Cândido Escola
Teses
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental | A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental |
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| Por Ana Carla Silvares Pompêo | |
| 31 de maio de 2004 | |
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8) PSICOSE E PARTE PSICÓTICA DA PERSONALIDADEPara Bion (1994) a linguagem verbal no esquizofrênico tem três usos possíveis: como método de comunicação, como forma de ação (a serviço da divisão de objeto e da identificação projetiva) e como forma de pensamentos (pensamentos em geral sem pensador). O autor afirma que os pacientes utilizam a ação muitas vezes como substituta de um pensamento, em situações onde normalmente estes seriam necessários, de forma a fazer concretamente algo que demanda pensamento. Apresentam uma forma peculiar de estabelecer relações de objeto; estabelecem, em geral, relações de objeto parciais e têm dificuldades no processo de formação de símbolos. Processo esse característico da posição depressiva e envolve a capacidade de perceber objetos totais, o que é difícil para o psicótico, que permanece fixado a mecanismos característicos da posição esquizoparanóide, e faz uso das suas defesas características (cisão, identificação projetiva, fragmentação, introjeção e idealização). Possuem um superego arcaico e primitivo e muitas dificuldades de lidar com a dor característica da posição depressiva. Bion (1957) apresenta quatro traços da personalidade psicótica: 1. Predominância de impulsos destrutivos, que chegam a atingir seus impulsos amorosos que se transformam em sadismo. 2. Ódio à realidade interna e externa, assim como a tudo que contribui para sua percepção (ocorrem ataques ao aparelho perceptual). 3. Um terror de aniquilação iminente. 4. Formação prematura e precipitada de relações de objeto, tornando a transferência com eles prematura, frágil e tenaz, sendo que o vínculo com o analista é extremamente dependente. Ele desenvolveu o conceito de Super-ego (ou Super-superego), que caracteriza o funcionamento das partes psicóticas da personalidade no qual o indivíduo cria sua própria moral, relacionando-se com o mundo externo como extensão de si mesmo. A presença de estados confusionais é freqüente e ocorre porque, no vínculo, se observa um relacionamento no qual, após a cisão, alguns fragmentos de sua mente (idéias, partes do self , afetos, etc) são projetados para dentro do analista, através do mecanismo de identificação projetiva. A análise é marcada por constantes tentativas de ampliar e de restringir o contato com o analista. Para Freud (1924) nas neuroses o ego suprime parte do ID para manter seu contato com a realidade, o que ocorre de forma inversa na psicose, na qual o ego, à serviço do ID, retira-se de uma parte da realidade. Bion (1967) discorda da seguinte definição de Freud (1911), pois não acha que o ego seja retirado completamente da realidade: Eu diria que o seu contato com a realidade é mascarado pelo predomínio, na mente e no comportamento do paciente, de uma fantasia onipotente cujo propósito é o de destruir não só a realidade, mas a percepção dela, e assim atingir um estado que não é vida nem morte. Uma vez que o contato com a realidade nunca é inteiramente perdido, os fenômenos que costumamos relacionar com as neuroses jamais estão ausentes... Do fato de que o ego conserva contato com a realidade depende a existência de uma personalidade não psicótica paralela à personalidade psicótica, embora obscurecida por esta... O afastamento da realidade é uma ilusão, não um fato, que decorre do emprego de identificação projetiva contra o aparelho mental... Tal é o domínio dessa fantasia que é evidente que, para o paciente, não se trata de uma fantasia, mas de um fato, e o paciente age como se seu aparelho perceptivo pudesse ser cindido em diminutos fragmentos e projetado para dentro de seus objetos (Bion, 1957. In: R. Barros, 1988: p.72). Para Bion (1957), os indivíduos neuróticos também apresentam uma parte psicótica da personalidade, que funciona numa caracterização inversa da apresentada para a psicose. Rosenfeld, D. (1994) complementa a visão de Bion: Podemos, portanto, conjecturar que a parte sadia ou neurótica, sempre presente em qualquer paciente, é capaz de estabelecer alguma forma de relação transferencial com aquela parte cindida do ego. Podemos entender algo sobre o paciente psicótico graças a sua parte mais sadia através da qual ele pode verbalizar e formar conceitos (p.32). Para esse autor, o analista deve funcionar como um ego integrador para seus pacientes psicóticos. Ele faz uma observação importante quanto à técnica que desenvolveu para o atendimento dos pacientes em questão: ... lembrar que, se o paciente descobre que existe alguém capaz de conter ou tolerar sentimentos insuportáveis para ele, quando sempre pensou que não existia ninguém com essa capacidade , isto pode significar o início de uma nova concepção de vínculo e de relações humanas (p.43) Para Caper (2002), a psicose ou os indivíduos com personalidades narcísicas apresentam dificuldades para aprender com a experiência, o que decorre da incapacidade de perceber o self como objeto total ou de se colocar no lugar do outro, o que implicaria na consideração de que o outro teria mente própria. Esse autor relembra que, no conceito de delírio desenvolvido por Money-Kyrle em 1968, eles constituem-se em idéias fixas não sujeitas a transformação a partir da experiência. Para Caper (2002) os delírios são fantasias inconscientes onipotentes. Ao passo que os delírios inconscientes solapam nossa capacidade de aprender com a experiência, a fantasia inconsciente é um componente essencial do aprendizado pela experiência, uma vez que um dos principais meios que aprendemos sobre a realidade é fazendo hipóteses sobre ela, na forma de fantasias, testando-as depois por meio da percepção...Fantasias inconscientes onipotentes (delírios inconscientes) diferem das fantasias comuns justamente nesse ponto: elas não podem ser confirmadas, nem refutadas, pela percepção...Ao contrário das fantasias e dos pensamentos, que podem ser apresentados como hipotéticos, os delírios são sentidos como concretamente reais mais como um dogma do que como idéias...Quando os delírios se defrontam com experiências que podem solapá-los, ao invés do delírio ser modificado pela experiência, a experiência pode, ao contrário, ser absorvida dentro do sistema delirante...(p.116). 66,67,68,69
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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