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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Being é algo diferente de uma imitação, que implica muitas vezes em um sacrifício da própria personalidade, mas em ir além, em transcender. Ele exemplifica com o conceito de discípulo, no qual a fidelidade à um autor ou teoria, não significa voltar a seu texto, mas sim, partir dele, pois a grande revolução encontra-se na possibilidade de olhar para frente, em direção ao futuro e às verdades relativas.

Rezende cita Umberto Eco e seu livro "O símbolo":

Dentro do signo, cabem várias categorias, dentre as quais o sinal e o símbolo. Na elaboração dos sinais, temos a semiótica; na elaboração do símbolo, temos a semântica. Quando falo de sentido, estou falando da relação entre semântica e semiótica. E a significação pode ser entendida como ação de fazer sentido, aos outros, por meio de sinais, a respeito do mundo. Faço sentido, fazendo sinais, aos outros (p.254).

Para Rezende a elaboração da posição depressiva é uma forma de simbolização, visto que:

o self se torna capaz de juntar o positivo e o negativo, a vida e a morte. Sem descoberta do negativo, fica-se na posição esquizoparanóide, que além de ser maníaca, pode também ser superegóica e narcisista, por meio de defesas tais como a idealização (p.257).

Para concluir apresentarei o conceito bioniano de "função analítica", que só pode ser compreendido após os esclarecimentos anteriormente feitos.

A "função analítica" é um conjunto formado pelos diversos fatores seguintes: função alfa, rêverie , compaixão, capacidade nominativa, capacidade negativa, at-one-ment e being (Rezende, 2000: p.18).

7) A "SÍNDROME COMO SE"

A partir das idéias de Klein, Bion e Herbert Rosenfeld, Britton (2003) propõe o conceito de "Síndrome como se", que considero importante descrever neste trabalho.

Freud (1993-5) desenvolveu o conceito de recusa, para descrever o fenômeno da cegueira do olho que vê, o que seria uma forma não psicótica de negação da realidade. Nesse caso a recusa impede a compreensão do significado das coisas e não sua percepção. Britton (2003) sustenta que Steiner, em 1985, chamou essa defesa de "fazer vista grossa" e relacionou-a a questões edípicas. O autor a considera uma forma de "suspensão voluntária da crença", no qual a crença é suspensa para evitar suas conseqüências emocionais; isso resulta em um estado de irrealidade psíquica, o que, no caso a síndrome deixa de ser um fenômeno intermitente e faz com que seja um estado mental permanente, que se manifesta clinicamente através de um estado de falta de conseqüência, de uma recusa difusa. Esse fenômeno se apoia no conceito de Vaihinger (em sua filosofia "como se", 1912) de crenças religiosas para pessoas que convivem com uma mentalidade científica, para as quais, em geral, as crenças adquirem um caráter de uma verdade teórica, o que as preserva enquanto uma espécie de ficção prática. Na clínica, isso se observa na forma dos pacientes com "personalidade como se" reagirem às interpretações; as consideradas crenças do analista ou o insight (crenças do paciente) são tratadas como ficções práticas, de caráter útil, mas não sentidas como verdadeiras. Isso inviabiliza a função normal das crenças, da descrença e das fantasias, que passam a ser tratadas como, nem verdadeiras, nem falsas, o que traz uma sensação de irrealidade e a ambigüidade funciona como defesa para a ambivalência, e alivia a angústia.

Segundo Britton,

O lugar da mente buscado ou criado por essa suspensão da crença está, penso, relacionado com a noção de Winnicott de 'espaço transicional', que ele descreveu como 'uma área intermediária de experiência que não é desafiada (artes, religião, etc)' (Winnicott 1951: 240, In 2003: p.33).

Essa postura na qual os fatos são conhecidos, mas não é possível acreditar neles, relaciona-se ao conceito de Helene Deutsch, que em 1942, conceituou a "personalidade como se", na qual a recusa não ocorre mais como Freud (1927b) descreveu, restrita a casos de perversão ou de neurose obsessiva, mas passa a estruturar-se como núcleo da personalidade do indivíduo, influindo na forma como se relaciona com seu mundo. Esse tipo de pessoa aparenta além das características já apresentadas, uma completa falta de conflito, demonstrada através do contraste entre uma aparente capacidade emocional sensível e uma ausência de experiência interna.

Para Britton (2003), essas pessoas não utilizam mecanismos normais de defesa: fugir para a realidade externa, escapando do contato com a mente, ou se refugiar no mundo interno para evitar o mundo real. Elas não o fazem, pois ambas as realidades a aterrorizam. Esse comportamento resulta em uma postura de indiferenciação das coisas do mundo externo e o que também ocorre no mundo interno: os pensamentos, sentimentos, percepções e as experiências perdem significados, a partir do momento em que tudo é menosprezado, banalizado, transformando-se em um fazer e em um existir, sem conseqüências (riscos) aparentes. Não ocorrem conexões entre seu estado emocional (afeto presente) e as idéias que o desencadeiam.

Esses pacientes evitam a mudança psíquica, optando por essa posição de descanso permanente, pois não podem aprender, entrar em contato com sua crença inconsciente de possuir objetos internos irremediavelmente danificados e malignos. Esses fenômenos podem ser desencadeados por um episódio traumático, que bloqueia a conexão entre mundo interno e externo, através da interrupção do fluxo de projeções e introjeções. Caso isso se torne crônico, passa a ocorrer o que o autor chama de pseudo-projeções e pseudo-introjeções. Passa a existir uma espécie de negação silenciosa de tudo com o que se concorda de forma manifesta, imperando em seu estado latente, a idéia inversa, o que traz uma aparência de equilíbrio nas relações interpessoais, mas sem que seja possível ocorrer um contato real; o desenvolvimento do vínculo e de seus protagonistas é impossibilitado.

Penso que esse tipo de fenômeno "como se" pode ocorrer em pessoas (profissionais e pacientes), em relacionamentos profissionais que envolvam diferenças hierárquicas, entre instituições (durante processos de negociações) e também entre profissionais e instituições. E ele pode ser transitório, originado a partir de um tipo de evento traumático ou se tornar crônico (sindrômico).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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