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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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O establishment , para enfrentar essa ameaça, pode reagir de forma a incorporar o "gênio" (pessoa ou algo representativo da idéia nova) para dentro do próprio establishment ou excluí-lo, transformando-o em bode expiatório.

Segundo Rezende (1995), Bion propõe o desenvolvimento de um pensamento em expansão, o que só pode ocorrer dentro de um espaço simbólico. Para ele: "O símbolo é uma polissemia encarnada, estruturando-se dialética e dinamicamente na transcendência" (Rezende, 1995: p.239).

Para o autor todas essas propriedades são essenciais à vivência simbólica. Para ele, polissemia implica na conjunção de vários elementos, uma vez que um único elemento semântico não tem a propriedade de ser considerado um símbolo. Encarnada pelo fato do corpo ser nosso primeiro referencial para a experiência simbólica, o que ele baseia na "fenomenologia da percepção" de Merleau-Ponty. Para este último, complementa, Rezende (1995), "a estrutura é uma multiplicidade unificada por uma ordem cujo sentido é correspondência intencional à situação existencial" (p.241). A dialética se explica em função da conjunção de ser e não ser representar a essência do símbolo, dentro de uma estrutura dialética, uma dialética dos contrários. Exemplifica que somos mente e psique, amor e ódio, alegria e tristeza, desejo e fuga, esperança e desesperança, medo e coragem, etc. Pensar simbolicamente é ter um pensamento dinâmico , ativo, em constante articulação. Ele complementa ao explicar o uso da palavra transcendência: um símbolo faz parte de um universo de símbolos, no qual um desencadeia outro, como na construção de uma cadeia associativa e isto nos transporta para o universo simbólico dos outros. Esta seria a base do desenvolvimento do ego, através da superação do narcisismo.

Ele complementa que "de símbolo em símbolo, vamos até Ó , como integrador de todos os outros símbolos..." (p.243).

O autor refere-se à concepção homérica de símbolo kleiniana, pois assim como Homero ensinou a Grécia a pensar, Klein descobriu os pais simbólicos na elaboração do complexo de Édipo primitivo. Rezende (19950 apresenta uma outra concepção sua de símbolo, que seria comum à Klein e Homero, que relatarei a seguir, complementando-a com suas explicações para a definição abaixo:

O símbolo era um objeto primitivamente uno (mãe grávida), que duas ou mais pessoas repartem entre si no momento em que vão se separar por um longo tempo (nascimento, que os transforma em dois: mãe e bebê). Cada um conserva o seu fragmento em lugar do vínculo que havia entre elas (representa o cordão umbilical e cada uma das duas pessoas). Mais tarde, muito tempo depois, quando se reencontram, cada qual se serve de seu fragmento para se fazer reconhecer. Nesse reconhecimento, identificam-se por um nome novo como sinal de um lugar que vão ocupar e da função que vão desempenhar no todo igualmente renovado (vínculo se dará simbolicamente) (p.243).

Comenta que Bion pratica uma "filosofia do símbolo", que não tem características de um sistema científico-dedutivo. Para ele, "universo em expansão" representa um conceito semelhante ao dos "pensamentos à procura de pensadores". Acrescenta que Bion não só ensina a pensar, mas isso implica deixar alguém pensar, pois ensinar a pensar não significa pensar no lugar de um outro.

Ele traz uma explicação bastante esclarecedora sobre os conceitos de Being , Ó eAt-one-ment .

Ser é mais importante do que dizer, mais importante do que sentir, mais importante do que entender. O que você é fala mais alto do que o quanto você diz. Para Bion, a grande transformação simbólica é a transformação do ser, ou no ser, que ele traduz como Being em relação à Ó , em At-one-ment : ser um só com Ó. Being, ser e estar. Um Being que é, ao mesmo tempo, ativo e passivo. Aliás, o verbo ser é o mais simbólico dos verbos, pois comporta as variações de todos os outros. Por isso, em uma tentativa de dizer o que há nesse Being, proponho a tradução estar-se-sendo-si-mesmo. É um pronominal, reflexivo (eu estou me sendo), mas que diz também a continuidade no ser. E este estar-se-sendo em At-one-ment é explicitado por Bion como sendo em acordo com Ó , em direção a Ó . E o aspecto transcendental unitivo é ser ou estar de acordo com Ó. Vejam como é preciso ler toda a obra de Bion para dela extrair um conceito de símbolo capaz de transação, em que o conceito e a intuição se con-juntem. ' Conceito sem intuição é vazio, intuição sem conceito é cega.' (p.250 e 251).

O autor complementa dizendo que outro conceito de Bion, o de "mudança catastrófica" implica o abandono de certezas teóricas em favor de evidências. Para ele, At-one-ment não se refere a uma certeza teórica, muito pelo contrário, é algo que não se descobre com a visão, mas é algo que se é, que se descobre através do "aprender com a experiência", ou seja, com a prática, que implica uma vivência. Ó é uma evidência inerente ao ser (Ó é um símbolo que representa a coisa em si mesma, que pode ir de zero ao universo, algo que entendo como um tipo de autenticidade muito primitivo, que não pode se expressar em palavras, a essência de cada ser humano).

Ele acrescenta ainda que Bion simboliza catastroficamente, alterando o vértice do ver para o do ser, através do conceito de "negatividade", no qual o ser dispensa o dizer, o que seria o aspecto fundamental do processo de comunicação e de vinculação. A negatividade introduz a todos em um espaço aberto. Trata-se de uma negatividade positiva, que é algo distinto de uma negação, que só é possível a partir de um processo de "aprender com a experiência".

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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