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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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I - INTRODUÇÃO

A reforma psiquiátrica, no Brasil, teve início há cerca de vinte anos, o que, em termos históricos, representa muito pouco tempo. Neste período, mudanças importantes ocorreram, tanto na atenção à saúde mental, como nas políticas públicas. No entanto, ainda existe muito a ser feito, o que implica que os profissionais de saúde divulguem experiências na área e no desenvolvimento de conceitos teóricos, que possam embasar a prática clínica e a mudança de paradigmas na área de saúde mental.

Segundo dados epidemiológicos, divulgados pelo Ministério da Saúde em 2001, 3% da população brasileira exigiam cuidados contínuos em saúde mental. Considerando que, atualmente, o número de pessoas atendidas não ultrapassa os quinhentos mil, há uma demanda de atendimento de cerca de cinco a seis milhões de pessoas. Isso implicaria uma necessidade radical de ampliação de serviços, sem considerar a questão de uma melhoria na qualidade da assistência dos serviços já existentes.

A rede de atenção à saúde mental dispõe atualmente de várias alternativas de tratamento. Essas variam desde serviços bastante adequados, em sintonia com princípios da reforma psiquiátrica (que serão descritos no decorrer do trabalho), até formas de atendimento consideradas criminosas.

Esta dissertação é resultado de minha experiência profissional como psicóloga clínica em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e, por estar refletindo aspectos relativos à minha prática profissional, será toda redigida em primeira pessoa. Como psicóloga do então chamado Hospital-Dia (doravante chamado HD), eu me perguntava o que os pacientes estavam tentando dizer sempre que se colocavam contrários às mudanças propostas. A partir daí começou a surgir em mim essa inquietação, que se transformou, em minha questão de pesquisa. Passei a me interrogar se este "não" que diziam à mudança de espaço físico era parte de um processo normal de resistência a mudanças ou se estava expressando uma opinião que a equipe, por alguma razão, não estava podendo ouvir e levar em consideração.

O município passou por um novo processo de mudanças em seu modelo de saúde mental, durante o ano de 2001, que deram continuidade às transformações que tiveram início há cerca de treze anos, através de sua inclusão no movimento de reforma psiquiátrica e, em função dessa, passou a investir na implantação de novos serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos. Essas reformulações consistiram no fechamento de um hospital psiquiátrico e na criação de quatro CAPS vinte e quatro horas que, seriam responsáveis pelo atendimento da clientela que apresenta quadros de psicoses e neuroses graves.

O CAPS no qual esta pesquisa se realizou funcionava anteriormente como um Hospital-Dia e atendia aproximadamente cento e vinte pacientes. Esse Hospital-Dia sofreu a mudança de nome, passando a ser oficialmente um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), apesar de já funcionar na prática como tal. Mudou de sede, passando a funcionar em uma casa na comunidade de sua área de cobertura e sofreu uma transformação em sua estrutura de funcionamento, passando a ser um serviço com funcionamento vinte e quatro horas, passou a funcionar com leitos para pernoite dos pacientes já inscritos no serviço. Mas, apesar dessas mudanças estarem em perfeita sintonia com o que se preconiza como mais moderno e inovador no campo da saúde mental, os pacientes se colocavam insistentemente contrários a algumas das mudanças propostas, em especial à mudança de espaço físico.

Para a equipe e para os responsáveis pela administração do Hospital-Dia, mudar de casa fazia parte de uma das diretrizes da mudança de modelo. Estas determinam que os serviços sejam espalhados pelo município, ou seja que sejam regionalizados e estejam - teoricamente - mais próximos da população moradora de cada região o que permitiria explorar melhor os recursos comunitários e humanos de cada área geográfica. Portanto, a equipe e os administradores acreditavam que mudar era o melhor a ser feito. O HD deveria sair do espaço físico do antigo hospital psiquiátrico e deveria instalar-se em uma casa em um dos bairros da cidade. Sendo assim, a decisão de mudar de casa foi tomada pelos gestores, ou seja, os profissionais de cargos públicos e administrativos responsáveis pelo funcionamento dos serviços de saúde mental da cidade. Os pacientes não foram consultados durante o processo decisório, foram apenas informados previamente de que a mudança ocorreria e a equipe tentou trabalhar seus sentimentos e explicar o momento político e as transformações do modelo.

Como todas as mudanças são feitas visando beneficiar os pacientes, uma vez que buscam uma melhora nos serviços públicos de saúde mental, a questão se impunha a mim: por que eles não a consideravam boa? Assim resolvi transformar esses questionamentos em dissertação de mestrado, como uma forma de refletir sobre a minha prática profissional e aprender com essa nova experiência.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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