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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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V - APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Pretendo apresentar cada assembléia separadamente, precedida de suas respectivas descrições dos contextos institucionais, que consistem em um tipo de relato comentado do momento institucional e das vivências que tive em cada etapa da mudança. Essas contextualizações foram desenvolvidas pois as considero importantes para que o leitor possa acompanhar os rumos que o processo de mudanças foi tomando, assim como o impacto de algumas decisões administrativas sobre a Instituição Matriz, a equipe e os pacientes do CAPS. Essas descrições do contexto institucional apresentam minha vivência enquanto pesquisadora e profissional, em seus aspectos transferenciais e contratransferenciais, e por esse motivo, estão redigidos em uma linguagem bastante emocional, o que se assemelha ao conceito bioniano de memória. O conteúdo descritivo encontra-se redigido em letra normal e as observações que acrescento ao material estão em itálico.

A descrição do contexto institucional de número cinco não acompanha a mesma lógica dos anteriores, pois trata-se simplesmente de uma contextualização final de nossa experiência, de modo a esclarecer que rumos a mudança de casa do CAPS tomou após a data da última assembléia, chegando até o momento da conclusão deste trabalho.

Cada assembléia será apresentada a partir de uma análise da dinâmica e das formas de interação grupal, de modo a ressaltar os elementos significativos para a elucidação dos mecanismos psíquicos emergentes, o que implica que as assembléias não serão apresentadas na íntegra, o que ocorrerá nos anexos de A a D. Farei uma análise da transferência e dos movimentos grupais utilizando o referencial grupoanalítico, procurando analisar o grupo como um todo, dentro do conceito de matriz grupal, desenvolvido por Foulkes e Cortesão.

Conforme Padilha (2002):

... o trabalho elaborativo segue os elementos descritos pela teoria freudiana para o trabalho com o sonho, ou seja, existe uma investidura inconsciente em elementos condensados que o processo secundário irá desdobrar em significado e é este significado que aglutina, perpassa, ordena a comunicação, dando uma unidade à sessão. Em termos operacionais buscamos a "manchete do jornal", ou seja, nas primeiras falas do paciente, aquilo que, através da condensação, ele trás como emergente e que, depois, no desenrolar da sessão, ele vai falando de diversas formas, usando diversos personagens, várias situações para se fazer entender. É como se o paciente nos desse o núcleo de sua angústia e, depois, fosse procurando formas de comunicação mais próxima ao processo secundário (p.64).

Portanto, a primeira fala expressa em cada encontro será considerada como tema e/ou "manchete do jornal", sendo ponto de partida para as interpretações da dinâmica grupal. As falas serão analisadas a partir do conceito de porta-voz, considerando que não representam um conteúdo individual e sim, grupal, conforme apresentado anteriormente.

O início de cada fala foi numerado, então sempre que me referir a uma fala em especial ela será acompanhada de uma sigla na qual consta o número da assembléia na qual ela apareceu, representada pela letra A e seu respectivo número (A1, A2, A3 e A4) e virá seguida da linha na qual a fala está colocada, que será representada pela letra L (L1, L2, L3, L4 e assim por diante). Dessa forma teremos, por exemplo, a citação de uma fala com a sigla A1L33, que representa que esta fala ocorreu na assembléia 1 (A1), linha 33 (L33). As falas que estão redigidas em negrito foram retiradas do relato da assembléia como foram pronunciadas no grupo e as falas sem negrito são os comentários e interpretações que faço.

Procurarei tanto nas assembléias, quanto nas descrições do contexto institucional apresentar os principais mecanismos de defesa, as principais angústias e relações de objeto, de forma a propiciar reflexão sobre o material resultante dos encontros.

No item "Reunindo os fatos" fiz um fechamento das experiências descritas nas contextualizações, procurando identificar alguns elementos que causaram os eventos em questão, dentro da noção de "paradigma circular", descrita por Osório, 2003.

E finalmente, no item "Somando experiências", faço uma análise das quatro Assembléias em conjunto, destacando os aspectos mais significativos que emergiram desses encontros.

1.) ASSEMBLÉIA 1

Descrição do contexto institucional

Durante o processo de mudanças a equipe do HD aguardava o momento de ter oficialmente uma identidade de CAPS. No cronograma da prefeitura havia algumas prioridades para 2001 e 2002:

fechamento de um hospital psiquiátrico e a recolocação de seus funcionários em outros serviços de saúde mental, dentre eles, na instituição matriz;

a fundação de um novo CAPS em uma das regiões da cidade na qual a população estava reivindicando um serviço como esse;

a transformação em vinte e quatro horas de três CAPS que já estavam em funcionamento;

a criação do serviço de atendimento a dependentes de substâncias psicoativas da Instituição Matriz.

O momento de nossa mudança de casa foi constantemente adiado, em função de falta de recursos financeiros. O HD era considerado um serviço que funcionava bem, portanto, não era prioridade no rol de mudanças propostas. Não tínhamos nenhuma previsão de prazos, a mudança era algo que poderia ocorrer rapidamente ou não. Desde que as mudanças começaram a ser implementadas na cidade, a equipe do HD começou a informar aos pacientes que o processo de mudanças seria algo inevitável e ocorreria tão logo possível. Nessa espera se passou aproximadamente um ano, sem que tivéssemos uma data estimada para a nossa mudança.

Antes de a prefeitura iniciar as mudanças no modelo de saúde mental do município, mudar era um desejo ambivalente da equipe do HD. Era algo cogitado pela equipe, mas que nunca havia saído do campo das idéias.

A prefeitura transformou esse desejo ambivalente em uma diretriz e a partir deste momento, deixamos de ser consultados sobre as mudanças que nos envolviam diretamente e passamos a receber "verticalmente" as informações sobre nosso futuro.

66,67,68,69


Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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