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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A equipe teve que se esforçar muito para manter uma aparente tranqüilidade e o profissionalismo diante dos pacientes. Quando a equipe buscava questionar os gestores sobre a decisão político-administrativa, era silenciada, com a justificativa de que era uma situação provisória, que duraria poucas semanas, por isso, deveríamos ser tolerantes, e logo, estaríamos funcionando em um outro espaço físico.

Aprendendo com a experiência

A Assembléia teve início com a fala de sua respectiva coordenadora, E1, comunicando a ausência da gerente da equipe daquele encontro, pois ela estava em uma reunião deliberativa com a prefeitura. Isso sugeriu que o espaço da assembléia estava descaracterizado de seu objetivo primário: ser um espaço deliberativo, uma vez que as decisões sobre o nosso futuro estavam ocorrendo fora daquele espaço. Tratava-se de um grupo acéfalo (sem poder, devido à ausência da gerente). Qual seria então, a função daquele nosso encontro?

A1L2 - E2 (gerente) estará ausente da assembléia, pois estará em uma reunião com a prefeitura. Amanhã fará vistoria na casa nova e pegará a chave. (E1)

A falta da capacidade decisória é um dos temas dessa assembléia. A casa nova (a mudança) é o outro.

A1L3 - As pautas que vamos discutir hoje são o nome para o nosso CAPS, o baile de inauguração, a nova organização dos espaços físicos. Alguém tem mais alguma pauta? (P1)

A mudança aparece de forma implícita na discussão, através da fala dos dois coordenadores. No entanto, o item organização dos espaços físicos fica dúbio, pois não fica claro se estavam referindo-se, ao espaço físico da instituição matriz ou da nova casa.

Depois disso, o paciente P2 pede a inclusão de um novo item na pauta, que aponta também para uma proposta de mudança no tratamento: para uma falta ou uma carência de terapia ocupacional. Terapia ou atividade? Não se entende o que ele quis dizer. Seria uma menção ao fato de estarmos propondo uma atividade pouco resolutiva?

Em seguida, E3 propôs que fossem escolhidos novos nomes para a comissão de eventos.

A discussão da pauta tem início pela escolha do nome para o novo CAPS. A escolha do nome representa o primeiro passo para o processo de construção de uma identidade para esse serviço. Quando um bebê nasce, a escolha de seu nome é um primeiro marco de sua identidade.

Em A1L10 , um profissional demonstra desconhecimento do fato de que aquele não se tratava de um encontro deliberativo.

A1L10 - A votação será hoje? (E4)

A1L11 - Não. (P1)

P1 informa que o destino do encontro já havia sido traçado e que o poder de decisão não estava ali, o que provocou uma sensação de incômodo em mim (contratransferência).

A1L14 - O que vocês acham de votarmos o nome na semana que vem? (E5)

A pergunta acima revela a intenção de dar à decisão um caráter democrático - meramente aparente -- como se a decisão fosse do grupo, negando ou tentando encobrir que esse planejamento já havia sido feito previamente, tanto que os coordenadores haviam sido informados de que a votação não ocorreria naquele dia. Ninguém respondeu ao questionamento feito por E5, o que demonstra que a intenção latente de sua fala foi captada pelo grupo.

Já que não teríamos autonomia naquele dia para votar o nome do CAPS, não haveria razão para perder mais tempo discutindo algo inútil e P3 introduz um novo assunto, que não estava enunciado na pauta de forma explícita: a mudança de casa (localização do CAPS).

Mudar de casa seria o marco de passagem da identidade de HD para a identidade de CAPS. Representava uma transformação, o aval e o reconhecimento da prefeitura e da Instituição Matriz para nosso crescimento (aumento de jornada de trabalho institucional e de responsabilização). Situação que pode ser comparada ao filho que vai se casar, sair da casa dos pais e ir para um espaço seu. Como enfatiza o ditado popular, "quem casa quer casa".

A1L15 - (Para E1) Você sabe onde é? (o CAPS). (P3)

Essa fala sugeriu que o novo CAPS ainda era uma instituição abstrata para as pessoas, principalmente para os pacientes. Representava algo que ainda viria a se constituir, ou seja, algo que está fora do "aqui e agora" do encontro, mas presente na fantasia de todos. A reunião também estava assumindo espaço de não-encontro (no sentido de uma não agregação de valor).

Nesta assembléia o tema da reunião não é a pauta explícita, o que é um indicativo de que não estava sendo possível verbalizar no início do encontro as angústias de forma manifesta.

A1L17 - (Mudar) É a pior besteira que vocês tão fazendo no mundo, como já falei para a E3. (P3)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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