálogo vai até A1L21 . Os pacientes tentavam expressar seus temores, descontentamentos e angústias frente à mudança.

A1L22 - Vocês não vão ter esta parte do lado de cá (faz um gesto como se dividisse a sala e os participantes ao meio ). Eu era aluno da APAE e trabalhava na (cita nome de duas empresas) e ganhava dinheiro. Agora é justo você mudar para daqui e lá. (P3)

P3 (paciente novo no HD) e P4 ("paciente fundador" do HD) funcionaram como porta-vozes dos dois grupos de pacientes (novos e antigos), denunciando o conflito e angústia dos mesmos. No exemplo acima, P3 encena a fragmentação do grupo (pacientes versus equipe). E1 e P1, por sua vez funcionaram como porta-vozes da equipe, identificados com a função de gestores. Buscaram defender a decisão de mudar, reforçando o clima de rivalidade e a fragmentação em dois grupos (contra e a favor das mudanças, certo e errado, bem e mal, etc), o que significa que se estabelecem relações parciais de objeto (seio bom versus seio mal), movimento característico da posição esquizoparanóide de Klein.

A questão da distância geográfica foi o argumento positivo que a equipe utilizou, para defender a mudança de espaço físico e tentar convencer os pacientes de que seriam beneficiados com isto.

A1L23 - Você mora aonde? (E1)

A1L25 - Vai ficar mais perto pra você. (E1)

Imediatamente P3 se defende dessa fala, como se ela fosse sentida como um ataque às suas convicções e se opõe ao argumento de E1.

Enquanto a discussão estava sendo direcionada para a localização e para o acesso da casa no mundo externo, no mundo interno dos pacientes, eles estavam falando que esta casa interna (lugar que acolhe, representa segurança e estabilidade) estava muito distante deles, como a própria equipe que, naquele momento, estaria afetivamente distanciada - visto que não conseguia ouvir e legitimar a angústia - identificada com os interesses institucionais e se colocava no papel de defensores do projeto de saúde mental do município, consequentemente, afastando-se de sua real função (tratar o sofrimento psíquico) e do objetivo da Assembléia: ouvir, pensar em conjunto, co-gerenciar o dia-a-dia do serviço.

A1L26 - ... Não acho justo vocês saírem daqui. (P3)

P3 responsabilizou novamente a equipe (representada na pessoa de E1) e se colocou fora do processo, como se não fizesse parte do grupo que passaria pela mudança, colocando-se à parte, a salvo da ameaça em sua fantasia.

E1 sente que estava sendo responsabilizada pela decisão de mudar e que, até então, não estava recebendo auxílio dos companheiros de equipe, até então. Sente-se provavelmente traída por nós, abandonada à própria sorte no papel de perseguidora.

A1L27 - Sair é uma recomendação da prefeitura que estamos cumprindo...

E1 se defendeu, dizendo ser tão vítima da situação quanto os pacientes, projetando o mal para fora da reunião e da Instituição Matriz (nós somos bons, a prefeitura é que é má). Responsabilizou a prefeitura pelo fato de esta mudança estar sendo sentida como algo "imposto". Ao utilizar a primeira pessoa do plural, indica ser parte de um grupo, chamando a equipe para co-responsabilizar-se junto com ela naquela tarefa. E acrescenta.

A1L27 - ... e acho que vocês não estão entendendo onde é (a casa).

Nessa frase E1 acabou reagindo contratransferencialmente, de forma também hostil ao ataque que sentiu. A colocação teve um caráter repressivo, superegóico, que verticalizou ainda mais a relação de poder dentro do encontro. Ela contra-atacou, sugerindo uma possível desvantagem de capacidade de compreensão dos pacientes.

Por trás de uma simples questão geográfica, simbolicamente, poderia estar se referindo ao fato de não estarem compreendendo que a equipe não tinha poder contratual para tomar decisões, ou fazendo um pedido para que os pacientes pudessem ser mais compreensivos com a equipe naquela situação.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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